sábado, 13 de outubro de 2012

...NO MERCADO HUMANO





Foi nos idos de 1967, como acadêmico do curso de Medicina da U.F.Pb  que, em um dos sebos de João Pessoa – Paraiba, me deparei pela primeira vez com as obras do Alemão Erich Fromm (1900 ― 1980) —, sociólogo, psicanalista e filósofo, contemporâneo de Freud. Foi a partir do livro “Ter ou Ser?” que me tornei um leitor aficionado desse humanista, chegando a adquirir com muito esforço, dez livros do acervo de suas vinte e duas obras.

O livro “O Dogma Cristão” (1963) de sua autoria, em sua quinta edição -esgotada (Editora Zahar – 1974), tem, na página 30, um ensaio emblemático ainda muito válido para nossa época, com o título: “A Presente Condição Humana”

Alguns trechos desse capítulo, quero aqui destacá-los, pela impecável exposição do autor, quanto ao caráter do homem moderno e sua função mercantil.

Diz, Erich Fromm:

No século XX o caráter do homem foi moldado pelas exigências do mundo que ele construiu com as próprias mãos. Esse caráter foi determinado pelo desejo de explorar os outros e poupar os ganhos para obter novos lucros.
O homem contemporâneo é, sem dúvida, passivo durante a maioria do seu tempo. É um consumidor eterno, que aceita bebidas, alimentos, cigarros, conferências, panoramas, livro, cinemas — tudo isso é consumido, engolido. O mundo é um grande objeto de seu apetite, uma garrafa grande, um seio grande. O homem tornou-se o amamentado, o que espera sempre — e o eternamente desapontado.

Que tipo de homem, portanto, necessita nossa sociedade a fim de funcionar sem atrito? Precisa de homens que cooperem facilmente dentro de grandes grupos, que desejem consumir mais e mais, e cujos gostos padronizados possam ser facilmente influenciados e previstos [...]. [...] O Homem se sente como o portador ativo de suas forças e riquezas, mas como uma “coisa” empobrecida, dependente de outras coisas fora dele, e nas quais projetou sua substância vital.

[...] Alegamos serem nossos os objetivos da tradição judaico-cristã: o amor de Deus e o de nossos vizinhos. Ouvimos dizer que atravessamos um período de promissora renascença religiosa. Nada poderia estar mais longe da verdade. Usamos símbolos pertencentes a uma tradição religiosa autêntica e os transformamos em fórmulas, que servem às finalidades do homem alienado. A religião tornou-se uma concha vazia, foi transformada num sistema de auto-serviço para aumentar a nossa capacidade de êxito. Deus tornou-se um sócio nos negócios. [...]. [...] Tal como o homem primitivo estava impotente frente às forças naturais, também o homem moderno se encontra desarvorado frente às forças sociais e econômicas por ele mesmo criadas.

O ensaio, do qual pincei os trechos acima, foi escrito na Alemanha em 1930. Estamos em 2012, e a evolução tecnológica e científica nem de longe conseguiu substituir ou modificar o seu conteúdo. Uma prova disso é que as mostras de mecanização do homem se repetem na nossa atual vida afetiva, econômica, psicológica e política. O desejo do renascimento do Novo Homem saturou-se. Nem o avassalador desenvolvimento cibernético conseguiu aproximar o homem dele mesmo.

E agora José?

Site da Imagem: agracadedeusmebasta

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