sábado, 3 de março de 2012

A semente de Noé e a semente de Caín








“E há quem procura virtudes na raça humana sendo que seu próprio criador se arrependeu do feito” (Altamirando Macedo)





Pegando ainda esse fiapo das discussões do texto anterior, quero destacar essa frase do Altamirando. Nas narrativas do Gênesis, de fato, Javé arrepende-se de ter feito o homem. Assim traduz o texto a Torá da Editora Sêfer:


“E o Eterno viu que era grande a maldade do homem na terra, e que todo impulso dos pensamentos do seu coração era exclusivamente mau todo dia. E arrependeu-se o Eterno de ter feito o homem na terra, e pesou-lhe em seu coração. E disse o Eterno: ‘ Farei desaparecer o homem que criei de sobre a face da terra(...)


Esse texto da Torá nos mostra uma reflexão bem pessimista do autor em relação ao gênero humano. O mau e não o bem é o que  impulsiona o homem; o vício e não a virtude é o que lhe faz companhia;  O ódio e não o amor é o que ele expressa em suas relações com o outro. Chega a ser comovente  a construção poética do autor ao dizer que o Eterno ficou com um “peso no coração” ao ver sua obra-prima corrompida.  Não valeria mais a pena continuar com seu projeto. A criação de um ser livre que não fosse condicionado a fazer sempre a sua boa e perfeita vontade só poderia mesmo descambar para a ruína moral. 

O Eterno, nessa ocasião, concordaria plenamente com a observação do nosso confrade Márcio Alves que disse 


“(...)Dose alta de pessimismo meu? Com certeza...sou totalmente pessimista em relação ao ser humano(...)


Tanto o Eterno concordaria com essa afirmativa que ele resolve se desfazer de sua criação: Iria matar a espécie humana, já que melhor seria não haver humanos para contaminar ainda mais a terra com suas inclinações pervertidas.  Sem dúvida, o autor do texto da Torá, concordaria com Márcio e com Altamirando.


Mas aí, num último anelo de esperança, numa última possibilidade de preservação de sua obra, o Eterno acha graça em Noé...Em meio ao mar de maldade,  o Eterno achou um homem “Justo, perfeito nas suas gerações” . Por um justo, o gênero humano não seria apagado da existência.  Vejo nesse personagem, incluído  habilmente  na trama pelo autor da narrativa, um  sinal de que a humanidade, apesar de sua corrupção geral, tem em si mesma a potencialidade de fazer o bem e o que é justo. Noé ficou como um espelho, um paradigma de que a humanidade não  é uma “paixão inútil” mas que tem em si, o potencial de ir além de si e guiar-se por um sentido elevado de vida.


Sem dúvida, agora,  o autor bíblico concordaria com nosso confrade Levi que escreveu que


“acho que o sonho, a utopia, não podem ser expulsos  do ser humano, assim, sem mais nem menos. Apesar de todo mal estar da civilização, ainda penso que podemos ser capazes de obter uma vida mais digna e mais justa, entendendo que a tendência autodestrutiva dos apocalipses nossos de cada dia pode ser arrefecida. Quanto mais conscientes de nossa condição de seres paradoxais, formos, mais aptos seremos para suportar uns aos outros. Poetizando: somos adestrados para o convívio real ou virtual, visando o estabelecimento de ligações afetivas mais estáveis e equilibradas, sem o maniqueísmo do proselitismo que faz do outro um objeto.”


Sabemos porém  que na narrativa bíblica o nobre e justo Noé não foi capaz de gerar filhos à sua imagem e semelhança, já que os homens  outra vez voltaram à mesma corrupção de antes. Parafraseando o poeta,


“E agora Javé”?


A única saída para o Criador, que prometera não mais destruir a humanidade, foi aceitar seus filhos como eles eram: caídos, maus, corruptos, mas com a semente do justo Noé adormecida em seu ser, que com certeza, poderia ser despertada  ao longo da sua evolução; Javé espera, pacientemente, que seus filhos de fato, cheguem a ser  imagem e semelhança dele; conhecedores do bem e do mal mas que escolhem por livre iniciativa, o bem.



Eduardo Medeiros, 3 de março de 2012.
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