sábado, 3 de novembro de 2012

A Moral, a Culpa, o Esquecimento e outras coisas...

          

 
                                                                                                                                   Elídia
           Estava lendo a Genealogia da Moral, confesso, por obrigações acadêmicas, mas nunca os conceitos enraizados em mim, embora enfraquecidos pelo exercício do pensamento da diferença, foram tão contestados com a leitura do livro fininho do alemão...

           Um dos capítulos que trata o livro, é o da culpa versus esquecimento. De forma coerente e simples, Nietzsche despedaça alguns conceitos da moral implantada através dos sistemas religiosos, para que o homem se condicionasse através dos tempos, e produzisse através da culpa, o modo de civilização tal qual vemos instituído. A leitura  que sai do modo representacional clássico, é incrivelmente contemporânea apesar do tempo cronológico em que foi escrita.

           O problema da moral, para Nietzsche,  parece convergir em alguns momentos com a metapsicologia freudiana, pelo sentimento de culpa interiorizado no homem (o Édipo) e a memória da culpa desde um passado pré-histórico, avançando até a instituição da religião judaico-cristã (Genealogia da Moral). Em Nietzsche parece que se avança um pouco mais pois este aponta o 'esquecimento' como um caminho possivel para 'sublimar' esse fardo. 

Aqueles terríveis baluartes com que a organização estatal de protegia contra os velhos instintos de liberdade (...), acarretaram que todos aqueles instintos do homem selvagem, livre, errante,  se voltassem contra o homem mesmo. A hostilidade, a crueldade (...) - tudo isso voltado contra os possuidores de tais instintos: essa é a origem da má-consciência. O homem (...) foi o inventor da má-consciência.(Nietzsche)
Conhecemos, pois, duas origens do sentimento de culpa, aquela a partir da angústia perante a autoridade e a posterior, a partir da angústia perante o superego. A primeira constrange a renunciar às satisfações pulsionais, a outra compele, além disso, à punição, pois que não se pode ocultar do superego a permanência dos desejos proibidos. (Freud)
 Com efeito, segundo a interpretação de Freud, uma das pilastras do Cristianismo consiste justamente no reconhecimento da razão originária daquele embotado mal-estar que oprimia a consciência dos antigos povos do Mediterrâneo: sofremos porque matamos Deus-pai; por conseguinte, merecemos o sofrimento como punição.


A religião cristã apresenta-se, para Freud,  como a sintomatologia de uma neurose obsessiva da humanidade, que configura uma ilusão atenuante do sentimento de culpa, o que constitui uma das razões principais de sua eficácia histórico-mundial. (Oswaldo Giacoia Junior).

           O que poderia ser o 'esquecimento' como potência para minimizar os efeitos da culpa no homem? É apontado nos autores mencionados, uma espécie de 'segunda inocência', e lembrei de meus amigos aqui, pois o ateísmo é levemente mencionado nesta reflexão. Também o budismo, em uma alusão ao pensamento oriental que Nietzsche recorreu algumas vezes. Mas não seria uma especie de 'outro subterfúgio'? Lembrei do 'novo nascimento' bíblico... Percebi que a busca de uma criança emblemática é presente em todas essas formas de pensar. Li aqui um belo texto publicado pelo dr. Levi, um poema de Pessoa ( O guardador de rebanhos) - que inclusive usei em minha dissertação - que fala também de uma 'outra inocência' possivel. Das muita formas de pensar, talvez foi a mais tocante...


* Nietzsche como Psicólogo - Oswaldo Giacóia Junior




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