quinta-feira, 9 de maio de 2013

Jesus ou Barrabás?



As narrativas evangélicas do interrogatório de Jesus por Pilatos abordam uma intrigante audiência pública em que o povo teve a oportunidade de escolher entre a soltura de dois homens: o Cristo e um revoltoso homicida conhecido como Barrabás.

Ao que parece, aquela teria sido a única eleição em que Jesus se expôs (forçadamente) já que a Bíblia de modo algum informa ter nosso Senhor concorrido a cargos públicos. Seu comportamento, aliás, nunca teve por objetivo agradar o ego humano apresentando-se simpático ao público, mas sim a partir de um necessário confronto com personalidade forte. E para tanto Jesus não mediu as palavras e menos ainda usava de bajulações quer estivesse diante de governantes, autoridades religiosas ou na companhia dos próprios seguidores.


"Mas os principais sacerdotes e os anciãos persuadiram o povo a que pedisse Barrabás e fizesse morrer Jesus. De novo, perguntou-lhes o governador: Qual dos dois quereis que vos solte? Responderam eles: Barrabás! Replicou-lhes Pilatos: Que farei, então, de Jesus, chamado Cristo? Seja crucificado! Responderam todos. Que mal fez ele? Perguntou Pilatos. Porém cada vez clamavam mais: Seja crucificado!" (Mateus 27:20-23; ARA)

Lamentavelmente, este episódio das Escrituras do Novo Testamento foi muitas vezes mal utilizado para promover um anti-seminismo ou anti-judaísmo. Contudo, o texto acima citado reflete as decisões infelizes tomadas por todos os povos no decorrer da História, permitindo sempre que o "espinheiro" reine como conta uma outra passagem da Bíblia (Juízes 9:7-15).

No seu desabafo Escuta, Zé Ninguém, publicado postumamente, Wilhelm Reich (1897-1957) chegou a afirmar que o homem é o seu próprio navio negreiro. E assim complementou:


"Estas são as verdades que tenho para dizer-te, Zé Ninguém, e contra as quais nada tem a opor, exceto o assassínio, o mesmo que perpetraste contra tantos outros homens que te estimavam: Jesus, Rathenau, Karl Libknecht, Lincoln e muitos outros. Na Alemanha costumava chamar-lhe 'depuração'. A longo prazo foste tu quem foste 'depurado aos milhões'".

Em nossa história brasileira não tem sido diferente dos demais povos. Muito pelo contrário! Em 1964, a nação permitiu que os militares depusessem João Goulart e se instalassem no poder por 21 anos, prendendo, exilando, torturando e assassinando milhares de seres humanos. A democracia voltou através de uma gradual abertura política e de uma Constituição promulgada somente em 1988, mas, no seu primeiro voto para presidente, o eleitor escolheu o corrupto Fernando Collor de Mello ainda hoje presente na vida pública como senador. No ano de 2010, a candidata verde Marina Silva (uma das melhores opções para o país) nem ao menos foi para o segundo turno. E, no ano passado (2012), quantos prefeitos ladrões não retornaram aos respectivos cargos que ocupavam em suas Sucupiras?!

Nessa análise, não tenho como discordar das críticas do brilhante psiquiatra dr. Reich. Talvez cada um possa encontrar motivos diferentes que expliquem o comportamento das pessoas quando estas continuam escolhendo Barrabás no lugar de Jesus. Porém, o certo é que, quando repetimos tal conduta, estamos boicotando a nós mesmos. Estamos recusando gozar a felicidade que é oferecida pela vida, preferindo as sombras de uma caverna escura do que contemplar a luz do dia, temendo o que possa haver lá fora. Ou quem sabe dentro da gente.


OBS: A gravura acima trata-se da ilustração "Dê-nos Barrabás" encontrada no volume 9 da The Bible and its Story Taught by One Thousand Picture Lessons, de 1910. Foi extraída do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:GiveUsBarabbas.png
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