domingo, 9 de junho de 2013

A aceitação total ao invés do afeto condicional

Tem-se constatado que muitos dos transtornos emocionais das pessoas têm originem num "amor condicional" praticado no meio familiar. Se é que podemos chamar de amor uma atitude de aceitação que se baseie na constatação de resultados como podemos observar na concepção legalista da divindade muito bem expressa pelo autor sagrado quando escreveu sobre Caim:

"Se procederes bem, não é certo que serás aceito?" (Gênesis 4:7a; ARA)

Essa história bíblica sobre o primeiro homicida da humanidade tem muito a nos ensinar acerca da carência emocional que temos. O filho mais velho do casal expulso do Paraíso, tido como o arquétipo dos homens maus, representa o adulto imaturo refém do próprio sentimento de rejeição. Alguém que tentou agradar, não conseguiu baseando-se unicamente no seu auto-esforço e, enfim, se decepcionou com a Vida.

A psicóloga Elisa Goulart, em seu livro Viver sem drogas: um projeto reeducativo para o homem, 1ª edição, publicado por uma editora espírita, vem nos falar sobre a pobreza afetiva existente na sociedade que subjaz ao nosso nascimento e aborda aspectos importantes dessa tragédia fazendo menção das exigências de comportamento perfeccionista que os pais e tutores impõem à criança, perpetuando um longo ciclo geracional. Trata-se, segundo ela, de uma "ditadura do acerto" capaz de produzir vergonha e culpa, caso as expectativas paternas não sejam correspondidas:

"Nas famílias em que o amor está sujeito a todas essas condições, existe um vazio emocional que tenderá a ser preenchido com metáforas de afeto para que o indivíduo se reintegre como pessoa. Neste particular, evidenciamos o uso de objetos de compulsão. O amor condicional é a base do empobrecimento emocional familiar, impedindo que a família cumpra seu papel de espaço de crescimento (...) Nossa ansiedade, o medo da rejeição ou da opinião alheia, a baixa auto-estima, são os pontos que precisam ser administrados para alcançarmos êxito na tarefa de educar. Precisamos investir em nosso crescimento pessoal para desfazer as distorções sobre nossa realidade íntima, buscar o auto-perdão. O grande empreendimento é desacreditar das verdades sobre nós na infância (...) Para a libertação é necessário usar paciência e tolerância com ferramentas que auxiliarão a sentir e expressar amor. Em verdade, diante da indigência afetiva, o amor se perde na dor de muitas gerações. Como defesa, criamos estratégias de luta e sobrevivência, que distorcem o afeto e mais machucam do que curam" (págs. 51-53)

Sem nenhuma pretensão religiosa ou proselitista, eu creio que o Evangelho de Jesus Cristo é resposta para tudo isso  como bem tem decifrado o festejado Augusto Cury e inúmeros outros terapeutas cristãos das mais diversas tendências nem sempre tão divulgados.

Há 2000 anos atrás, o homem de Nazaré veio ensinar ao mundo a sua arte de amar. Num contexto histórico-social repleto de atrocidades, Jesus inaugurou um processo de transformação da humanidade para ser alcançado no decorrer de muitas gerações. Em suas andanças pelas aldeias poeirentas da Galileia, acolhendo pessoas e transmitido seu ensino na forma de parábolas, o Mestre estava estabelecendo os princípios basilares desse novo tempo que chamou de "Reino de Deus".

Aderir ao projeto amoroso de Jesus significa reconhecer a gratuidade da vida. É aceitar o perdão dado imerecidamente por Deus, aplicando-o também a todos os que nos ofenderam, inclusive aos nossos pais quando estes abusaram da fragilidade que tínhamos lá nos primeiros anos da infância. E, ao invés de descarregarmos essas frustrações sobre a geração seguinte, buscaríamos educar os sentimentos e condutas.

"aquele que diz permanecer nele, esse deve também andar assim como ele andou" (1 João 2:6)

Nesta caminhada deve-se ter cautela para não toparmos na mesma pedra da incompreensão legalista na qual tropeçou Caim, o qual jamais soube se abrir para as oportunidades que lhe foram oferecidas. A convocação de Jesus para mudarmos o mundo a partir de nós mesmos faz parte de uma pedagogia graciosa na qual o aperfeiçoamento ético é exercitado pela reconstrução diária de nossas vidas entre erros e acertos. Algo que, insisto dizer, tende a se refletir no trato estabelecido com o outro.

Atualmente, através da Psicologia e das demais ciências, o homem dispõe de ferramentas para levar adiante a revolucionária proposta apresentada por Jesus. Devemos tratar de nós mesmos, dos nossos familiares (principalmente por uma educação sem traumas dos filhos menores), revermos os valores das escolas, bem com o das demais instituições, e dessa forma, pregarmos o Evangelho a toda criatura. E, obviamente que, quando falo de evangelização, não me refiro às velhas práticas proselitistas ineficazes adotadas por aí em várias congregações cristãs, as quais estão baseadas numa hedionda coação psicológica e não no amor.

Acredito que, como bem nos ensina Jesus, somos aceitos por Deus com todas as nossas compulsões e falhas de caráter. Esse acolhimento que ocorre na pessoa do Mestre é amplo e irrestrito. Ele jamais nos abandonará! Nosso poder aquisitivo, grau de instrução, posição social e até mesmo a reputação moral não importam. Se cometermos erros, ele estará do nosso lado para estender suas mãos e nos levantar. Não seremos rejeitados.

"e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora" (João 6:37b)

É dentro dessa visão que precisamos levar adiante essa pedagogia do amor como bem expôs a psicóloga Elisa no seu livro:

"O pensamento pedagógico tem se encaminhado à pedagogia do amor. Existem mais educadores falando de afeto, de sensibilidade e autonomia (...) Através do amor, seremos estimulados a olhar para dentro de nós, sem medo... Através do amor, nos perceberemos pessoas especiais... Imersos no amor estaremos aptos a fazermos boas escolhas (...) A educação tem sido utilitária; estuda-se para ser médico, professor, advogado ou psicólogo. E o homem? Onde está a pedagogia voltada para o crescimento do ser humano, tornando-o apto para tomar posse do reino de consciência? (...) Precisamos nos esforçar para nos libertar da herança do autoritarismo e da punição como condição de educação, e, para tal, teremos de fazer uma grande revolução. A pedagogia do amor é revolucionária (...) Como sugestão de um projeto para o homem viver sem drogas, deixamos o exercício que estamos fazendo: conhecer o mecanismo da paixão e compulsão; aceitar as fraquezas e limites pessoais; reconhecer os talentos; autoperdoar-se; conhecer o porquê da vida... E dar continuidade" (GOULART, Elisa. Op cit. Págs. 228-230 e 237)

Que possamos mesmo dar continuidade ao que nosso Senhor Jesus Cristo começou quando deixou as águas batismais do Jordão e se pôs a anunciar com simplicidade a chegada do Reino. Pois, mesmo que eu não veja com estes olhos a tão aguardada transformação ética planetária, espero que, em algum lugar do futuro glorioso, uma geração olhe para trás e se lembre daquela pequena semente do tamanho de um grão de mostarda um dia plantada na aridez do coração humano.

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