quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Um “Pega” no Século II Sobre o Filho de José

Por Levi B. Santos


Os judeus (rabinos) do século II viam o proselitismo em torno da figura de Jesus como um fenômeno de natureza fanática. Naquele tempo os judeus em suas Sinagogas eram coagidos pela igreja primitiva a confessar a messianidade de Jesus. Por essa época, a história da concepção de um filho de Deus por uma virgem estava sempre motivando polêmicas ou “pegas” entre pagãos e cristãos. Não é que os judeus detestavam Jesus. Eles o tinham como um “profeta ou um impaciente anunciante do final dos tempos”. Eles achavam que “a igreja tinha dotado Jesus de traços não judeus, para em seguida fazer de seu nome o instrumento de um anti-judaísmo não cristão” [ “Filho de José? – Jesus no Judaísmo”, de Pinchas Lapinde ].

No célebre “Diálogo de Trifão”, Justino, que se convertera ao cristianismo em Éfeso e foi martirizado no tempo de Marco Aurélio, mostra um ácido diálogo imaginário, possivelmente, entre um judeu (ou pagão?) e um cristão.

O livro, História dos Dogmas – volume III”, de Henry Borgeois, cita a insistência dos primeiros cristãos em propagar a concepção virginal de Jesus, e a recusa categórica de muitos judeus e pagãos que consideravam tal história uma aberração ou uma construção de caráter ignominioso. É fato que os opositores dos cristãos viam no relato do evangelho de Mateus algumas nuances em favor de uma concepção adulterina da parte de Maria. Para alguns judeus, o cristianismo tinha se voltado para o paganismo dos mitos.

Momentos quentes do diálogo entre Justino e Trifão [Pagão(?), Judeu(?) ], que aqui reproduzo, mostram como esse imbróglio da virgindade de Maria, que mais tarde se tornaria um forte dogma, causou naquela época  tanta celeuma e gracejos. O que, de certo modo, não deixa de ocorrer ainda hoje.


Justino, defendendo a concepção virginal:

“Para que não venham, por falta de penetração do sentido dessa profecia, nos dirigir a acusação que justamente dirigimos aos poetas que contam as relações amorosas de Zeus com suas mulheres, vamos tentar explicar essas palavras. As palavras “Eis que a virgem conceberá”, significam que a virgem concebeu sem relação carnal, pois, nesse caso não seria mais virgem; mas o poder de Deus desceu sobre a virgem, tomou-a sobre sua sombra e a fez mãe sem atentar contra a sua virgindade. Esse é o ensino daqueles que escreveram a narrativa e tudo o que concerne a Jesus Cristo, nosso Salvador. E nós cremos neles, porque pela boca de Isaías, que citamos, o Espírito Profético anunciou que ele devia nascer, assim como indicamos mais acima.[...] Esse Espírito que desceu sobre a virgem e a tomou, a fez mãe, não por união carnal, mas milagrosamente”.


A Réplica do pagão, Trifão:

Nas fábulas dos que chamamos de ‘gregos’, diz-se que Perseu nasceu de Danai, que era virgem, depois que aquele que, entre eles se chama Zeus tinha se derramado sobre ela em forma de ouro. Vós deveríeis corar ao contar as mesmas coisas que eles, e seria melhor dizer que esse Jesus seria um homem entre os homens, e demonstrar pelas Escrituras, que ele é o Cristo, que foi julgado digno, por causa de sua vida perfeita e conforme a Lei, de ser escolhido como Cristo. Mas não faleis de prodígios, se não quiserdes ser acusados de tolos como os gregos”.


Justino, respondendo a Trifão, de forma veemente:

Trifon, quero que te convenças inteiramente, tu e todos os homens, de que, mesmo que me dirigirdes as piores caçoadas e zombarias, não me fareis abandonar meu propósito: ao contrário, das palavras e das coisas que pensais me opor para me convencer, sempre tirarei as provas de minhas declarações com o testemunho das Escrituras”.


Sobre um pequeno romance de Jesus, veiculado na época, Orígenes toma as dores de Justino:

[Celso] apresenta um judeu em diálogo com o próprio Jesus, pretendo convencê-lo de várias coisas, a primeira sendo a de ter inventado o seu nascimento de uma virgem. Depois, acusa-o de ter saído de uma povoação da Judéia e nascido de uma região, pobre e fiandeira. Diz em seguida, que rejeitada por seu marido, vergonhosamente vagabunda, ela dá à luz a Jesus, em segredo; que este foi obrigado, por pobreza, a ir alugar os seus serviços no Egito; lá ele adquiriu a experiência de certos poderes mágicos de que se gabam os egípcios; volta, todo envaidecido desses poderes e, graças a eles, proclama-se Deus. [...]
“Voltemos às palavras atribuídas ao judeu, onde está escrito que a mãe de Jesus foi expulsa pelo carpinteiro que a tinha pedido em casamento, por ter sido acusada de adultério e ter engravidado por obra de um soldado chamado Pantera, e vejamos se os autores dessa fábula de adultério da virgem com Pantera e de seu repúdio pelo carpinteiro não a forjaram cegamente para negar a concepção milagrosa do Espírito Santo. Teriam podido, com efeito, por causa de seu caráter absolutamente milagroso, falsificar a história de outra maneira, mesmo sem admitir, involuntariamente, por assim dizer, que Jesus nascera de um matrimônio ordinário”. [ORÍGENES, contra Celso]

P.S.:

Entre os primeiros cristãos, o homem Jesus foi relegado a um segundo plano. Sua imagem foi encoberta pela imagem de um Cristo glorificado. Com isso, os cristãos reprimiram a dolorosa realidade, de que Jesus, na cruz, se viu abandonado por Deus”. [ “Conflito e Paz”Bert Hellinger ]

Rabinos e mentores da Igreja primitiva, que se zangavam facilmente na idade média, hoje, até que mantêm o jogo do convencimento e da conversão ― fonte de todo litígio ―, em fogo brando. Modernamente estão mais ou menos apaziguados: Quando os cristãos dizem que Jesus é Deus feito homem, os rabinos ficam felizes porque esses mesmos cristãos adoram um Judeu.

Schalom Bem Chorim, um dos ilustres pensadores judaicos, chegou a dar estocadas provocativas nos cristãos, como esta: “...a fé de Jesus une judeus e cristãos, enquanto a fé em Jesus os separa”.


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