domingo, 6 de abril de 2014

A Igreja Segundo Espinosa




No seu mais consagrado livro ― “TratadoTeológico-Político ―, Baruch de Espinosa, diz que as Escrituras Sagradas são fruto da imaginação dos profetas, que entendiam a intenção humana como efeito de um Espírito Divino. Antecipando-se a Freud, diz ele: “os direitos subjetivos de Deus nada mais são que a soma dos direitos subjetivos do todos os indivíduos (T.Teológico-Político – pág CVII – Editora Martins Fontes).

O prefácio ou introdução dessa magistral obra, realizada por Diogo Pires Aurélio, consomem 137 das 560 páginas que compõem o livro, do qual trago um trecho bastante emblemático em que o filósofo judeu de Amsterdam, por volta de 1674, discorreu sobre a “Igreja Cristã” do seu tempo:

“Inúmeras vezes fiquei espantado por ver homens que se orgulham de professar a religião cristã, ou seja o amor, a alegria, a paz, a continência e a lealdade para com todos, combaterem-se com tal ferocidade e manifestarem cotidianamente uns para com os outros um ódio tão exarcebado que se tornou mais fácil reconhecer a sua fé por estes do que por aqueles sentimentos. De fato, há muito as coisas chegaram a um ponto tal que é quase impossível saber se alguém é cristão, turco, judeu ou pagão, a não ser pelo vestuário, pelo culto que pratica, por freqüentar esta ou aquela igreja, ou finalmente, porque perfilha esta ou aquela opinião e costuma jurar pelas palavras deste ou daquele mestre. Quanto ao resto, todos levam a mesma vida. Procurando então a causa desse mal, concluí que se deve, sem sombra de dúvida a se considerarem os cargos da Igreja como títulos de nobreza, os seus ofícios como benefícios, e consistir a religião, para os vulgos, em cumular de honras os pastores. Com efeito, assim que começou na Igreja esse abuso, logo se apoderou dos piores homens um enorme desejo de exercerem os sagrados ofícios, logo o amor de propagar a divina religião se transformou em sórdida avareza e ambição; de tal maneira que o próprio templo degenerou em teatro em que não mais se veneravam doutores da Igreja mas oradores, não ensinando senão coisas novas e insólitas para deixarem o vulgo maravilhado. Daí surgirem grandes contendas, invejas e ódio que nem o correr do tempo foi capaz de apagar. Não admira, pois, que da antiga religião não ficasse nada a não ser o culto externo(com que o vulgo mais parece adular a Deus que adorá-lo) e a fé esteja reduzida a crendice e preconceitos. E que preconceitos, que de racionais transformam os homens em irracionais, que lhes tolhem por completo o livre exercício da razão e a capacidade de distinguir o verdadeiro do falso, parecendo expressamente inventados para apagar a luz do entendimento. [...]Certamente que, se eles tivessem uma centelha que fosse de luz divina não andariam tão cheios de soberba idiota, nem perseguiriam com tanta animosidade os que não partilham das suas opiniões; pelo contrário, sentiriam piedade deles, se é de fato, a salvação alheia e não a própria fortuna que os preocupa. [...]Não há, com efeito, nada com que o vulgo pareça estar menos preocupado do que viver segundo os ensinamentos da Sagrada Escritura. É ver como andam quase todos fazendo passar por palavra de Deus as suas próprias invenções e não procuram outra coisa que não seja a pretexto da religião". [Baruch de Espinosa −Tratado Teológico-Político ― pág 9, 10 e 114]


P.S.:

Plagiando o Rei bíblico, Salomão, pergunta-se:

“Passado esse tempo todo, há alguma coisa nova debaixo do sol?”

Site da Imagem: wikipédia.org
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