sábado, 21 de março de 2015

O problema das coincidências




Certa vez uma pastora evangélica do meio pentecostal disse-me não haver coincidências. O que existe, segundo ela, seria a "jesuscidência", dando a entender que os acontecimentos da vida seriam determinados pelo Cristo de Nazaré.

No entanto, não sei o que essa líder religiosa iria falar diante da repetição de fatos negativos, os quais também ocorrem com muita gente debaixo do céu, inclusive com os justos. Será que, neste caso, ela caracterizaria a situação como uma diabocidência ou imputaria a causa do evento ruim diretamente a Deus?!

Considero muito complicadas as interpretações do ser humano (e principalmente das mentes mais fechadas) diante das coincidências. Pois é uma tentação para qualquer um, ao invés de buscar respostas racionais, achar que é uma questão de sorte, destino, bênção, castigo de Deus, um ataque demoníaco, macumba de um vizinho invejoso, efeito de uma simpatia, intercessão de um santo, etc. Se, por exemplo, um sujeito desesperado reza para a Virgem Maria sobre algo que necessita e vem a receber uma boa notícia tempos depois acerca daquilo que havia pedido, tal homem pode convencer-se facilmente ter sido ajudado por Nossa Senhora. E não duvido que ainda vou ler comentários na internet de devotos da santa afirmando serem beneficiários de um milagre. Ou quem sabe terei mensagens de evangélicos radicais alegando ser "coisa de Satanás" tal atribuição à mãe de Jesus...

Até quando iremos perder tempo tentando identificar padrões onde eles não existem?! Chega de querermos conectar dados aleatórios a ponto de criarmos estúpidas crenças religiosas, as quais muitas das vezes tornam-se frutos de uma psicose não tratada.

Há que se ter sempre cautela, meus amigos! Se nos faltar o devido discernimento, corremos o sério risco de cair num terrível auto-engano deixando de usar a lógica nas nossas análises e decisões. Dai ser indispensável aprendermos a levar em conta as probabilidades comuns a todos os eventos. Pois obviamente é muito mais fácil você sair à rua e se apaixonar por uma pessoa adequada ao seu perfil do que acertar sozinho na loteria vindo a ganhar 100 milhões de reais com apenas uma jogada. E para chegar a uma conclusão assim não depende de sorte ou azar, mas sim de cálculos matemáticos e estatísticos.

Já na década de 1950, Julian B. Rotter (1916 - 2014) introduziu em Psicologia o conceito de locus of control (o lugar do controle) afim de designar a percepção do indivíduo a respeito das causas subjacentes aos eventos existenciais. Para Rotter, o nosso comportamento muitas das vezes seria reforçado pelas ideias de recompensa e punição, a partir das quais são geradas crenças em torno das ações que devem ser tomadas. Logo, o locus of control seria a plataforma de onde a pessoa atribui significação de responsabilidade aos fatos ocorridos na vida.

Ao deslocar o locus of control para o lado externo (culpando a outros) o indivíduo pode muito bem estar fugindo de suas responsabilidades caracterizando uma atitude imatura como se ele estivesse sempre certo e o mundo inteiro errado. E, infelizmente, é o que muita gente costuma fazer devendo cada um de nós agirmos com cuidado acerca dessa análise afim de constatarmos corretamente qual a nossa exata parcela de contribuição.

Caros leitores, o que a vida cada vez mais me ensina é que devo saber creditar aos acontecimentos do mundo físico os resultados que obtenho. Principalmente as minhas ações e omissões! Assumir que sou a causa torna-se então uma revelação libertadora que muito pode ajudar a ter o controle da própria história, mesmo sabendo que não alcançarei tudo o quanto desejo. E aí já não preciso mais ficar tirando falsas conclusões acerca da coincidência dos fatos que se repetem sabendo que Deus como a Causa Primeira do Universo não retira da humanidade o poder de decidir muitos aspectos de seu destino pelas escolhas que fazemos no uso do livre arbítrio.

Um ótimo descanso semanal para todos!


OBS: A ilustração acima refere-se à uma foto da NASA tirada em 1976 quanto à superfície do planeta Marte aparentando ilusoriamente uma face humana conforme o ângulo de visão do observador.
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