sexta-feira, 11 de março de 2016

A terapia de grupo dos homofóbicos delinquentes




Em certa comarca do Brasil, uma juíza e uma psicóloga lançaram a ideia inédita de criar um grupo específico de apoio para auxiliar no tratamento de pacientes homofóbicos na cidade. Homens que cometeram crimes de menor potencial ofensivo, relacionados ao preconceito contra os homossexuais, passaram a ser encaminhados pela Justiça para a ONG da doutora Kátia e, ali, recebiam uma nova chance para não serem condenados à prisão. O parecer da terapeuta tornava-se quase sempre o fundamento da sentença proferida pela magistrada titular do Juizado Especial Criminal (JECRIM).

Numa manhã de sexta-feira, iniciando a última sessão do seu complicado grupo de machões provocadores, a doutora Kátia saudou a todos:  

Dra. Kátia: “Bom dia, meninos! Este é o nosso décimo segundo encontro e hoje gostaria que cada um contasse sobre aquilo que mais lhe causa aversão num homossexual, conforme pedi que refletissem na semana passada. Vocês estão lembrados?”

Sérgio, um dos participantes mais alterados do grupo, interrompeu a psicóloga:

Sérgio: “Doutora Kátia! A senhora não está querendo que eu saia hoje daqui assumindo que sou frutinha. Já cansei de ouvir aquele velho papo de que todo machão no fundo é um gay enrustido. Chega! Prefiro, neste caso, renunciar ao benefício da Justiça e ser condenado de cabeça erguida pelo insulto que proferi contra aquelas duas bichas lá na praia. Jamais ofenderei a minha própria honra e me comprometo em nunca mais andar pela orla marítima.”

Dra. Kátia: “Sérgio, sei que você não estava no encontro anterior quando falei que a homofobia das pessoas seria resultado da projeção que cada um faz no outro quanto aos seus próprios sentimentos. Isto não significa que todo homofóbico seja necessariamente um homossexual que recusa a assumir sua condição. Ele pode, por exemplo, ter escolhido um grupo social em desvantagem para descarregar suas frustrações mal resolvidas em tais pessoas. Espero que hoje ainda descubra qual é o seu caso, pois de nada adianta enganar a si próprio. Você admitiria que é um homofóbico ou não se vê desta maneira?”

Sérgio: “Doutora, não tenho nenhuma fobia dos gays. Se for pra sair no braço com eles, podem vir dois pra cima de mim que eu arrebento eles de porrada. O meu caso é que sou um dos poucos homens de bem que sobraram nesta sociedade decadente. Tenho orgulho de ser macho, trabalhador, não dever a ninguém, criar filhos e viver com decência. Por isto, sempre votei no Jair Bolsonaro. Ele é o único que presta no meio daqueles deputados cretinos e conseguiu impedir que a vaca da nossa presidenta aprovasse aqueles vídeos de educação homossexual no ano de 2011. Tá lembrada?! Infelizmente, as ONGs GLS ou GLBT, com o apoio dos banqueiros sionistas, aprovaram leis vergonhosas que tentam criminalizar o natural sentimento de repulsa contra a anormalidade. Mas o que podemos esperar de uma mulher que sempre se disse favorável ao aborto e fingiu ser santa nas eleições de 2010 para ter o apoio dos religiosos quando ganhou pela primeira vez? Agora sabemos muito bem quem ela é pois não vai demorar muito a presidanta será presa com o Lula”

Dra. Kátia: “Sérgio, por favor, fale só de você. Nosso tempo é curto e as regras do grupo foram explicadas claramente desde o primeiro encontro há uns três meses atrás. Aqui eu só permito que o meu paciente fale de si. Ronaldo, agora é a sua vez.”

Ronaldo: “Bom dia, doutora. Ontem fiquei pensando nas coisas sobre as quais tínhamos debatido e descobri por que eu me tornei um homofóbico. Eu tinha era inveja da liberdade dos gays porque muitos deles são pessoas abertas e espontâneas ao passo que me tornei um cara reprimido. Papai queria controlar todas as minhas manifestações espontâneas exigindo que eu me calasse ou jamais fizesse brincadeiras em sua presença. Ele podou minha maneira de rir, o jeito de me vestir e proibiu até que meu irmão e eu fizéssemos teatro na escola. Depois de adulto, preservei aquele enquadramento e então todo homossexual masculino que tinha um comportamento extravagante despertava a minha raiva”

Dra. Kátia: “E hoje você ainda culpa seu pai, Ronaldo?”

Ronaldo: “Hoje eu o compreendo, doutora. A escolha de ter me tornado um sujeito reprimido foi toda minha. Quando meu irmão fez seus dezoito anos, ele saiu de casa e resolveu matricular-se num curso de preparação para artistas. Hoje ele é um humorista da televisão e faz bastante sucesso se fingindo até de gay.”

Dra. Kátia: “Sente inveja do seu irmão?”

Ronaldo: “Ainda sinto, mas luto contra isso a cada dia”

Dra. Kátia: “Tá certo. E aí, Antônio? Conseguiu chegar a uma conclusão sobre o seu problema?”

Antonio: “Sim, doutora. Descobri que a minha homofobia está associada com a adolescência conflituosa que tive. Nunca senti atração por outro homem. Meu problema era por causa da masturbação.”

Nesta hora, alguns membros do grupo não aguentaram e deram gargalhadas. A doutora Kátia, porém, procurou evitar que houvesse uma dispersão.

Dra. Kátia: “Silêncio, gente! Vamos ouvir o que o colega de vocês tem a dizer. Antônio, por que você está ligando a sua aversão à homossexualidade com masturbação se esta é justamente uma maneira como os rapazes costumam se afirmar como heterossexuais dentro da nossa cultura? Por favor, explique-se melhor.”

Desrespeitosamente, Sérgio mais uma vez interrompeu:

Sérgio: “Na certa foi porque, quando o Toninho estava na escola, ensinaram-lhe a maneira errada de se masturbar. Trocaram com o manual de siririca das meninas e colocaram nas mãos dele.”

Embora quase todos os membros do grupo tivessem dado um sorriso discreto, a doutora Kátia ignorou o comentário do Sérgio e pediu a Antônio que continuasse:

Antônio: “Doutora, quando eu era adolescente, fiz parte de uma igreja evangélica em que o pastor dizia ser pecado contra a natureza o jovem se masturbar. Ele comparava a masturbação com o homossexualismo e a considerava pior do que o sexo antes do casamento. Então, resolvi parar com aquele vício maldito mas jamais consegui até hoje. Toda vez que terminava de ejacular, sentia-me tão vazio e impuro quanto um gay. Aí minha aversão ao homossexualismo foi aumentando a cada dia mais.”

Dra. Kátia: “E como você consegue lidar com isto hoje, Antônio?”

Antônio: “Depois dessas excelentes sessões de terapia, consegui melhorar bastante e descobri que o problema está em mim pois preciso aceitar-me como sou. Nem culpo a igreja pelas loucuras que fui desenvolvendo na minha cabeça. Até porque só me tornei um homofóbico radical depois que me desviei dos caminhos do Senhor. Foi quando decidi erroneamente que a melhor maneira de tirar a masturbação da minha vida seria arrumando uma mina pra transar.”

Dra. Kátia: “E você não arrumou nenhuma namorada na adolescência?”

Antônio: “Até hoje não, doutora. Minha primeira transa foi pagando e eu me senti tão bloqueado que nem consegui ter ereção quando entrei no quarto com a mulher. Ficava toda hora lembrando daquela parte da Bíblia em que o apóstolo Paulo diz  lá pros coríntios que, quando o homem se une com uma prostituta, ele se torna uma só carne com ela. Aí qualquer reação da mulher parecia que ela estava com alguma pombajira no corpo e fiquei com medo que o demônio depois pegasse em mim. Saí dali e fui pro culto da igreja no dia seguinte aceitar Jesus novamente.”

Dra. Kátia: “E hoje saberia explicar por que agrediu aquele travesti que representou contra você na polícia?”

Antônio: “Sei sim, doutora. É porque, na minha cabeça, cheguei a criar a ideia de que a dificuldade que tenho com as mulheres seria porque os gays estariam controlando o mundo através de uma conspiração diabólica para que os heterossexuais ficassem sem opção de sexo e passassem a procurá-los a fim de satisfazerem suas necessidades. Então, no dia em que fui na boate e paguei a saída do travesti achando que fosse mulher, resolvi dar na cara dele quando chegamos ao motel.”

Dra. Kátia: “Tá. Mas o travesti não o avisou antes que era homossexual?”

Antônio: “Não sei dizer porque eu tava mamadão de cerveja e só consegui prestar a atenção no preço do programa que muito mal negociei. Então, na hora em que a bicha perguntou se eu já tinha feito sexo com travesti, aproveitei o momento para extravasar tudo o que sinto contra os gays. Aquela coisa seria por um instante o bode expiatório de todas as minhas frustrações sexuais.”

Cortando o papo, interveio um outro participante do grupo chamado José:

José: “Pelo visto quem levou a pior na briga foi você, né Toninho?!” 

Ao invés de chamar a atenção do paciente, a psicóloga resolveu passar-lhe a palavra já satisfeita com o relato de Antônio:

Dra. Kátia: “Agora conte um pouco sobre você, José”.

José: “Bem, doutora, o meu problema começou no recreio do colégio. Sempre fui um aluno meio mongo para certas brincadeiras e quase não conhecia os palavrões. Principalmente os mais cabeludos. Nem mesmo fazia ideia do que significava a palavra gay ou o que era um homossexual. Sabia apenas que alguns homens gostavam de se vestir de mulher e não entendia por que os machões adotavam este tipo de fantasia na época do Carnaval. Quando fiz meus sete anos, mamãe colocou-me pela primeira vez na escola para cursar o ensino fundamental, mas tive sérios problemas de adaptação com as crianças das turmas adiantadas. Um garoto mais velho, repetente e ainda com 13 anos na quarta série, tentou abusar de mim no banheiro.”

Todos os pacientes olharam entre si nesta hora dando uma discreta risadinha. A doutora Kátia, porém, advertiu o grupo:

Dra. Kátia: “Rapazes, vamos respeitar o colega. Uma das regras do nosso grupo de apoio é aprender a ouvir com consideração a experiência do outro. Pode prosseguir, José.”

José: “Obrigado, doutora. Confesso que me sinto até hoje culpado pelo que aconteceu como se tivesse provocado o instinto do rapaz.”

Dra. Kátia: “Como assim, José? Explique melhor isto.”

José: “É que certo dia, quando eu e os colegas da turma estávamos brincando de super herói, cada qual escolheu para si um personagem dos desenhos animados. O representante da classe foi o Super Homem, o Rogerinho optou por ser o Batman, um outro amigo dele virou o Robin e, antes que expressasse a minha escolha, outro menino passava na minha frente e definia qual seria o seu personagem. Não consegui ser o Incrível Hulk, nem o He-Man, o Homem Aranha, e tão pouco o Capitão América. Até a vaga do Popeye já estava ocupada por num garoto da segunda série que se meteu no nosso meio. Foi aí, sem conseguir recordar de nenhuma outra opção viável, que me lembrei do cômico Capitão Gay, o qual passava num antigo programa do Jô Soares chamado Viva o Gordo”.

Sérgio não se aguentava mais de tanto rir e perguntou com ares de sarcasmo machista, pondo-se depois a cantar uma conhecida marchinha de Carnaval:

Sérgio: “Você jura mesmo, Zé, que que não sabia que o tal do Capitão Gay era um boiolão? Acho que todos nesta sala já descobrimos o seu problema, boneca. Olha a cabeleira do Zezé! Será que ele é?! Será que ele é?!”

A doutora Kátia desta vez advertiu seriamente Sérgio:

Dra. Kátia: “Esta é a última vez que chamo a sua atenção, Sérgio! Se continuar com este comportamento, vou ter que tirá-lo do grupo e comunicar a minha decisão à juíza do JECRIM. Aqui não estou tratando de crianças! Só posso admitir pacientes realmente dispostos a se curar. Se você não está afim de encarar a terapia, não posso deixar que a sua atitude covarde atrapalhe os outros que compareceram e estão tentando compreender melhor a si mesmos”

Sérgio: “Tudo bem, doutora. Se é assim, vou falar de mim. A senhora quer saber por que eu não suporto os gays? Pois contarei agora mesmo todos os meus motivos e, se me escutar com atenção até o final, com sensatez e sensibilidade, sei que vai me dar razão.”

Dra. Kátia: “Então continue, Sérgio. Quero ouvi-lo.”

Sérgio: “Sabe, doutora, eu concordo em parte com o Toninho quando ele acreditava numa conspiração gay. Mas não se trata bem de uma coisa articulada pelos homossexuais e, sim, pelos banqueiros judeus que pretendem dominar o mundo destruindo as famílias dos povos. Por causa disto, temos visto tantos homossexuais, inclusive lésbicas, ocupando cargos elevados na política e nas empresas. Nossa presidenta, por exemplo, é uma sapata a serviço dos sionistas. E esse deputado do PSOL, o Jean Wyllys, seria o chefe oculto da máfia cor-de-rosa”

Dra. Kátia: “E você se sente incomodado porque vê uma mulher independente, com um salário melhor do que o seu, e se recusando a transar contigo? Quer que todas elas sejam submissas a você? Isto ameaça o seu desejo de controle?”

Sérgio emudeceu, pensou um pouco e depois respondeu:

Sérgio: “Doutora Kátia, estou achando a sua sexualidade bem duvidosa. Suponho que deva ter um caso com a juíza. No dia em que você for comigo pra cama e experimentar um macho de verdade, vai aprender a gostar de homem.”

Indignada com a atitude de Sérgio, doutora Kátia resolveu encerrar a sessão.

Dra. Kátia: “Paciente Sérgio, queira se retirar. Não sou mais a sua terapeuta e me julgo por impedida para dar um parecer sobre o seu caso. Ficará a critério da juíza designar outro psicólogo para avaliá-lo ou sentenciar condenando-o como ela bem entender. Quanto aos demais, estão dispensados. Posso dizer que todos vocês estão em condições de continuar a conviver em sociedade. Apenas recomendo que prossigam com o tratamento no SUS ou num consultório particular. Aqui na minha ONG, temos preços promocionais de vinte reais por consulta para pessoas de condição humilde e os grupos de apoio são todos gratuitos. Anotem o horário que está no mural lá do corredor, caso se interessem.”

Sérgio deixou a sala de terapia na frente dos demais e os outros pacientes saíram todos juntos, alcançando-o minutos após no boteco onde costumavam reunir-se ao término de cada sessão. Ali todos eles davam boas gargalhadas contando piadas sobre homossexuais e zombando da doutora Kátia.

José: “Quá! Quá! Quá! O Toninho enganou a mulher direitinho e acho que a doutora não vai descobrir que eu nem estava na primeira série quando a Globo exibia o Viva o Gordo”.

Antônio: “É impossível ela descobrir que jamais fui crente. Decorei na íntegra as confissões de um blogueiro ex-evangélico na internet, as quais pareceram-me bem coerentes. No fundo, prefiro mais é uma boa curimba do que entrar numa dessas igrejas”.

Ronaldo: “E você, Sérgio? Por que não falou pra mulher que, por exemplo, sente inveja do orgasmo das lésbicas? A doutora Kátia iria ver que você soube compreender o seu problema e iria encaminhar uma resposta favorável pra juíza de modo que ficaria livre de puxar uma cadeia. Seu tormento terminaria dentro de poucas semanas e ela o dispensaria de continuar vindo toda semana aqui. Agora, depois deste incidente, existe até o risco de uma condenação. Sua batata vai assar, camarada”

Antônio: “Pelo menos ele poderia ter falado que a sua homofobia explicava-se por causa das mulheres que recebem salários mais altos do que o seu. Seria uma resposta convincente para a queixa oferecida por uma lésbica contra as ofensas que escrevia nas redes sociais contra a comunidade GLBT”.

Sérgio: “Olha, amigos. Quando a doutora Kátia perguntou se eu me sentia incomodado pelo fato de uma mulher ganhar mais do que eu, saquei logo qual deveria ser a resposta. Mas a verdade, Toninho, é que, se a Justiça me liberar, perderei a chance de ser mandado para uma cadeia fétida lotada de homens suados, bem musculosos e cheios de tesão. Ui!”

Antônio: “Que é isto, companheiro!? Você só pode estar zoando com a nossa cara!”

Sérgio: “Estou falando sério, gente! No momento em que a doutora Kátia fez aquela pergunta, refleti profundamente e descobri que gosto é de homem, Toninho.”

Antônio: “Por favor, não me chame mais de Toninho. A partir de agora já não te dou estas intimidades, seu viado! Saia daqui, bichona nazista, antes que a gente te cubra de porrada.”

Sérgio: “Fiquem tranquilos que eu vou sair, bambinos. Mas saibam que tenho esta conversa gravadinha neste celular. Todos os papos anteriores aqui do bar já estão salvos no meu computador porque eu tinha resolvido me prevenir de vocês em caso de uma delação premiada. E, certamente que, se me espancarem, nós nos veremos todas no presídio de Bangu, além de que vou espalhar as gravações pra todo mundo no Facebook. Ai, como eu tô bandida!”
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