terça-feira, 22 de março de 2016

Politicando no boteco




Após um dos protestos espontâneos a favor do impeachment, um manifestante radical entrou num bar para esfriar a cabeça. Sentou-se junto ao balcão e foi logo atendido pelo garçom que iniciara há alguns dias o seu contrato de experiência:

Garçom: Boa noite, senhor. O que deseja?

Manifestante: Por favor, uma cerveja bem gelada.

Garçom: Temos SkolBrahmaAntarctica e Itaipava. Qual a sua preferência?

Manifestante: Vai Skol para descer redondinha igual a Dilma quando sair da Presidência rolando pela rampa do Planalto. Quero vê-la algemada pelo japa da Federal junto com o Lula. 

Escutando tais palavras, outro homem vestido de vermelho, filiado ao PT e amigo de copo do manifestante, aproximou-se dando uns tapinhas nas costas do velho conhecido cuja espuma da cerveja já se derramava pelo balcão:

Petista: Não vai ter golpe, coxinha! Viva a Constituição!

Ao reconhecer quem falara com ele, o manifestante replicou:

Manifestante: O golpe já foi tentado pela sua presidanta quando resolveu nomear o Lula pra ministro. Felizmente, o Gilmar Mendes não permitiu.

Petista: Mas é claro que ele não iria permitir, seu fascista. O Gilmar é, na verdade, um tucano que foi indicado pelo FHC pra entrar no Supremo.

Manifestante: Nesse momento, pouco importa, seu comuna. Precisamos tirar o PT do governo e espero que o juiz Moro mande logo a Polícia Federal prender o Lula. Se fosse ele, eu já teria me mandado pra Venezuela e pedido asilo político ao Maduro.

Petista: Quem tinha que ser conduzido à prisão é o Moro porque grampeou sem autorização a Presidência da República. Ele está investigando de forma seletiva e, além do mais, sua família é suspeita de ligações com o PSDB.

Manifestante: Conversa fiada! Pela primeira vez estamos vendo um magistrado de coragem mandando prender gente graúda nesse país como políticos, empreiteiros, pecuaristas, doleiros, executivos, outros empresários importantes do esquema do PT.

Petista: E você acha correto ele atropelar o devido processo legal e deixar vazar conversas telefônicas sobre alguém que nem réu ainda é? Até que se prove o contrário, Lula continua inocente. Como o Brasil todo sabe, nem o sítio ou o triplex no Guarujá estão no nome dele.

Manifestante: Conta isso pra outro, meu caro. O povo todo está indo às ruas pra acabar com essa sujeirada na política. As palavras que aquele bandido falou ao telefone mexeu com o coração da população que havia protestado no dia treze pelo impeachment. O próximo grande protesto certamente reunirá muito mais gente.

Petista: Quem disse que tinha pobre na rua dia treze de março? Se houve, era um ou outro pois a maioria dos que estavam na Avenida Atlântica era formada por pequenos burgueses. Essa classe média ignorante que se acha elite só porque ganha mais de cinco mil por mês e pode comprar carro novo...

Manifestante: Mentira! Não recebo nem quatro contos e tenho saído de casa diariamente pra protestar. Ei, garçom, chega aqui.

Embora observasse de longe a conversa, procurando desviar os olhares para não aparentar que estivesse escutando o papo, o garçom percebeu que seria envolvido forçadamente no debate pelos mais polêmicos clientes da casa com os quais ele estava lidando pela primeira vez aquele dia.

Garçom: Pois não. O que os senhores querem?

Manifestante: Você participou do protesto do dia treze, rapaz?

Garçom: Não, senhor.

Petista: Viu, Nélio. Ele não apoia o golpe. E acredito que até votou na Dilma.

Manifestante: Você votou em quem nas eleições passadas?

Garçom:  Senhores, o voto é secreto, mas, já que perguntaram, respondo que apenas fui às urnas porque sou obrigado. Se pudesse, permaneceria em casa curtindo meus breves momentos de folga com a família.

Manifestante: Tinha que ter ido no protesto! Eu estava lá lutando por cidadãos humildes como você. Por causa do PT é que a saúde e a educação estão desse jeito. O partido que o Carlos defende está acabando com o Brasil!

Petista: Não é verdade! Nunca se fez tantas obras sociais nesse país como nos governos Lula e Dilma. A vida do pobre melhorou consideravelmente na década passada. Não concorda, garçom?

Querendo se evadir da conversa, o jovem atendente do boteco pediu licença para se afastar:

Garçom: Senhores, se me permitirem, preciso ver se as pessoas daquela mesa no canto desejam alguma coisa. Querem mais uma cerveja ou comerem um petisco?

Petista: Trás um cowboy de doze anos pra mim.

Manifestante: Essa é a esquerda comedora de caviar...

Petista: Não amola! Vai bajular o seu Boçalnaro, vai.

Manifestante: Quem inventou que sou partidário do deputado?

Petista: Perdão, esqueci que fez campanha pro Aécio.

Manifestante: Não tenho partido nenhum e acho que os políticos deveriam ser todos eles presos pela Federal.

Petista: Desculpe novamente, pois me esqueci que sempre foi um alienado, um tosco... E, além do mais, torce pelo Fluminense.

Manifestante: Alienado é você que age como um corno apaixonado recusando-se a reconhecer o mega roubo do seu partido. Enquanto defende o PT, o Lula vive no maior luxo frequentando aquele sítio em Atibaia e passando férias num triplex em frente à praia. Acorda, botafoguense!

Percebendo que os ânimos estavam esquentando, o garçom interveio:

Garçom: Senhores, infelizmente não temos mais whisky de doze anos e nem de oito. Se quiserem mais alguma coisa, peçam logo pois a banda já parou de tocar e precisaremos fechar daqui alguns minutos.

Petista: Então pode trazer uma cerveja para eu tomar a saideira com esse meu amigo.

Garçom: Também não temos mais Skol pronta na geladeira.

Petista: Pode ser qualquer uma. Até Itaipava desce.

Garçom: Vou ver.

Temendo uma briga entre os dois clientes no estabelecimento logo em sua primeira semana de emprego, o garçom fez com que esperassem por dez minutos na expectativa de que pagassem a consumação e se retirassem. Como isto não aconteceu, levou até eles um latão de Brahma com dois copos descartáveis trazendo também a conta.

Garçom: Senhores, vai ser em dinheiro ou cartão? Infelizmente, precisamos fechar. São ordens do dono... Posso incluir os dez por cento?

Manifestante: Quanto deu?

Garçom: Setenta e oito reais sem a gorjeta 

Petista: Tudo isso?! Nós só tomamos cerveja.

Garçom: Foi por causa da apresentação artística que vocês assistiram já no finalzinho assim que entraram.

Manifestante: Nunca me cobraram pelo couvert aqui! Além de não ter sido informado quando entrei, sou um frequentador antigo do bar e exijo um tratamento mais respeitoso.

Garçom: Se desejar, eu falo com o patrão. Aguardem um instante que vou telefonar pra ele pois o chefe está na outra casa que temos na Barra.

Não querendo causar constrangimentos, o petista abriu logo a carteira e deu uma nota de cem reais.

Petista: Tá aqui o dinheiro, meu jovem, e pode ficar com o troco. Somos clientes há seis anos e conhecemos o dono. Sei que deve estar um pouco assustado com o nosso jeito, mas somos de paz. Vamos, Nélio.

A fim de não parecer antipático e evitar reclamações sobre o seu trabalho, o garçom decidiu educadamente acompanhá-los até à saída.

Garçom: Obrigado, senhores. Por favor, levem esses pacotinhos de amendoim como cortesia da casa.

Petista: Eu que agradeço, mas, como sou hipertenso, peço que dê tudo para o Nélio. Agora diga a verdade para nós. O Lula foi ou não um bom presidente?

Garçom: Minha vida melhorou por uns tempos na década passada. Ultimamente, porém, as coisas têm andado difíceis.

Manifestante: Você recebe dinheiro do Bolsa Família?

Garçom: Não, senhor.

Manifestante: Adquiriu imóvel pelo programa Minha casa, minha vida?

Garçom: Continuo sendo inquilino em Coelho Neto.

Manifestante: Então por que não foi no protesto do dia treze? Bastava pegar o Metrô!

Garçom: Senhor, reconheço os motivos da causa de sua luta contra a corrupção e respeito o que pensa sobre o impeachment da presidente assim como considero o direito de seu amigo em apoiá-la. Porém, as bandeiras que defendem ainda estão distantes da minha realidade. Por isso, apenas assisto tudo de longe sem expressar a minha adesão. Gostaria de ver mudanças acontecendo, só que não acredito que elas virão com a saída do Dilma ou depois da prisão do Lula.

Manifestante: Mas se a Dilma cair, você não acha que a economia melhora?

Garçom: E vai melhorar pra quem?

Manifestante: Então você é a favor dessa anta na Presidência?

Garçom: A favor de nenhum político e, por mais que o governo esteja mal, prefiro não sair de casa para protestar num domingo, a ponto de deixar a minha mulher sozinha com as crianças e ainda tirar da comida para comprar a passagem no Metrô. O que mais desejo é pagar as minhas contas em dia, fazer um churrasco com os amigos, adiantar a obrinha que estou terminando no terreno da sogra, ver o Flamengo ganhar e viver em paz. Tenham um bom descanso!


OBS: Ilustração acima extraída de uma pagina da EBC, sendo os créditos autorais da foto atribuídos a Marcelo Camargo da Agência Brasil, conforme consta em http://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2013/08/associacao-brasileira-de-bebidas-avalia-positiva-discussao-sobre-nova 
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