sexta-feira, 21 de outubro de 2011

PRAZER E CATARSE DA FAMÍLIA CIBERNÉTICA


Por Levi B. Santos

São 19 horas de um dia qualquer. Lá está reunida a família da pós-modernidade. Os pais devoram seu hambúrguer + batatas fritas + coca-cola com os olhos fixos na telinha que pode ser da TV, do moderno celular, do Tablet, ou laptop. Os filhos jantam em torno de uma mesa com o olhar fixo numa tela de LCD, jogando vídeo-game. Em outra sala se encontra a netinha ou netinho de apenas seis anos de idade com o seu sanduiche numa mesinha ao lado do computador, mergulhada absorta na cultura das imagens em busca das tecno-surpresas que surgem a todo momento.
Bendita e maravilhosa mídia que faz brotar em nós necessidades a todo momento. A única maneira de acompanhá-la, já que o dia só tem 24 horas, é correr, mas correr mesmo.
A velocidade é o que conta. O lema é correr depressa, ler depressa, trocar depressa de canal, enviar e receber e-mail digitando abreviaturas de palavras (o porque ― vira “pq”). As torrentes de imagens, músicas e histórias, e textos de blogs têm que ser acessados de forma rápida. Nos blogs de confrarias, basta ler o título da postagem e arriscar um comentário: se colar colou. O importante é saciar a fome dos olhos como faz uma criança à frente de um saco de pipocas.
Para que sair de casa e olhar o mundo lá fora, se na internet tenho tudo a um clique. Posso me encantar em minha poltrona com títulos balançando na telinha, com anúncios coloridos piscando, com palavras de cores vivas que murcham e incham para depois explodirem em bolhas flutuantes. A tecnologia virtual nos leva para fora da Terra, numa alucinante viagem que durante a noite (que é uma criança) não percebemos as horas passarem. O negócio principal não é o aprofundamento nos estudos, mas o “boiar” na superficialidade dos instantâneos textos bem delineados do Google.
Quem não deseja consumir ou produzir idéias a um leve toque, sem recorrer à velha estante de livros mofados, é tido como um otário que não quer evoluir, pois a mídia requer que o internauta escreva qualquer coisa, a cada 24 horas, para alimentar a Wikipédia e os canais de procura de assuntos. A voz que se ouve já internalizada é: obtenha acesso mais rápido, crie mais sites na rede para ser visitado, procure fazer mais listas extensas de amigos na rede, publique mais tratados e difunda de todas as maneiras mais informações para seu conforto espiritual e diversão de muitos”.
Um perfeito internauta, para a mídia, é aquele que choca, que muda sempre a definição dos seus conceitos para confundir, ainda que não saiba exatamente o que se está a sentir enquanto digita. Sentimentos são descartáveis, a efervescência é a regra. O importante é atiçar as paixões e afundar-se nas dramaticidades.
Nas tetas do mundo cibernético você pode fazer “gratuitamente” o seu lobismo popular e seu protesto social. Pode organizar sua “primavera dos jovens” incitando a substituição de governos totalitários, por outros super-totalitários. Pode engajar-se na arte da política, da religião, adquirindo o seu diploma de Ganhador de almas em cursos relâmpagos de dois fins de semanas, com direito a registrar a sua igreja pela internet, sem sair de casa. Pode ultrapassar os limites interpostos por seus antigos pais, para de forma agressiva se auto-flagelar: ferir os outros e desfazer os elos fraternos dão a sensação momentânea de orgulho, ao reavivar o narcisismo primário. Aqui não vale o axioma freudiano de que “o nosso maior inimigo é interno e, de forma definitiva nos pertence”.
Golpear, assustar, bombardear ― é o lema das empresas do monstro midiático que agradecem a desnaturação humana.
Nas teias desse monstro midiático você pode realizar a sua catarse sem limites, e, no seu altar realizar o seu ritual de limpeza. É lá que o desejo de ser único se exalta em conflito com os anseios do OUTRO. É o canal apropriado para dar vazão aos instintos mais primitivos —, aqueles afetos de destruição presentes no mito de Caim e Abel. É lá que destruímos parte do que construímos a fim de preservar o que nos parece “essencial”.
Permaneça, a maior parte do tempo com sua mão direita a repousar sobre o “mouse” e, esqueça o que escreveu Ariel Dorfman, sobre Mickey Mouse: “Ele une poder e infantilização”. “Ele domina sobre todos enquanto seu sorriso desarma todas as críticas.”
Site da imagem: profsezimar.com
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