segunda-feira, 23 de junho de 2014

Afinal, que "gigantes" eram esses da época de Noé?



"Ora, naquele tempo havia gigantes [hebr. nephilim] na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade." (Gênesis 6:4; ARA)

Como quase sempre ocorre, todo diretor de cinema que realiza um trabalho cultural com uma certa margem de liberdade em relação ao texto da Bíblia acaba sendo excessiva e duramente criticado pelas mentes religiosas mais fechadas. E dessa Darren Aronofsky, um dos autores do filme Noé, estrelado por Russell Crowe, também não escapou. Vejam abaixo o que comenta uma resenha publicada no jornal New York Times, atribuída a Anthony Oliver Scott:

"o Sr. Aronofsky, que escreveu o roteiro com Ari Handel, tomou algumas liberdades com o texto. Por exemplo, enquanto a Bíblia observa que 'havia gigantes naqueles dias', as Escrituras não especificam que eles eram colossos de pedra de seis braços com as vozes de Nick Nolte e Frank Langella" (traduzido com a ajuda do Google)

Mas atire a primeira pedra quem nunca fantasiou as narrativas bíblicas!

Quem garante que os exegetas e intérpretes também não deram asas à imaginação e foram transmitindo um valioso ensino de geração em geração? Pois, se bem refletirmos, os nephilim (prefiro usar o original transliterado da Palavra) não teriam sido chamados assim necessariamente por causa de uma suposta estatura física muito grande? Isto porque outros possíveis significados para o vocábulo hebraico em nosso idioma seriam os termos "poderosos", "caídos" ou ainda "aqueles que causam a queda de outros", de maneira que uma interpretação contextualizada faz-se necessária para melhor entendermos o assunto.

Ora, nos capítulos 4 e 5, Gênesis fala sobre os perversos descendentes de Caim e a boa linhagem de Sete, o qual foi o terceiro filho de Adão e Eva, nascido após a morte de Abel. Enquanto os filhos de Caim tornaram-se violentos homicidas e maridos polígamos, os de Sete invocavam o nome do Senhor (Gn 4:26), dando a entender o texto que eles desenvolveram um relacionamento de oração com Deus. Provavelmente repetiram a oferta dada por Abel reconhecendo a si mesmos como dependentes da bondosa graça do Criador e do perdão do Altíssimo.

Todavia, se meditarmos nos quatro primeiros versos de Gênesis 6, poderemos admitir a seguinte interpretação em que os "filhos de Deus", isto é, os da semente de Sete, passaram a tomar para si como esposas aquelas que "entre todas, mais lhes agradavam" (versículo 2). Daí admitir-se a suposição de que a descendência de Sete também teria se corrompido num momento posterior, seja pela quebra da ordem monogâmica estabelecida no Jardim do Éden e/ou originada pelos desvirtuosos casamentos com as mulheres da linhagem de Caim. E assim surgiram os terríveis "gigantes" pré-diluvianos, os quais podem muito bem ter sido os antigos governantes de reinos formados pela mistura das duas sementes.

Segundo o mestre judeu medieval Rashi (1040-1105), a expressão "todas", embora aparentemente supérflua, significa ainda perversão sexual, o que incluiria uniões com mulheres casadas e o matrimônio/cópula realizado contra a vontade da mulher. Porém, numa visão mais aprofundada, podemos entender que a tragédia humana narrada na Bíblia consistiria na sedução pelo comportamento depravado em todos os sentidos (não apenas no aspecto sexual) juntamente com o abandono da fé em Deus, algo que trouxe a destruição da espécie humana a ponto de somente uma família de oito pessoas conseguir se salvar do dilúvio. É o que podemos conferir no livro apócrifo Sabedoria de Salomão, onde o autor associa os gigantes ao orgulho (suponho que caracterizado pelo sentimento de autossuficiência de direcionamento em relação ao Criador):

"Pois quando, nas origens, pereciam os gigantes orgulhosos,
a esperança do mundo se refugiou numa jangada
que, pilotada por Tua mão,
aos séculos futuros deixou o germe de uma geração nova." (Sb 14:6; BJ)

Uma outra obra judaica antiga, também encontrada na versão da Bíblia de Jerusalém, o escritor assim comenta acerca dos nephilim, sendo meus os destaques em negrito:

"É lá que nasceram os gigantes, famosos desde as origens,
descomunais na estatura e adestrados na guerra.
Mas não foi a eles que Deus escolheu,
nem a eles indicou o caminho do conhecimento.
Por isso pereceram, por não terem a prudência;
pereceram por sua irreflexão
" (Baruque 3:26-28)

O que podemos aprender dessa lição bíblica é que todo ser humano seria capaz de tropeçar nos seus princípios éticos e decair a ponto de cometer as piores monstruosidades por mais que se agigante em poderio político-militar, quer tenha ele uma boa origem religiosa ou não. Para os israelitas antigos, Moisés estava de algum modo lhes advertindo que, embora fossem filhos legítimos do patriarca Abraão, poderiam sofrer um juízo de condenação caso andassem nas obras erradas dos cananeus quando viessem a tomar posse da Terra Prometida. E, neste sentido, a mensagem das Escrituras Sagradas permanece atual para a nossa geração e todas as demais que vierem a nos suceder futuramente.

"Qual a mosca morta faz o unguento do perfumador exalar mau cheiro, assim é para a sabedoria e a honra um pouco de estultícia" (Eclesiastes 10:1; ARA)

Para finalizar ressalto que o mal não está necessariamente no outro, mas se trata de uma realidade existente dentro de nós. Pois se os descendentes de Sete teriam mesmo se unido às mulheres perversas da linhagem de Caim, em tal caso não foi porque os chamados "filhos de Deus" teriam estabelecido um elo de identificação com a vida errante delas? Assim sendo, há em nosso interior tanto a boa quanto a má semente, mas cabe ao homem procurar escolher com prudência o caminho correto, jamais se curvando em seus valores éticos superiores visto que o agigantamento de poder não raramente se faz acompanhar pela baixeza de caráter.


OBS: A ilustração acima trata-se de um poster utilizado para a divulgação do filme Noah (Noé).
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