sábado, 12 de março de 2011

A Difícil Arte do Diálogo


Por Levi B. Santos



O que será que desejamos ou procuramos numa boa conversa ou diálogo? Por que será que somos atraídos ou induzidos ao intercâmbio de palavras ou idéias? Quais os temperos que tornam apetitosos os nossos encontros virtuais, além do simples gozo de discordar do outro? Será que o diálogo é um jogo psíquico onde as duas faces da moeda que representam o ser humano são expostas frente a frente? Uma moeda em repouso tem sempre uma face “oculta”. Será que ao discordamos do outro não estamos rejeitando o lado (oculto) da moeda que esquecemos fazer parte de nós?


O velho ditado “dois bicudos não se beijam” nos remete a pensar que duas pessoas de pensamentos idênticos não colhem bons resultados. Levando essa máxima popular para o tema em pauta, me parece que as conversas ou os diálogos não podem ser produzidos entre duas pessoas que estão numa mesma sintonia. Conclusão: para o jogo da dialética é essencial a presença das instâncias opostas.


Então, é uma fatalidade inexorável a afirmação de que “os opostos se atraem”. Mas a felicidade do pensamento único, de um céu onde todos compartilham de um mesmo “néctar” continua a nos encantar e ao mesmo tempo a nos meter medo. Sentimos medo dessa tal de “plenitude” onde não nos falta nada.


Da harmonia do nosso paraíso intra-uterino onde vivíamos numa condição de homeostase, em UNO com a deusa mãe, saímos para a desarmonia e tivemos a primeira experiência traumática por ocasião do parto. Saímos para o mundo da confirmação e da negação dos desejos. E isso é muito bem explicado na metafórica linguagem da Criação, no Livro de Gênesis, que explica o nascimento do contraditório, representado simbolicamente pela figura dos “anjos rebeldes”, que foram expulsos do céu, e dos “anjos conservadores” que lá ficaram.


Ah, se pudéssemos compreender que no cerne do cristianismo há uma grande metáfora que quer mostrar exatamente a impossibilidade de viver sem a ambivalência, sem esse confronto dos afetos contraditórios. A história do cristianismo é uma história inversa de um Deus correndo atrás do homem. O cristianismo se resume na busca dos “anjos caídos do céu”, e que está muito bem explicitada no “Eu vim buscar o que se havia perdido”, dito por Cristo. E o que se havia perdido ou jogado fora, nada mais é do que o outro lado da moeda, que representam os nossos afetos transgressores, descrito de forma alegórica, como “os anjos que resolveram discordar” da autoridade máxima, que exigia silêncio, glórias para si, e não a conversação ou a troca de idéias.


Na realidade, crescemos em lares em que, via de regra, um dos pais era diferente do outro. Enquanto um por ser impulsivo era tido como egoísta, o outro por ser passivo era tido como generoso. Ficamos expostos a esses dois modos de ser desde a mais nossa tenra idade. Não é por acaso que se costuma dizer: “essa menina puxou ao pai, ou esse menino puxou a mãe”.
A conversa ou briga entre irmãos terá sempre como pano de fundo os afetos opostos presentes nos pais.


Quando se lê na Bíblia a afirmação de que Deus criou o “bem” e o “mal”, subtende-se que nela residem a “Tese” e a “Antítese”, e que o cristianismo quis realizar exatamente a Síntese entre esses dois polos. Como estamos em constante evolução, então, a síntese não pode ser algo fixo, tem de ser também dinâmica ou renovável.


Theodore Zelden — Historiador e Humanista Inglês, conta que na Inglaterra existia um tal de Dr. Johnson, tido como o Rei da conversação. Conversar era seu prazer supremo, trazia-lhe alívio, mas não funcionava como troca. A divergência não o interessava, porque ele findava sempre como uma das partes vitoriosas. Ele lutava ferozmente para assegurar sempre o primeiro lugar. O Dr. Johnson morreu sem nunca ter descoberto o valor de ser contestado. Foi apenas um elaborador de teses, e, por não admitir a antítese, nunca experimentou a síntese.


A conversa é recheada por palavras ditas e contraditas; é como uma nuvem que abriga nossas alegrias e gratificações, e ao mesmo tempo oculta os terrores, os males e as tristezas que constantemente nos assaltam.


Quando dialogamos, entramos numa aventura difícil e muito arriscada. Digo arriscada, por que os nossos valores não podem ser deslocados para dentro da subjetividade do outro de forma despojada, como intencionamos.


Há uma máxima de Ortega y Gasset (*), que penso ser irretocável, por entender que nela existe o “porquê” dessa nobre arte do diálogo nos animar tanto:


Pontos de vista e formas de ser parecidas nos fazem sentir acolhidos, enquanto as diferenças e a diversidade de opiniões nos fazem sentir sozinhos e desamparados”.




(*) José Ortega y Gasset (1883 – 1955) foi um importante filósofo espanhol. Deixou um vasto acervo de obras consagradas na área da Filosofia, dentre elas destacamos – "Rebelião das Massas".




Imagem: http://gratisexo.blogspot.com/2010/10/dialogo-do-orcamento.html
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