sábado, 19 de maio de 2012

Não Pise Nos Meus “Calos”!!!




Por  Levi B. Santos


Já virou um dito popular a emblemática reação que esboçamos quando nos sentimos contrariados: “Reagi porque você pisou nos meus calos!”

Ora, quem é que tem um calo no pé e não reage, quando alguém, mesmo sem saber, e sendo pessoa amiga, o pisa? 

Há uma letra de Noel Rosa que evidencia toda sua decepção ante uma pessoa querida que pisou nos seus calos, entendendo por “calo” algo que se tem doloridamente escondido. A modinha de Noel é composta de nove estrofes e tem por título “Você é um Colosso”, da qual reproduzo os três primeiros versos:

Você é um colosso
Andou no meu carro
Filou meu cigarro
Fumou meu cigarro.

Vestiu meu pijama
Sentiu um abalo
Fuçou minha cama
Pisou no meu CALO.

E não adianta
Você me pedir perdão
Depois de você pisar
Meu CALO de estimação.

Mas esse algo escondido ― metáfora de “CALO” ―, em psicanálise, denomina-se “recalque”, que no dicionário Aulete, assim é definido: RECALQUE (psic) “Mecanismo psicológico de defesa pelo qual desejos, sentimentos, lembranças que repugnam à mentalidade ou à formação do indivíduo são excluídos do domínio da consciência e, conservadas no inconsciente, continuando, assim, a fazer parte da atividade psíquica do indivíduo e a produzir nela certos distúrbios de maior ou menor gravidade”.

Foi no passado longínquo de minha infância que pela primeira vez entrei em contato com a palavra CALO, que no sentido figurado, segundo o Aulete, quer dizer ― “uma falta de sensibilidade causada especialmente por sofrimento prolongado”, vindo seguido de uma frase de sentido metafórico: “indivíduo frio, que tem calo na alma.”

Lembro-me bem como foi a minha primeira experiência consciente com calos de verdade. Em um dos desfiles obrigatórios no dia da pátria, eu culpei os sapatos apertados da marca Vulcabrás pelo aparecimento das bolhas em meus pés, que com o tempo viraram calos. Noutro desfile, foram os sapatos folgados que, pelo contínuo atrito sobre os calcanhares, causaram as bolhas. Como era difícil encontrar um sapato na medida exata, da largura e do comprimento dos pés, eu comecei a culpar os meus próprios pés.

Com o tempo, já adulto, noto as manchas e vestígios um tanto anestesiados dos calos. Tenho adotado medidas de proteção para não serem vistos e pisados. Mas não tem jeito: de vez em quando eles ressurgem, doloridamente, ferindo a minha paz artificialmente perfeita. Agora, na ausência dos sapatos de couro duros, é o mundo lá fora, as pessoas, as escolas, as instituições, as organizações, o governo, os parentes, que eu  culpo por apertarem os calos adquiridos na infância.

Atualmente tenho lido muito, chegando às vezes a sentir-me triunfante com as racionalizações mirabolantes que faço. Distraio-me fabricando o meu pensar, num vaivém de idéias captadas de outros mestres. Não sei, mas algo me diz que tudo que faço é para esquecer os calos. Algo me diz que o temor que sinto de alguém me pisar, expressa uma tentativa do meu EU em confrontar-se com os prejuízos que os sapatos me causaram no passado. De nada adianta minha resistência, pois quanto mais silencio, me amuo, ou me rebelo, fico pesado como um homem de chumbo. E quanto mais pesado fico, pior para os calos.

Resoluto, digo para mim mesmo: “um dia hei de encontrar meios de garantir total segurança para proteger a fragilidade angustiante dos meus doloridos e calosos pés. A Ciência descobrirá, não tenho dúvidas (?), materiais mais opacos ou densos aos olhos alheios, mais macios e mais resistentes às pisadas dos outros”.

Por outro lado, penso que ao invadirem o porão obscuro do inconsciente ou dos afetos adormecidos, e de lá extirparem com precisão os calos (recalques), deixaremos de ser humanos para nos tornar seres previsíveis, autômatos e não reativos.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 19 de maio de 2012

Site da Imagem: katamigos.blogspot.com 
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