segunda-feira, 28 de maio de 2012

Sou um epígono?



Qualquer religioso que quiser saber sobre sua religião, converse com um ateu. O ateu sabe mais de religiões do que muitos pastores, rabinos ou padres.
Bem me lembro do dia em que eu, aluno interno do rigoroso colégio Batista Sul Americano da cidade de Nanuque ao norte do estado de Minas Gerais, ouvi pela primeira vez a despedida comovente de Jesus dos seus discípulos, na qual anunciava que o senhor “porá as ovelhas a sua direita e os cabritos à esquerda”. (Mateus 25,33)
“Então o Rei dirá aos que estiverem a sua direita: Vinde, benditos de meu pai, possuí o reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e me vestistes, enfermo e me visitastes, estava na prisão e fostes visitar-me”. (Mateus 25, 34-36)
O diretor do colégio advertiu-nos para vivermos cada dia de nossa vida de modo que, a todo instante, pudéssemos comparecer perante  Deus de coração puro, desde que jamais duvidássemos, mas sempre acreditássemos piamente na palavra de Deus, sem divergir, em nada das escrituras.
Durante o sermão, tive a certeza que iria ficar do lado esquerdo, pois meu coração estava transbordando de dúvidas. Como será?, matutei. Estaria certo o pastor em dizer que Deus recompensará os fiéis que jamais duvidaram? Ficarão a sua direita os que conseguem crer sem nunca levantar uma dúvida? Só porque sempre acreditaram? O pastor sempre cita a palavra de Deus, mas até agora, jamais assistiu ao ato de uma seleção celeste, ou de alguma recompensa a fiéis. O pastor poderia estar enganado. Os carros com as inscrições “Presente de Deus” são alienados e as curas de resfriado, enxaqueca ou diarreia são efeitos placebo. Houve a legitimação pela invocação do nome de Deus no efeito “tradição” pois os crentes preferem imitar os antepassados do que encontrar maneiras de descobrir novas verdades no presente.  Porém o meu Deus sábio e onipotente (a esta altura eu ainda conservava algo do velho senhor bondoso de compridas barbas brancas) falaria diferente. “Meus filhos, dei a vocês o raciocínio para usá-lo. Fiz vocês parecidos com um macaco, porém  mais inteligentes do que todos os bichos para que pensem, perguntem e evoluem. Fiz os chimpanzés para sua apreciação e não, para serem imitados. Quem entre vocês for covarde demais para pensar, não terá lugar no meu reino, condeno ao fogo eterno  quem não usar seu raciocínio.”
Este episódio se passou há cincoenta anos atrás, mas a quintessência do meu raciocínio infantil permanece inalterada e eu sei que não sou prógono do ateísmo. Até hoje nunca vi um anjo e nenhum dos doze mil santos, logo, continuo a pensar e a perguntar, mesmo que eu nunca encontre a verdade, mas na Bíblia eu já sei que ela não está.
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