quarta-feira, 9 de maio de 2012

Mil palavras...podem explicar


“De fácil leitura, para um fácil entendimento”
Por Edson Moura

Uma das coisas que mais me atraem nesta Confraria, além de estar na companhia de alguns intelectuais, é o fato de, por vezes, me ver lendo um artigo que me era totalmente estranho, de forma tranquila e sem complicações causadas pela escrita rebuscada. Foi assim que acabei me apaixonando pela Filosofia (lendo os textos do Gresder), foi assim também que a Psicanálise se tornou alvo de meus estudos (lendo e relendo os textos do mestre Levi), também entendi muito do mundo transcendental proposto pelas religiões, debatendo com Eduardo Medeiros e refutando seus comentários irrefutáveis à medida que ele refutava os meus irrefutáveis comentários. Aprendi e me apaixonei pela tecnologia do “LHC” (acelerador de partículas) apresentada a mim pelo Altamirando Macedo, resumindo, foi a fácil leitura e os salutares debates que me fizeram compreender, mesmo que de forma superficial, sobre os mais variados temas. Mas nem todos os textos são assim.

É frequente professores universitários ou pesquisadores escreverem textos difíceis, fechados, herméticos. Aliás, é curioso esse último adjetivo, que poderia remeter a Hermes ou Mercúrio, (Deus greco-romano da comunicação), mas acaba se referindo ao misterioso, ao oculto, ao fechado (Deus egípcio Thot), chamado em grego de Hermes Trismegisto, uma variação do mesmo Hermes. Na verdade, essa estratégia nasce do medo. Muitos receiam se expor ou revelar suas ideias (bem diferente dos Confraternos que não se preocupam em errar tentando acertar). Na academia, o prestígio conta bastante, mais que o dinheiro ou o poder. E é tão grande o medo de que os outros os desprezem (de que percam valor aos olhos dos mestres) que vários pesquisadores, inclusive bons, mas, sobretudo os principiantes, acabam preferindo não serem entendidos. Têm medo de que suas ideias pareçam simplistas, simplificadas, banais, ou seja, de fácil entendimento.

O primeiro sinal disso é escrever trabalhos mais longos que o necessário, é como escrever um texto que poderia ser facilmente explicado com mil palavras, mas acaba sendo enchido ao ponto de se tornar enfadonho, cansativo e complicado. Temem esquecer-se de algo, onde dissertações, provas e teses acabam maiores do que deveriam ser. E isso debilita a qualidade. Um bom texto deve ser completo, desprovido de redundâncias e repetições. Como escritor leigo, tanto eu quanto o Marcio, desde o começo do “Outro evangelho” lutamos contra isso, por exemplo, fixando um limite máximo de mil palavras por artigo, para levar os leitores a enfatizar o principal, aprendendo a distingui-lo do secundário, permitindo que os espaços que porventura fiquem vazios, sejam preenchidos pela capacidade de raciocínio de cada um. Também incentivamos um ao outro para que não fiquemos presos apenas a um autor, a um filósofo, a uma só religião. Quando se compara, precisa-se dizer algo sobre a diferença, e a diferença é uma oportunidade para desabrochar a originalidade de cada escritor ou leitor.

Além do comprimento, há palavras difíceis e construções sintáticas complicadas. Alguns, podendo escolher entre uma expressão de uso corrente e outra rara, preferem a segunda, pois fica mais bonito. Mas de que adianta ser bonito se ninguém vai entender? Isto é preciosismo inútil, porque sabemos que muitas pessoas que estão começando a se interessar por leitura ainda não dominam plenamente o vernáculo, nem a gramática. Uma sintaxe arrevesada leva, às vezes, à dificuldade de entender o que foi escrito, não porque seja complexo, mas porque é mal escrito. Isso ajuda o autor inseguro, porque ninguém sabe o que ele quis dizer. No fundo, a raiz do texto hermético é o medo de afirmar algo, claro e em bom som.

Também faz parte do medo ao superego acadêmico chamar algo de "interessante". Se me contestarem que não é bom, responderei que não elogiei - isto é, não me comprometi, apenas disse que era... Interessante. Portanto amigos da Confraria, se um dia vocês escreverem algo, e um comentarista disser que achou interessante, desconfie, pois ele apenas está se precavendo para na hora que o Eduardo chegar refutando tudo, ele possa tirar a “bunda da seringa”.
Uma ilustração para a questão acima: 

“O Técnico de futebol infantil, Senhor Noreda, percebeu que um dos alunos da 5ª série nunca ficava na frente quando era o momento de fazer a escolha dos times para o jogo, e se espantou ao ver isso se repetir o ano inteiro. Logo entendeu: Se ficasse ali na frente e ninguém o escolhesse, a vergonha seria enorme, pois uma criança (e até mesmo alguns adultos) ainda não sabe lidar o sentimento de rejeição. Ficando longe, diminuíam muito a chance de jogar, mas melhoravam brutalmente as desculpas, "não me escolheram porque não me viram".

Uma manobra imbecil, mas que surte efeito. Para quem não se arrisca, é ótimo, pois poupa a autoimagem. O problema, voltando à opção pelo texto indecifrável, é que este aumenta fortemente a chance de não ser lido. E quem aqui quer escrever um texto que, logo no primeiro parágrafo, o leitor desista de continuar?

Por experiência, sei que um livro que não me envolve nas primeiras páginas ou um filme, nos primeiros minutos, dificilmente melhora depois. Pode ser que eu assim perca alguma obra de mediana qualidade, mas certamente ganho tempo (como na ilustração, posso estar cometendo um ato imbecil) para ler coisas excelentes. Por isso, não admiro quem, por medo, escolhe escrever difícil, na amarga ilusão de que o complicado é complexo, quando é, apenas e artificiosamente, complicado.

Então amigos, continuem assim, trazendo para esta Confraria de Pensadores Fora da Gaiola, sempre textos de fácil entendimento, para que possamos dividir nosso conhecimento para então multiplicar nossos leitores, subtraindo a preguiça causada pelo primeiro parágrafo chato e somando a tudo isso a vontade de ler mais um.

Por exemplo, as findas linhas deste opúsculo, de nada mais servem senão para “des-lacunar” as fissuras deixadas por um escritor pernóstico em seu subliminar compêndio. Pra não contradizer-me em minhas próprias palavras deixo a vós um artigo severamente calculado para que em seu interior houvesse apenas, somente, nada mais, que as mil palavras de que falei acima.
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