sábado, 19 de janeiro de 2013

A Vitória das “louras”





A melhor pedida para um dia quente de verão é sem dúvida, uma loura estupidamente gelada”. Hoje as louras são soberanas nas rodas de amigos e nas propagandas mais alegres e esfuziantes da TV mas nem sempre foi assim. Lá pela década de 1910, figuras importantes da sociedade como médicos, advogados e mulheres da elite nacional se inspiraram no que acontecia nos EUA com a Lei Seca (1019) para organizar aqui um movimento parecido.  Os defensores da cerveja argumentavam que o problema nacional era o aguardente de cana, o que acabou estigmatizando os mais pobres que eram chegados a uma cachacinha.


As cervejarias partiram para o ataque contra os  inimigos das louras. Começaram a divulgar que seus produtos eram feitos em moldes industriais, com critérios rígidos europeus de higiene e que beber cerveja durante as refeições era um hábito salutar. A propaganda deu resultados pois a partir de 1910, tomar cerveja em espaço público e em grandes eventos tornou-se um hábito. Um desses eventos era a festa da igreja da Penha, no Rio de Janeiro que acontecia em todos os fins de semana do mês de outubro desde o período colonial. A multidão se reunia para comer, dançar e beber várias rodadas da cerveja mais popular da festa “Cascatinha”, produzida pela cervejaria Hanseática, do industrial português Zeferino de Oliveira. A principal concorrente da Cascatinha era a Brahma, que acabou por comprar a fábrica do Zeferino em 1939, mas que continuou rotulando a nova produção como Cascatinha para ser vendida na festa.


Desde 1908 que a Brahma já se preocupava com a reputação de seu produto, e contratou um certo Dr. Pires de Almeida, autodenominado higienista, para escrever um livreto chamado A Companhia Cervejeira Brahma perante a indústria, o comércio e a hygiene, no qual defendia que a cerveja, por ter efeitos tóxicos desprezíveis, uma fórmula nutritiva e uma produção baseada em padrões científicos e higiênicos alemães, podia ser consumida sem culpa. A ideia era distribuir o livreto na Exposição Nacional daquele ano em que se comemorava o centenário da Abertura dos Portos. A Brahma já existia no Brasil desde 1888, e o evento acabou sento uma ótima propaganda para a marca.


Na década de 1920, o movimento de combate ao álcool se intensificou com a criação de novas entidades, como a Liga Brasileira de Higiene Mental e a União Brasileira Pró-Temperança, que promoviam campanhas educativas e propunham leis aos parlamentares que no entanto, não davam muita bola para as exigências pois viam tais entidades com desconfiança. Ainda assim, o valor do imposto sobre as bebidas subiu bastante, principalmente da aguardente de cana. O então presidente Washington Luís em 1928 chegou a alterar o funcionamento do comércio no Rio de Janeiro, decretou que bebidas alcoólicas só poderiam ser vendidas depois das 19 horas.


Longe das polêmicas, as pessoas que ascendiam socialmente, optavam pela cerveja ao invés da cachaça. A propaganda alcançou seus objetivos, conseguindo até que as cervejas pretas adocicadas fossem recomendadas como tônico para as mulheres que amamentavam -  costume que já era bem antigo.  Num contra-ataque aos anúncios da Brahma, o médico pediatra Carlos Arthur Moncorvo Filho (1871-1944), lançou em 1928, um panfleto no qual afirmava que as mulheres deveriam amamentar seus próprios filhos e se afastar de qualquer tipo de álcool, inclusive, a cerveja. O panfleto também tinha o objetivo de enfraquecer as chamadas amas de leite que ainda eram comuns na cidade. Aconteceu campanhas sistemáticas nos jornais, nas fábricas, nas escolas. A partir de 1930, o rádio divulgava que o consumo de álcool sem moderação era uma fraqueza de caráter responsável pelo nascimento de crianças deficientes.


Mas toda essa campanha do contra não mudou o hábito da população. A primeira política de alcance nacional a pensar em algum tipo de controle do hábito de beber foi  o Código de Trânsito de 1997; mas só com a Operação Lei Seca (olha ela aí outra vez!), de março de 2009, alcançou resultados significativos em evitar mortes no trânsito por causa do álcool. A verdade é que a cerveja venceu. Apesar do aperto atual da Lei Seca, consome-se cerveja como nunca; é um hábito já incorporado ao dia a dia dos brasileiros.  Sem dúvida é preciso conscientizar os bebedores de que álcool e direção não combinam, as estatísticas estão aí para confirmar. Apesar de todo prazer que é beber uma loura gelada numa tarde de verão sozinho ou com amigos, a máxima atual é mais do que válida: “Se beber, não dirija” e “Aprecie com moderação”.




A Festa da Penha(RJ), em outubro de 1917.




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Bibliografia:                                                                                            

Tese da professora Teresa Cristina de Novaes Marques, “Capital, Cerveja e Consumo de Massa: A trajetória da Brahma, 1888-1933 (UNB, 2003) e artigo da autora publicado na revista de História da Biblioteca Nacional de novembro de 2010

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