quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O Einstein religioso: Sintético manual de funcionamento






Einstein foi morar nos EUA para se livrar do nazismo mas ficou  mal com os cristãos americanos quando disse que a ideia de um Deus pessoal lhe era estranha e até ingênua. Era um religioso no sentido do deslumbramento que o cosmos lhe causava. Declarações como “Sou um descrente profundamente religioso. Isso é, de certa forma, um novo tipo de religião” não caiu bem nos ouvidos cristãos fundamentalistas como também esta outra afirmativa: “Jamais imputei à natureza um propósito ou um objetivo, nem nada que possa ser entendido como antropomórfico. O que vejo na natureza é uma estrutura magnífica que só compreendemos de modo muito imperfeito...é um sentimento genuinamente religioso, que não tem nada a ver com misticismo”.


Os ataques começaram a aparecer. O bispo católico de Kansas City disse: “É triste ver um homem que descende da raça do Velho Testamento e de seus ensinamentos negar a grande tradição dessa raça”. Um outro religioso católico foi enfático: “Não há nenhum outro Deus que não um Deus pessoal...Einstein não sabe do que está falando(...)” Um advogado católico americano escreveu para Einstein:


“Lamentamos profundamente que o senhor tenha feito a declaração(...) em que ridiculariza a ideia de um Deus pessoal. Nos últimos dez anos, nada foi tão bem calculado para fazer as pessoas acharem que Hitler tinha alguma razão ao expulsar os judeus da Alemanha quanto sua declaração. Admitindo seu direito à liberdade de expressão, digo ainda assim que sua declaração o constitui em uma das maiores fontes de discórdia dos Estados Unidos.”


Um rabino de Nova York mandou um recado: “Einstein é sem dúvida um grande cientista, mas suas opiniões religiosas são diametralmente opostas ao judaísmo”.

A carta do fundador da Associação do Tabernáculo do Calvário, em Oklahoma dizia: “Não vamos abrir mão de nossa crença em nosso Deus e em seu filho Jesus Cristo, mas o convidamos, se o senhor não acredita no Deus do povo desta nação, a voltar ao local de onde veio...” Era impossível para os cristãos americanos engolir outras falas de Einstein como “se você ora a Deus e lhe pede algum benefício, não é um homem religioso”. Uma conferência do clero em Nova York em 1940 fez uma oposição considerável à “religião einsteiniana”.


Mas verdade seja dita, Einstein nunca considerou a sua rejeição de um Deus pessoal como uma negação de Deus. Chegou mesmo a declarar que a crença em um Deus pessoal parecia “preferível à falta de qualquer visão transcendental da vida”. Ele declarou também que “os princípios mais elevados para nossas aspirações e juízos, nos são fornecidos pela tradição religiosa judaico-cristã”. Em uma mensagem que ele enviou à Conferência Nacional de Cristãos e Judeus em 1047 ele declarou: “Se os fiéis das religiões atuais tentassem sinceramente pensar e agir segundo o espírito dos fundadores dessas religiões, não existiria nenhuma hostilidade de base religiosa entre os seguidores dos diferentes credos. Até os conflitos no âmbito da religião seriam denunciados como insignificantes”.


Einstein nunca gostou de ser chamado de ateu. Numa conversa com o príncipe Hubertus de Lowenstein declarou: “O que realmente me aborrece é elas (as pessoas que dizem que Deus não existe) citarem a mim para corroborar essas ideias”. Não era fácil para um “cristão comum” e um “ateu comum” entenderem o pensamento de Einstein sobre religião e transcendência. Tanto um quanto o outro ora o citava para embasar suas ideias, ora tinha que perceber que ele as negava... Einstein nunca considerou que sua negação de um Deus pessoal como negação de Deus. Recentemente  o Osservatore Romano, publicação da Igreja Católica Romana, a proclamou que a religião cósmica de Einstein era um autêntico ateísmo, ainda que camuflado de panteísmo cósmico. Mas depois a publicação acabou por se retratar...


A declaração mais famosa de Einstein, ainda vai continuar sendo mal entendida por apologistas cristãos e ateus desavisados: “a ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega”.



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citações: Max Jammer, "Einstein e a religião.
Ed Contraponto
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