quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A radicalização dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse


Por Marcelo Gleiser


Minimizar a importância e o poder da fé na vida das pessoas é um erro grave. Aquele que acham que a tecnologia necessariamente leva a uma sociedade cada vez mais secular deveriam dar uma boa olhada em torno. No maior país do mundo, líder em tecnologia, os EUA, mesmo admitindo variações do que "Deus" signifique, de cada dez americanos em média sete têm certeza absoluta de que Deus existe. Os EUA são uma das nações mais religiosos do mundo. Se a percentagem de fiéis na época do faraó Akenaton (1350 aC) era, digamos, de 99,9%, esta é apenas uma diferença de 7,9% do número atual nos EUA.
Somos capazes de acreditar em algo mesmo na ausência de qualquer evidência. Em outras palavras, quando queremos acreditar em algo fica bem mais fácil nos convencer de que esse algo existe.

Nos últimos anos, a chama "guerra" entre a religião e a ciência vem sendo abordada por um novo ângulo, bastante polêmico. Cientistas como Richard Dwkins e Sam Harris, o filósofo Daniel Dennett, e o polêmico jornalista inglês Christopher Hitchens, um grupo conhecido como os "Quatro Cavaleiros do Apocalipse", resolveram tomar a ofensiva, tachando a crença religiosa como uma espécie de ilusão ou de delírio, uma forma de loucura coletiva que vem causando caos pelo mundo afora desde os primórdios da civilização.

Esse tipo de atitude acaba levando a uma radicalização ainda maior. Um estudo superficial da história da civilização humana mostra que o extremismo é uma péssima estratégia diplomática. Acusar as pessoas que acreditam em Deus de serem ignorantes, loucas ou simplesmente estúpidas, não leva a nada. Deixando de lado os possíveis benefícios sociais e psicológicos da religião - todos em princípio proporcionáveis por meio seculares - como uma entidade que proporciona um senso de comunidade e identidade  a bilhões de pessoas, e que oferece consolo  a tantos tipos de sofrimento, existe uma razão universal que leva as pessoas a buscar pela fé, mesmo na ausência de provas de que divindades sobrenaturais existam.  Claro, muitos diriam que essas provas não fazem sentido, que a sua fé já é prova suficiente, que nem tudo no mundo tem que ser comprovado para ser real.

A verdade é que provas empíricas não têm nada a ver com o poder da fé. Quanto mais misterioso o credo, mais ardente a crença.A grande maioria das pessoas acredita no sobrenatural por não aceitar que a morte possa ser o fim definitivo da vida. Será que é só isso? Será que vivemos, amamos e sofremos para sermos esquecidos após algumas gerações? Qual o sentido da vida, se no final a morte e o esquecimento são inevitáveis? Com mais perguntas do que respostas, as pessoas abraçam a fé, entregando-se a algo que promete alçá-las além dos confins da matéria e do tempo.  Ridicularizar essa necessidade humana, como fazem os "Quatro Cavaleiros" e tantos outros, é demonstrar uma profunda ignorância (ou indiferença?) do que passa pelos corações e mentes de bilhões de pessoas.

Alguns anos atrás, dei uma entrevista ao vivo para uma rádio AM em Brasília. Estávamos na rodoviária, perante uma audiência composta principalmente de operários e diaristas. Falei da origem do universo de acordo com a teoria do Big Bang e de como a ciência explicava tantos detalhes da Criação. De repente, a mão de alguém se ergueu numa das primeiras filas. Um homem com rugas precoces e o rosto sujo de graxa me olhava intensamente. "Quer dizer que o senhor quer tirar até Deus da gente?", perguntou. Olhei-o chocado, sabendo que a sua voz ecoava bilhões de outras.

Karl Max disse a famosa frase: a religião é o ópio do povo. Se a intenção de alguns é tirar a religião das pessoas, é bom oferecer um outro tipo de ópio. O que o ateísmo oferece - mesmo com todo o seu apelo à razão e à lógica da ciência - não vai funcionar.


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Marcelo Gleiser é professor de Filosofia Natural e de Física
e Astronomia no Dartmouth College, onde dirige um grupo
de pesquisa em física teórica. É autor, entre outros, de A Dança
do Universo e de O fim da Terra e do Céu, ambos vencedores
do Prêmio Jabuti. É também articulista da Folha de São Paulo
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