segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O nada que funciona



Efeito placebo. Segundo o médico e farmacologista Julio Rocha, "placebo é qualquer tratamento que não tem ação específica nos sintomas ou doenças, mas que, de qualquer forma, pode causar um efeito no doente". Existem estudos que demonstram que pelo menos um terço do total de pacientes  tratados com substâncias inertes apresentam alguma melhora clínica.

Um recente estudo em Havard, foi testado a eficácia do placebo em vários distúrbios como dor, hipertensão e asma. O resultado confirmou: de 30 a 40% dos doentes obtiveram alívio pelo uso de drogas falsas. Há casos de melhora até em falsa cirurgia! O cardiologista Protásio Lemos da Luz, do Incor, lembra de exemplos que viraram clássicos na medicina:  pacientes com angina (dor no peito pelo estreitamento das artérias) que seriam  operados para a colocação de pontes coronárias, mas que estavam em tão mau estado que não dava para operar, ao observarem o corte no peito e saber que passaram por uma cirurgia...melhoraram da angina!

Curas praticamente inexplicáveis abundam na literatura médica. Num outro estudo, pesquisadores eliminaram verrugas apenas pintando-as com uma tinta colorida e inerte, e dizendo aos voluntários que elas desapareceriam quando a cor se desgastasse. Numa outra pesquisa, conseguiu-se a dilatação das vias aéreas de asmáticos simplesmente dizendo  eles que estavam inalando um  broncodilatador, que de fato não estavam. Em outros levantamentos, constatou-se que 52% dos pacientes com colite tratadas com placebos, em 11 diferentes estudos, relataram sentir-se melhor, e 50% dos intestinos inflamados realmente apresentaram melhoras.

Então o caso é o seguinte: quando alguém toma uma substância inerte, pensando que está consumindo um remédio, tem uma melhora real. Curiosamente, num outro estudo em Havard, um novo aspecto ampliou o mistério dos placebos. 80 pacientes com síndrome do intestino irritável; para a metade foi ministrada pílulas de açúcar e disseram a eles que era isso mesmo, apenas um comprimido sem princípio ativo nenhum. A outra metade não recebeu nenhum tratamento.

A surpresa foi que 56% dos pacientes tratados com o placebo, mesmo sabendo que tomaram placebo, relataram alívio nos sintomas. No outro grupo de controle que não tomou droga nenhuma, 35% relataram melhoras. Os pesquisadores verificaram também que os pacientes que tomaram placebo sabendo disso ainda duplicaram as taxas de melhora, em um grau mais ou menos equivalente ao que se esperaria caso houvessem sido tratados com os remédios mais poderosos contra a síndrome existente no mercado.

A pergunta óbvia que surge é: por que isso acontece? Ninguém sabe direito. O pesquisador português Brissos Limo, doutor em psicologia sugere algumas explicações. A principal: o que acontece é a natureza seguindo seu curso. Muitas vezes uma pessoa doente se cura apenas com o passar do tempo, mesmo não fazendo nada e não tomando nenhum medicamento. Nesse caso, o efeito não seria do placebo e sim, da própria natureza. Outra explicação é de que o placebo pode reduzir a ansiedade do indivíduo doente que recebe o tratamento, reduzindo-lhe o estresse e gerando efeitos fisiológicos que contribuem para a sua recuperação.

Mas para o cardiologista Luz do Incor, a explicação maior está no cérebro, que coordena vários sistemas adaptativos e de defesa do se humano. Existem mecanismo de atuação do próprio cérebro que são estimulados pelo consumo de uma determinada pílula com princípio ativo. Embora usando um placebo, a pessoa não sabendo disso, recebe a mensagem cerebral como se ela estivesse de fato tomando um remédio. Mas deve-se lembrar do experimento com pessoas que sabiam estarem tomando placebo.

De qualquer forma, o cardiologista alerta que não se deve apostar todas as fichas no placebo pois existem diferentes graus de agressão ao organismo. Um  intestino irritável é uma coisa, uma infecção bacteriana ou um câncer, é outra. 

Concluindo, deixo aqui a minha opinião de leigo em medicina. Creio que a cura para todas as doenças que existem estão na natureza e na mente humana. Para mim o efeito placebo demonstra isso de forma clara. Quem sabe um dia estaremos tão evoluído em nosso autoconhecimento que aprenderemos a nos curar de todos os males; nesse tempo,  os laboratórios multinacionais que lucram bilhões com as doenças, estarão todos falidos.


__________________________
Todas as pesquisas citadas
foram tiradas da edição 8, ano 2,
da revista Quanta: ciências da natureza
e suas tecnologias.
Postar um comentário
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...