sexta-feira, 29 de maio de 2015

A prevenção da AIDS entre pessoas casadas




Por muitos anos, principalmente na década de 80, a AIDS esteve relacionada aos chamados "grupos de risco", dentre os quais costumavam incluir os homossexuais, as profissionais do sexo, os usuários de drogas injetáveis e até mesmo os homofílicos. Era comum ouvir religiosos discursando que o aparecimento da doença seria uma espécie de castigo de Deus para quem tivesse relação sexual com pessoas do mesmo sexo, numa preconceituosa associação com a destruição das cidades Sodoma e Gomorra relatada no livro de Gênesis.

Entretanto, nos anos 90, essa ideia preconceituosa foi se tornando ultrapassada e casais começaram a ser diagnosticados como portadores do vírus HIV. Mulheres que estavam casadas há décadas com seus maridos, sem jamais terem praticado atos de infidelidade conjugal, tornaram-se vítimas inocentes dessa terrível enfermidade que passou a se manifestar não apenas entre os jovens mas também no meio de pessoas de meia idade e até entre idosos.

A partir daí, pode-se dizer que a sociedade brasileira foi tomando uma maior consciência dos riscos aos quais os heterossexuais estavam expostos tal como os homossexuais. Porém, verdade seja dita que, mesmo as pessoas casadas terem conhecido os mecanismos de transmissão do HIV, a maioria delas parece que não mudou suas atitudes de vulnerabilidade à doença e poucas adotaram aquilo que se considera um "comportamento de saúde sexual".

Pois bem, derrubada a crença de que pessoas casadas não poderiam ser infectadas pelo HIV, coloco aqui a questão sobre como os casais podem ser orientados para lidarem com esta questão. Sem dúvida que, quando falamos em fidelidade conjugal, parece que a resposta para o problema seria óbvia. Porém, não quero que o assunto se esgote neste ponto como se bastasse um pastor pregar em frente ao púlpito que basta o marido e a esposa serem fiéis um ao outro para viverem imunes à AIDS. O ponto a ser trabalhado talvez seja este: 

Como manter o comportamento de fidelidade conjugal e qual a ética mínima que as pessoas precisam ter para um relacionamento aceitável dentro da sociedade?

Algumas questões certamente causam polêmicas para cristãos e uma delas diz respeito ao uso de preservativos. Embora o sexo entre muitos os casais religiosos não seja feito apenas com os fins reprodutivos (a maioria de evangélicos e católicos já não vêem como pecado transar por prazer), a relação sexual habitual do crente não costuma ir muito além do que se considera lícito (o coito vaginal) e há sérias dúvidas/divergências sobre quais métodos preventivos utilizar.

Por outro lado, dentre aqueles que não consideram pecado o uso da camisinha, esta prática ainda é mal vista nos costumes sociais como sendo consequência da quebra da fidelidade conjugal entre os cônjuges. Mesmo com tanta informação na mídia, uma pergunta ainda fica no ar (geralmente nas mentes das esposas): "Será que, em condições normais, se eu propuser ao meu cônjuge o uso de preservativos nas nossas relações ele/ela vai achar que estou com algum tipo de desconfiança?" Isto sem falar que ainda existe o medo de que, se o cônjuge tomar a iniciativa do uso do preservativo, estará levantando suspeitas de infidelidade contra si mesmo.

Outro aspecto infeliz é que muitas esposas cristãs preferem correr o risco de serem infectadas pelo HIV para não se tornarem mulheres divorciadas de seus maridos infiéis. Cultiva-se até hoje nas igrejas uma cultura machista de que a mulher deva lutar a todo custo para restabelecer o seu casamento fracassado, mesmo em caso de flagrante adultério do marido. E, por causa disso, há inúmeros comportamentos errados que vão se perpetuando e trazendo riscos para a saúde do casal. Um deles seria a negação sistemática da infidelidade do marido apenar porque a esposa não quer acreditar na verdade de que já está com a cabeça cheia de "chifres".

Em minha compreensão, torna-se um verdadeiro mal se a esposa (ou o marido) descobre que seu cônjuge infiel mantém relações extraconjugais e ainda assim consente em continuar praticando sexo penetrativo sem camisinha. Pois, se uma mulher permite que seu esposo, simultaneamente, relacione-se com outra mulher (ou com outro homem), já não há mais um matrimônio puro e sim a tolerância de um comportamento de risco capaz de trazer indiscutíveis danos para toda a família. 

Interessante que a infidelidade conjugal, no 1º Evangelho, foi declarada por Jesus como uma hipótese que fundamenta o divórcio masculino, quando o Mestre deu a sua interpretação acerca da legislação mosaica, valendo lembrar que a mulher não possuía o direito de divorciar-se naqueles tempos em Israel (e até hoje não tem em inúmeros países do Oriente Médio e da África de cultura muçulmana):

"Também foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério" (Mt 5:31-32; versão de Almeira Revista e Atualizada - ARA)

É evidente que, na concepção atual da Constituição de 1988, qualquer regra que serve para homens, também se aplica às mulheres e vice-versa. Já nas tradições judaico-cristãs, essa igualdade entre os sexos foi sendo construída aos poucos. Então pensando em termos éticos, indago: 

Quando há infidelidade conjugal, não poderia a esposa (ou o marido) lutar para ter de volta o seu cônjuge?

Em minha limitada compreensão da Vida, parece-me que se trata de uma faculdade do cônjuge traído aceitar de volta sua esposa (ou o seu marido infiel). Não pretendo aqui discutir no campo da Teologia se existe ou não possibilidade do cônjuge traído casar-se com outra pessoa com a aprovação das Escrituras Sagradas. Porém, quero frisar que, no campo da ética, uma esposa traída teria não só o direito, mas também o dever, de suspender o relacionamento sexual com o marido que vive infielmente, bastando que tenha fundada suspeita da infidelidade (não um mero ciúme).

Apesar de tudo, não deixa de ser uma questão difícil de ser trabalhada na prática, pois algumas mulheres vivem dentro de uma ciumeira irreal enquanto outras ficam mentindo para si mesmas que a traição por ela descoberta nunca aconteceu mesmo negando todas as evidências. E aí, como diz o apóstolo Paulo, não seria correto um cônjuge negar-se a ter relações sexuais com o outro sem que haja justificativa:

"O marido conceda à esposa o que lhe é devido, e também, semelhantemente, a esposa, ao seu marido. A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, e sim o marido; e também, semelhantemente, o marido não tem o poder sobre o seu próprio corpo, e sim a mulher. Não vos priveis um ao outro, salvo talvez por mútuo consentimento, por algum tempo, para vos dedicardes à oração e, novamente, vos ajuntardes, para que Satanás não vos tente por causa da incontinência" (1ªCo 7:3-5; ARA)

Outro ponto importante é que, mesmo se houver dúvidas acerca da infidelidade de um dos cônjuges, considero fundamental a manutenção do diálogo e do acordo entre o marido e a esposa, dois ingredientes que, felizmente, costumam ser muito bem trabalhados hoje nos ministérios voltados para casais dentro de algumas igrejas. E, sendo assim, acho recomendável que o homem e a mulher sejam sempre transparentes um com o outro sem terem nada a esconder. Então, caso a suspeita de ciúme não fique de vez resolvida, é melhor que ambos transem de camisinha (ou optem pela masturbação a dois), sendo que, enquanto houver dúvidas acerca da infidelidade conjugal, o cônjuge inocente não estará errado por manter relações sexuais por motivo de consciência e, ao mesmo tempo, estaria protegendo a sua saúde.

Ressalto que o estilo de vida dos cristãos praticantes jamais poderá ser imposto a todos a ponto de um pai não falar sobre métodos preventivos com a sua filha apenas porque ele é a favor da abstinência sexual até o casamento. O cirurgião presbiteriano Dr. Charles Everett Koop (1916 – 2013), quando esteve a frente do Departamento de Saúde dos Estados Unidos, durante a maior parte da era Reagan, conseguiu manter seus princípios morais quando determinou a distribuição de preservativos no seu país e, mesmo com as posições conservadoras que tinha, angariou respeito e admiração das comunidades homossexuais numa época em que a ignorância ainda imperava na sociedade. 

Assim, penso que as igrejas não podem deixar de falar sobre a camisinha (dentro e fora do casamento), abordando o aspecto teológico juntamente coma a análise científica. Independentemente daquilo que acreditamos (ou queremos acreditar), a AIDS é um fato que não pode ser jamais negado. Por isso, nenhum grupo da sociedade pode agir com ignorância diante de uma doença que, apesar dos eficientes medicamentos de controle na atualidade, ainda mata e gera custos elevadíssimos para a saúde dos países. E o fato de se considerar determinados comportamentos como sendo pecado nas instituições religiosas não significa que a cristandade deva ignorar a Medicina, a Psicologia ou a Ciência de um modo geral. Logo, entendo que as igrejas podem ter excelentes programas de educação sexual que conciliem os valores bíblicos com o saber científico, bem como o fato social, orientando tanto os cristãos praticantes quanto os demais dentro de uma visão ampla do problema.
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