segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

"O tempo que estava vivendo o meu sonho, nem vi passar"

                              



Elidia Rosa

Abrindo a obra teatral de Shakespeare, 'Sonho de uma noite de verão', peça clássica do bardo inglês, há uma fala, iniciando toda trama, que veio a calhar enquanto pensava o que aqui escrevo:

-  Mergulharão depressa quatro dias na negra noite; quatro noites, presto, farão escoar o tempo como em sonhos. (1)

Um sonho, é muitas vezes a mistura de eventos, passados e futuros, mediante o conteúdo dos pensamentos, manifestos de forma literal, com significado no conteúdo latente. Máscaras "protetivas" são muitas vezes vistas e rostos sem nome muitas vezes aparecem.

Freud chamou de "conteúdo manifesto" o que é lembrado de um sonho. Mas é do pensamento do sonho e não do conteúdo manifesto que depreendemos seu sentido. Os sonhos já eram objeto de estudo desde a antiguidade. A pesquisa psicanalítica inovou ao investigar as relações entre conteúdo manifesto e pensamentos oníricos latentes. Os pensamentos do sonho equivalem aos processos inconscientes. O método psicanalítico de interpretação dos sonhos requer, em primeiro lugar, as associações daquele que sonhou. Esse método investiga os processos pelos quais os pensamentos do sonho se transformaram em conteúdos manifestos do sonho. (2)

Nesse sentido, há obras como Cidadão Kane, o qual passa em torno de uma palavra dita em sonho pelo personagem {Rosebud}, que pelo seu peso de memórias, é simbolizado de forma mais simplificada, pelo sentido que carregava em seu significado.

Mas não desejo falar de teorias, apenas apresentar algumas considerações a respeito. Faltariam aqui ainda considerações no campo da neurociência, porém, é sobre a questão cronológica do sonho que queria deter-me um pouco.

Em um sonho, o tempo e o lugar é que menos interessa. As pessoas, do mundo dos vivos e dos mortos podem conviver normalmente, e do nada estarão navegando em um barco pirata, num mar cheio de ondas, depois de uma café em algum bistrô.

Há tempos, em que nossa existência, corre como no sonho, e se torna um borrão de vivências. Não gosto de dar exemplo pessoais, mas nesse caso, talvez um texto confessional, cabe. 

2017 foi um ano que "não vi passar", tamanhas experiências as quais me subjetivaram e deixaram marcas existenciais modificadoras de curso de vida, e confesso, assim como na peça shakesperiana, foi quase tudo uma questão de mudança de quatro luas.

Dias de pouco sono entremeados de longos períodos sonolentos. Freud explica? Não muito (risos). Talvez.

Acordava com o sentimento de que era uma mistura de eventos, e pessoas, e transitoriedades, e me procurava no "sonho vivo".

Perder-se de si em um sonho, é fácil, e as quedas são assustadoras. Quem nunca sentou depressa na cama, olhos arregalados, despencando de abismos oníricos?

Ainda talvez, estivesse rindo feliz, como naquele outro ano em que tudo era realização, e felicidade. Que espaço havia para ser triste? Nenhum!! Sonhar acordado era obrigação superficial, não força do pensamento.

É preciso dar espaço às dores, é preciso caminhar no frio para ter depois o prazer da caneca quente  sob as mãos. É preciso navegar mares "nunca dantes navegados", águas escuras e sombrias (pesadelo?) para então despertar.

Depois do Despertar, se volta a sonhar, agora de olhos fechados. 

E nesse sentido, não poderia deixar de evocar mais um grande mestre do "pensar o sonhar", que contrapõe Freud (risos):

Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro, desperta.





(1) Shakespeare, W. - Sonho de uma Noite de verão, 1590 (aproximadamente) 

 (2)  Freud, S. (1900a/1990). A Interpretação dos Sonhos. Sigmund Freud. Obras Completas. 
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