sexta-feira, 11 de junho de 2010

Foi tudo um sonho

O plano seguia como planejado. Até ali, convencera até seus pais de quem ele era, de que estava numa missão especial.

Ora, tudo indicava isso, dizia ele. Veja bem, nascido de uma virgem (pelo menos esse era a história que sua mãe lhe contava daquela gravidêz fora de hora), a fugida ao egito, o momento histórico. Só faltavam algumas pequenas adaptações, nada muito complicado de ser feito, para ser reconhecido como o tão aguardado Messias.

Seus colegas o ajudaram no plano. Alguns amigos de infância ajudaram a espalhar boatos, do menino que fazia barro virar bicho, cegava quem lhe contradizia, curava só de olhar.

Foi na adolescência e juventude que ele teve essa idéia. Estudou as escrituras sagradas, embora prefiria chamá-la de escrituras de moisés, e viu que os mais religiosos de seu tempo a utilizavam em seu próprio benefício. Havia visto como os sacerdotes se venderam, como tudo era vaidade, e os menos abastados eram oprimidos. Alguém precisava fazer alguma coisa.

E tinha ainda algo também, alguma rixa com os fariseus, um em especial, pois se parecia muito com ele. Ao subir ao templo uma vez ao ano, já havia notado antes um olhar estranho entre sua mãe e este fariseu.

Mas isso não vinha ao caso. Importante mesmo era sua missão.

Ao completar seus 30 anos, sua cabeça estava a mil. Planos e mais planos, algo como salvar seu povo, um novo reino, reconstruir a religião, desmascarar os religiosos. Foi para o deserto, pois era assim que os profetas antigamentes faziam. Lá, brigou consigo mesmo. Se viu tentando a provar se realmente era alguém com algum poder especial, mas no fundo ele não tinha coragem.

Mandar transformar pedras em pão?
- Ah, … é... não sei... quer dizer, eu posso, mas como dizem as escrituras: “Nem só de pão viverá o homem..”..
Jogar-me daqui?
- Ah... eu até sobreviveria, mas não posso tentar a Deus...

Ao voltar de seu retiro, estava convencido da sua missão. Só não sabia que ela ia chegar tão longe. Batizado, juntou seus próprios discípulos. Começou a pregar a sabedoria que aprendera das escrituras, das lendas correntes, de outros sábios. Fez sua própria interpretação do divino e humano.

Pedia a todos que largassem o que tivessem para trás e o seguissem, pois ora, o plano dele era para ali, naquele momento. Quem quisesse ver, o teria de seguir.

Com os seguidores se somando, percebeu que sua missão só seria completa se tivesse um impacto. A única forma de demonstrar como os fariseus não eram a voz de Deus, seria morrendo e ressucitando. Não literalmente, claro, ele sabia ser impossível. Mas que uma peça fosse montada, na qual todos o vissem “morrendo”, e reaparecendo vivo em seguida.

Primeiro treinou com seu melhor amigo. Queria saber se seu truque daria certo. Tudo feito, seu amigo seguiu o plano a risca, e um outro cúmplice o ajudou. No dia marcado, gritou para seu amigo, que após dias aguardando, finalmente saia como que ressucitado.

Tudo certo, o plano se seguiu. Dois de seus discípulos preparavam tudo. Um soldado convertido à causa cuidaria para que seus ossos não fossem quebrados, e daria-lhe uma bebida para que parecesse morto. Seu outro amigo faria o papel de traí-lo, delatando-o, embora não soubesse da farsa.

Mas algo deu errado. As feridas foram fortes demais, um soldado transpassou-lhe uma lança, por pura maldade, de modo que ficara muito debilitado. Seguiram com o plano mesmo assim. Seu discípulo secreto o levara para a sepultura, onde cuidou de seus ferimentos, para em três dias ele ressurgir dos mortos, como era o plano.

Seu amigo no entanto não suportou a dor. Foi levado a traí-lo, mas não sabia que se tratava de um plano, e antes que pudesse ser avisado, se matou pela culpa que sentia.

Isso foi terrível. Embora tenha reaparecido, não era como ele esperava. Tudo aquilo causara alvoroço por um tempo, mas o povo logo esquecera, inclusive seus próprios discípulos já tratavam de voltar à vida normal. Ele os juntou novamente, no entanto, e planejava iniciar a segunda fase de sua revolta. Mas as dores eram grandes, as feridas não saravam, e seu coração se apertava por seu amigo. Uma perda que não lhe dava mais paz. E então, faleceu.

Seus discípulos, como bem treinados, não entenderam sua morte. Ficaram aguardando sua segunda ressurreição, já que agora, após terem visto seu mestre morrer e ressucitar, não mais desanimariam, pois sabiam que ele voltaria novamente. E eles nunca mais desistiram.

Esta é a história de um Rabi, de um plano e seu fracasso, e de como nós fracassamos com ele. Esta é a história da humanidade. Heróis morrem por seus planos, pelos seus ideais, por um mundo melhor, mas nem sempre ele melhora. Esperança! É tudo que temos, até que surjam novos heróis.
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