sábado, 26 de junho de 2010

SOBRE NOSSOS DEMÔNIOS INTERIORES



-->
Tanto a Religião como a Psiquiatria e a Psicanálise têm a alma como seu campo de trabalho ou de batalha. Através dos séculos da história da igreja, os cristãos, de um modo geral, têm interpretado os conflitos emocionais como lutas espirituais contra “seres” vindos de fora. Os religiosos ocidentais têm medo de que a psicanálise ao sondar as profundezas mentais do ser humano, lhes roube “o Pai dos Céus”. A dor existencial e a experiência subjetiva dos indivíduos com perturbações mentais são motivos de uma intensa e profunda abordagem pelos psicanalistas. O que estes profissionais pretendem é restabelecer a harmonia psíquica, trazendo para a consciência do portador de neurose (inclusive a eclesiástica), a origem e o significado de suas práticas ritualísticas compulsivas.

Aos “Demônios” da religião ocidental a ciência deu-lhes outros nomes, como esquizofrenias auditivas e visuais, psicoses e neuroses. As possessões demoníacas ela classificou de quadros histéricos.

O apóstolo Paulo foi um dos primeiros escritores cristãos a expressar a dor emocional resultante de conflitos íntimos:

“Acho então essa lei em mim, que quando quero fazer o bem, o mal está comigo. [...] Miserável homem que eu sou, quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7, 21 -24)

O fundador do cristianismo percebia, dentro de si, essa guerra mental interna e imaginária entre as forças divinas e diabólicas, daí ele ter escrito na sua carta aos Efésios (6 , 12):

“Pois não temos de lutar contra a carne e o sangue [...], [...] mas contra as forças espirituais nas ‘regiões celestiais’”. (Essas regiões, Freud traduziu como “o inconsciente”).

Com relação ao demônio como força maléfica, no século V, Santo Agostinho insistia que o mal não vinha de fora, era a vontade do homem que o provocava.

Foi o herege Freud quem ressaltou alguns aspectos do que sobrenaturalmente se denomina “demônio”. Numa tentativa de explicar esse fenômeno, ele realizou uma emblemática abordagem psicanalítica no seu livro, “Neuroses Demoníacas do século XVII” (1923). Vejamos o que ele diz na introdução da sua significativa obra:

“Os estados de possessão correspondem às nossas neuroses, para cuja explicação
mais uma vez recorremos aos poderes psíquicos. A nossos olhos, os
demônios são desejos maus e repreensíveis, derivados de impulsos instintuais
que foram repudiados e reprimidos. Nós simplesmente eliminamos a projeção
dessas entidades mentais para o mundo externo, projeção esta que a
Idade Média fazia; em vez disso, encaramo-las como tendo surgido na vida
interna do paciente, onde têm sua morada”.

Freud considerava que essa questão “sobrenatural” entre “deuses e demônios” era um resultado da ambivalência do filho para com o seu pai: o filho anseia pelo seu genitor, assim como tem medo de desafiá-lo. O pai da psicanálise entendia que as representações mentais do demônio maligno, constituíam-se exatamente a antítese de Deus, e que a “entidade oposta” estava muito perto do Divino, em sua natureza.

Uma coisa não se pode negar: é a de que a guerra entre deuses e demônios vem se travando nas mentes dos religiosos fundamentalistas desde épocas remotas. Com a descoberta do inconsciente ficou claro que esses “deuses e demônios” que os antigos percebiam, nada mais são que produtos da psique humana, traduzidos por eles como forças externas personificadas do mal e do bem. A figura do capeta, diabo ou demônio, ainda hoje, entre os fundamentalistas, é traduzida como potestades do ar que invadem a mente humana para guerrear contra os deuses imaginários. É nesse grande palco mental que o apóstolo Paulo denominou de “lugares celestiais”, que se trava a imaginária luta entre as forças divinas e diabólicas.

Nas narrativas das Escrituras Sagradas os deuses se transformavam em demônios maus quando novos deuses os expulsavam. Quando determinado povo era conquistado por outro, seus deuses caídos, não raramente, se transformavam em demônios aos olhos dos conquistadores. Diz a História que nas épocas primitivas da religião, o próprio Deus possuía todos os aspectos terrificantes que mais tarde se combinariam para formar uma contraparte Dele.

A psicanálise tornou-se a arquiinimiga da religião, ao desvendar que é do porão obscuro (inconsciente) do sectário, que se projetam os impulsos inaceitáveis de sua vida pregressa sob a forma simbólica de demônios. Sendo assim, a “religião” parece funcionar como um sistema repressivo que aparentemente protege o indivíduo das ameaças de suas pulsões instintivas e agressivas, à custa do sacrifício do prazer. Pelo fato do inconsciente ser percebido como algo além da vontade consciente, é que os antigos atribuíam ao mundo sobrenatural do além, a origem dos seus “demônios e anjos internos”.


“É do céu do nosso inconsciente que expulsamos ‘anjos caídos’ todos os dias” (Levi)


Por Levi B. Santos
26 de junho de 2010.

OBRAS CONSULTADAS:

...........................1. FREUD versus DEUS - de Dan Blazer – Editora Ultimato
...........................2.Uma Neurose Demoníaca do século XVII – Freud 1925 .Editora Imago
...........................3.O Futuro e a Ilusão de Karin Heller Wondracek - Editora Vozes
...........................4. Epístolas de Paulo (aos Romanos e aos Efésios)

Postar um comentário
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...