segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Demônios em minha cama

Passei por uma experiência curiosa esses dias, que me demonstrou como a nossa mente nos prega peças (na relação cérebro-mente-consciência).

Estava na casa de minha namorada, e após me deitar, quase dormindo (provavelmente findando o estágio 1 do sono NREM -http://pt.wikipedia.org/wiki/Sono-), senti como que pequenos pés estivessem em minha cama. Logo minha mente associou ao chiuaua que tenho em casa. Entretanto, logo racioncionei que isto era impossível, pois não estava em casa. Percebi, mesmo naquele estágio de sonolência, que minha mente estava a me pregar uma peça.

Logo cuidei de tentar ativar meu sistema motor, já devidamente desligado desativado, colocado em modo automático, pelo meu cérebro (isto ocorre para que, ao sonharmos com movimentos, não o façamos realmente, pois isto poderia ser fatal), e houve um minuto de luta mental, em quê eu desejava me virar, mas não conseguia. Por fim, consegui despertar-me, e virar-me para convencer-me de quê nada havia ali.

Mais tarde, na mesma noite, acordei subitamente. Olhei para o meio do quarto e havia uma velha lavando roupas na mão. Antigamente isto me teria feito cagar de medo, mas novamente, imaginei ser mais uma peça de minha mente. Continuei a fitar para a velha, até que ela se transformou na cortina. Mais um mistério desvendado.

Voltando no tempo, lembro me de um dia, quando estudava pela manhã. Tenho uma grande dificuldade de despertar antes das 08:00, e neste caso, tinha que estar na faculdade às 07:30h, o quê consistia num terrível sacrifício. Com isto, eu sempre acordava, e acabava caindo no sofá da sala para tirar uma soneca. Só que, ao fazer isso, eu não conseguia adormercer profundamente, e geralmente tinha algum sonho confuso. Um dia, durante uma destas sonecas, vi um diabinho a mexer em minha cabeça. Minha mente religiosa logo interpretou a experiência como lhe convinha, ou seja, crendo aquilo ser realmente um diabo controlador de mentes.

Mas hoje vejo como isto era infantil. Nossa mente prega peças, nossos olhos vêem coisas que não existem, criamos falsas memórias. Aquele diabinho foi extirpado, não da forma religiosa, mas pela razão. Percebi como era fácil ceder às respostas simplistas, aos espíritos, às fantasias religiosas. A velha podia ser um espírito que habitava aquele apartamento, ou tão somente a cortina e um bocado de pareidolia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Pareidolia). Os pezinhos podiam ser sacis brincando comigo, ou tão somente uma falsa interpretação da pulsasão pulsação das artérias da minha perna (acontece que, quando deito de lado, a pulsação de algumas artérias de forma ritimada gera semelhanças com alguém fazendo pequenas pressões na cama, já fiz o teste).

Tenho visto que a maioria das experiências religiosas é facilmente encaixada neste tipo de confusão mental. São peças que pregamos em nós mesmos, como um subproduto de nossa evolução. A pareidolia desempenha um papel importantíssimo neste processo. É por ela que tendemos a ver rostos e silhuetas humanas em formas naturais. É também pela nossa necessidade de encontrar relações de efeito, que logo buscamos respostas para eventos naturais, e muitas vezes criamos seres mágicos, mesmo que estes fujam à razão, à lógica, às evidências. É interessante notar que nas religiões animistas, não há uma distinção clara do natural e do sobrenatural. O Vento é o espírito, as fadas habitam a floresta. Não havia esta distinção, pois para estas, espíritos eram tão reais quanto eles mesmos, e podiam habitar esta mesma dimensão.

Mas à medida que nós exploramos mais a terra, menos espaço sobrou para os espíritos, as fadas, os duendes, os mágicos. Eles, afinal, não estavam em lugar algum. Ontem a fronteira eram os mares, hoje é o Universo. Outrora monstros se escondiam por trás das grandes ondas, das ilhas perdidas. Hoje se escondem atrás do Big Bang. Quero saber onde eles se esconderão, quando desvendarmos mais este mistério.
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