quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O sentido da vida





"Renda-se como eu me rendi.

Mergulhe no que você não conhece

como eu mergulhei.

Não se preocupe em entender,

viver ultrapassa qualquer entendimento."


Clarice Lispector




Todas as ciências estão presas e limitadas a um rigoroso ateísmo metodológico: deuses e demônios não servem para explicar coisa nenhuma. Tudo na ciência é conduzido como se Deus não existisse. Como então poderia um cientista acreditar naqueles que invocam os deuses e ainda por cima, cometem a besteira de orar? Mas a religião pede  a palavra e o mínimo que podemos fazer é ouvi-la, ainda que com aquele olhar de superioridade condescendente.

Temos que abandonar (também me incluo aqui) nossas certezas racionais para ver como o mundo é construído na visão do outro. Talvez  uma parte de nós mesmos venha à tona, ainda que sem invocar os nomes sagrados, pois lá no íntimo, no silêncio recôndito dos nossos vazios, emergem perguntas  que querem explicações para os nossos sofrimentos, decepções e dilemas.

O discurso cientifico petrificou o mundo. Tudo pode ser dito por fórmulas matemáticas que nos impede de sair desse círculo de causas e efeitos. Somente a imaginação, a linguagem e o pensamento, podem construir um mundo novo, com novos significados e novas dinâmicas que brotam da liberdade subjetiva e que dá sentido ao mundo feito de pedra.

A religião fala sobre o sentido da vida. Ela declara que vale a pena viver. Todas as religiões de uma forma ou de outra, propõem uma série de passos para a felicidade, razão pela qual as pessoas continuam a ser fascinados por ela, mesmo com toda a crítica que a ciência lhe faz. A ciência nos põe num mundo frio e mecânico e vazio de significações humanas  e indiferentes ao nosso amor. Era Max Weber quem dizia que a dura lição que a ciência nos ensina é que o sentido da vida não pode ser encontrado num tubo de ensaio.

Só mesmo alguém realmente alienado da vida nunca se perguntou pelo sentido da vida. Valerá a pena viver?  Quantos  ao obter uma resposta negativa a essa pergunta, mergulhado em desilusões, optaram pelo suicídio? Camus observou que certas pessoas se deixaram matar por ideias ou ilusões que lhes dão razões para viver: Boas razões para viver são também boas razões para morrer.

Mas e aí, o que é o sentido da vida? É algo que se experimenta emocionalmente, sem que se saiba explicar ou justificar. É uma visão de mundo no qual as coisas estão integradas como em uma melodia, um sentimento que nos faz sentir reconciliados com o universo ao nosso redor; é comunhão com algo que transcende o imediato, a rotina e o corriqueiro. O sentido da vida é um sentimento.

Nem mesmo o mais intolerante ateu teria  o que criticar desse sentimento. Não há nenhuma lei científica que nos proíba de sentir o que quisermos. O problema começa quando a religião ousa transformar tal sentimento, interior e subjetivo, numa hipótese acerca do universo. Aí as vozes do racionalismo gritam. A religião diz que o universo inteiro faz sentido e a ciência retruca que são as pessoas religiosas que sentem e pensam que o universo inteiro faz sentido. A ciência quer transformar então o sentimento em pura ilusão ou ideologia.

Eu entendo que para o cientista, afirmar que a vida tem sentido é propor algo fantástico demais para os seu manuais de pragmatismo e empirismo. Seria admitir que todo o universo vibra com nossos sentimentos, se alegra com nossa alegria e sofre com as nossas tristezas, pois tudo estaria  ligado e por trás das coisas visíveis, haveria um rosto invisível que sorri, que se faz presente, que destila puro amor. Mas é essa crença que explica os sacrifícios que se oferece nos altares e as preces ditas em profunda devoção.

É claro que para um não religioso, essas metáforas não fazem muito sentido. Pense nos campos de concentração nazistas ou em qualquer outro exemplo em que a barbárie humana feriu a própria humanidade em nós. Agente vê aquilo e sente que algo está profundamente errado, eternamente errado. Que razões trazemos conosco que nos compelem a dizer “não” a tais atos? Seria apenas por causa dos nossos sentimentos? Mas os torturadores, matadores, genocidas, também fazem o que fazem movidos por “sentimentos”. Eles também sentem; apesar de tudo, ainda são humanos.

Os nossos julgamentos éticos não descansam apenas em nossos sentimentos. Cremos que o universo possui um coração humano, uma vocação para o amor, uma preferência pela felicidade e pela liberdade assim como nós mesmos cremos. Logo, proclamar que a vida faz sentido é fazer do próprio universo nosso irmão e amigo. É esta realidade que é ancorada de sentimentos que recebe o nome de Deus. Não vou entrar aqui em detalhes de qual Deus estou me referindo. Vamos chamar esse sentimento de que o mundo e a vida fazem sentido, apenas de Deus.

O sentimento religioso ou o sentimento que busca o sentido, transformou-se em religião que edificou casas para os deuses e também casas para os mortos. Desde os tempos mais imemorias nós começamos a enterrar nossos mortos com súplicas aos céus e com símbolos significativos. E porque essa cuidado com a morte? É por que a morte é aquela presença que a toda hora vem nos questionar  se a vida realmente faz sentido se o fim dela é a não-vida. Como ver sentido na vida apesar da morte? Como consolar o pai que enterra o filho? Como agir diante da  notícia que você está com uma grave doença e vai morrer logo? E todos os milhões de seres humanos que morrem injustamente pela insanidade de todas as formas de violência? Essa é a grande questão. O sentido da vida se mescla no sentido da morte. Por isso, a religião entrega aos deuses os seus mortos, em esperança. Esperança da vida eterna, esperança do algo mais, esperança da eterna plenitude.

Quando a morte é transformada em amiga, não é mais necessário lutar contra ela.

O que você faria se lhe restasse apenas três meses de vida?  Depois do susto inicial, você começaria a rever suas rotinas. As coisas que hoje lhe parecem importante como emprego, a compra do carro novo, assistir TV, ler jornais, a declaração do imposto de renda, a sua pós-graduação...tudo isso não teria nenhuma importância. O restante de tempo que você ainda teria ganharia uma presença que nunca teve antes. Você veria e saborearia cada momento; o jardim florido, o barulho do mar, o sorriso da criança, sentar debaixo do pé de uma árvore e contemplar a beleza da vida, você  declararia o seu amor por alguém sem se preocupar com as convenções sociais.

A consciência da morte tem o poder de libertar  e isso subverte o que esta posto pela sociedade. Será que é por isso que a sociedade oculta e dissimula a morte, transformando-a até mesmo em assunto proibido? A religião colocou o sepulcro nas mãos dos deuses e obrigou assim a inimiga a se tornar irmã. Livres para morrer, os homens estariam livres para viver.

Mas o sentido da vida não é um fato. Num mundo dominado pela morte é ilusão proclamar a harmonia com o universo, como realidade presente. A experiência religiosa, assim, depende do futuro. Ela se nutre de horizontes utópicos que os olhos não viram e que só podem ser contemplados pela magia da imaginação e da fé. A visão é bela, mas não há certezas. A alma religiosa tem que se lançar sobre o abismo, na direção das evidências do sentimento e não das evidências científicas que nada podem dizer sobre o além, pois para a ciência, a morte é o fim. Que sentido há em nascer, crescer, viver e...morrer! Nenhum. A ciência diz o que pode observar.

A alma religiosa caminha guiada pela voz do amor, das sugestões da esperança, na trilha que trilhou Pascal e Kierkegaard. É uma aposta. E então, alguém pode me perguntar: “mas Deus realmente existe? A vida tem sentido? O universo tem (ou é) uma consciência?”. Talvez sim, talvez não. Mas eu desejo ardentemente que a resposta seja sim.

Porque é mais belo o risco ao lado da esperança que a certeza ao lado de um universo frio e sem sentido.


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“De um lado, a eterna estela,
E do outro a vaga incerta,
Meu pé dançando pela
Extremidade de espuma,
E meu cabelo por uma
Planície de luz deserta.
Calada vigiarei meus dias.
Quanto mais vigiados, mais curtos!
Com que mágoa o horizonte avisto...
Aproximado e sem recurso.
Que pena, a vida ser só isto!

Cecília Meireles




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Para escrever esse texto, sou devedor a um dos capítulos do livro de Rubens Alves, "O que é religião"? da Editora Loyola. Em muitas partes, mantive as frases originais do autor por simplesmente não ter capacidade para reescrevê-las de forma melhor; em outras partes, reescrevi, adaptei, acrescentei. 


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