terça-feira, 19 de novembro de 2013

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

por Matheus De Cesaro


Cresci ouvindo falar que o Brasil sempre foi um país de todas as raças e de todas as cores. Sempre escutei dos mais antigos que o Brasil é "como coração de mãe", sempre cabe mais um, mais dois, ou ainda uma família inteira. Partindo desta premissa, eu quero iniciar este artigo enfatizando uma pergunta que talvez todos se façam, mas tenham receio de compartilhar:


"Por que o dia da consciência negra?"


Seria uma comemoração pela mais pura e bela conscientização da luta pelos direitos igualitários, ou simplesmente o desejo inconsciente (em alguns casos consciente) da criação de um grupo privilegiado lutando unicamente e exclusivamente pelos seus interesses e anseios? Me pergunto, e lhe pergunto: Até que ponto uma comemoração como esta contribui e influencia de forma legitima na luta contra a discriminação, o preconceito e a garantia de que tenhamos direitos iguais para todos?


Não sei quanto a vocês nobres amigos confrades, mas eu percebo que os defensores mais ferrenhos de tal comemoração, na sua grande maioria estão em defesa de uma posição separatista em todos os aspectos possíveis, sejam eles sociais ou profissionais. Há um esforço muito claro na formação de guetos, e um empenho muito nítido na luta por privilégios e tratamentos diferenciados, e isso com todas as forças (até mesmo de forma desproporcional). Fica no ar a sensação de que estão exigindo uma recompensa, uma espécie de retratação pelos séculos de sofrimentos que seus antepassados sofreram, principalmente nos períodos da escravidão. 

Eu tenho plena consciência de que os negros foram humilhados, explorados, marginalizados, massacrados e sofreram as maiores barbáries que se possa imaginar. Por isso penso que seja inadmissível que uma pessoa em seu perfeito juízo não repudie toda e qualquer ação que conote em discriminação e preconceito, ou qualquer forma de escravidão que venha ser adotada. O que não coaduna com meus pensamentos e afirmações em relação a este assunto de variados pontos de vista e incontáveis fatores de análise, esta ligado exatamente a defesa de que histórias de sofrimentos venham resultar em classes de pessoas favorecidas. Não há como ser a favor de que pessoas recebam vantagens em relações as outras, porque seus antepassados foram explorados, escravizados e sofreram por elas. Isto na minha forma de compreensão do mundo, e do que seriam "direitos humanos e iguais", trata-se da abertura de precedentes para que no futuro vivamos entre classes especificas e separadas, em meio a um povo dividido por privilégios e pela disputa em provar qual contexto histórico é mais triste ou digno de ser respeitado. Falamos de um mecanismo que opera como alimento, fortalecendo o preconceito, a divisão, as rixas, e principalmente a simples e natural convivência entre seres humanos, que independente de raça, etnia, credo ou qualquer outra esfera são todos iguais.

Se a data comemorativa em questão tivesse um efeito real na configuração atual em que estamos inseridos, ela sozinha não seria suficiente. Precisaríamos criar no Brasil o "dia da consciência indígena""dia da consciência nordestina""dia da consciência asiática""dia da consciência austríaca""dia da consciência italiana", e tantas outras datas que trariam a memória os sofrimentos dos filhos de uma nação construída por pessoas que se viram obrigadas a abandonarem seus países na esperança de uma nova vida, uma nação que recebeu fugitivos do pós guerra, uma nação que tem em sua história uma trajetória repleta de sofrimentos, e de pessoas que literalmente foram desculturizadas e forçadas a esquecer  e renunciar suas raízes, não por escolha, mas sim porque a vida lhes submeteu a tal processo, derivado de mentes doentias e tiranas.

Eu já imagino, que neste momento você esteja pensando: "muitos foram oportunistas, e viram no Brasil apenas um bom negócio", e eu vou concordar com você. Sim, é verdade. Mas em contrapartida vou lhe convidar a refletir com a seguinte indagação: "que mal reside em buscar novos horizontes em uma outra nação, estando minimizadas as oportunidades em sua própria nação? A que nível fica nosso senso de equidade nesta questão?".

Vamos imaginar um cenário onde de uma hora para outra, todas as etnias que possuem um passado marcado por sofrimento e sangue fossem beneficiadas por privilégios como cotas em universidades, concursos públicos e nas seleções para recebimento de benefícios federais. Me pergunto: O que aconteceria com o conceito de "meritocracia"? Seria de fato, uma medida justa com aqueles que nas mesmas condições não se acomodaram, e nem se entregaram ao coitadismo, empenhando-se e dedicando-se para alcançar as melhores oportunidades? Eu fico aqui imaginado onde poderia encaixar o sentimento de "auto realização" do ser humano, caso todos que tenham um contexto histórico de sofrimentos viessem a exigir direitos exclusivos? Tem algumas coisas que não entram em minha mente turrona.

Hoje em dia é muito comum (para não enquadrar como modismo) o surgimento de grupos em defesa de ideia que visualizam preconceito em tudo (até mesmo neste artigo), ideias que limitam o ser humano e que são ultra tendenciosas a criação de possíveis "síndromes de inferioridade" que se camuflam nestas supostas lutas por "direitos iguais". Minha postura é em contrariedade a qualquer ideia que se adicione um pensamento onde se detecte "seleção racial", como "orgulho negro" ou "consciência negra", ou seja la qual for a raça ou etnia que se acrescente a conotação de serem "especiais". Pois penso que ninguém deva nutrir orgulho por ser negro ou branco, pardo ou amarelo, brasileiro ou estrangeiro, ou seja lá o que for. Nosso orgulho deve estar ligado ao fato de sermos corajosos, capazes e determinado em conquistar nosso espaço por nós mesmos, da forma como somos. Independente das diferenças, já vivemos em uma sociedade materialista, desumana, seletiva, e extremamente competitiva, onde como já diria o poeta, "filho chora e mãe não vê". Não consigo visualizar ou entender qual é o beneficio coletivo que se tem ao criar e defender ideias onde se elevam algumas raças e etnias "A, B ou C", em detrimento de outras. Direitos iguais não seriam exatamente condições iguais a todos?

É necessário compreendermos que hoje não é só o negro que sofre injustiça, que sofre com as desigualdades sociais deste país. É claro que em uma escala quantitativa, os negros são a maioria nas classes menos desenvolvidas, o que requer um cuidado maior, porém não especial e por meio de privilégios. É essencial que se perceba que os grandes problemas que enfrentamos hoje, já não são mais problemas raciais, e sim sociais e políticos. Problemas que todos nós precisamos enfrentar todos os dias. E mesmo que se utilize do fator "burguesia" para defender esta ideia de que os negros estão em desvantagem, seria um equivoco atribuir privilégios aos negros, e sim deveriam ser atribuído privilégios aos pobres, dos quais entre eles estão os negros, os brancos, os pardos, enfim, toda espécie de raça e etnia. Esta ai uma boa ideia, "dia da consciência pobre" kkkkkkk.

Por isso, mesmo ciente da represália, mesmo sabendo que não serei compreendido por muitos, e sabendo que talvez receba alguns elogios bem equilibrados, eu deixo aqui o meu grito de protesto, não pela maioria, e nem pelas minorias, mas pela totalidade, pela igualdade das raças, pela justiça social para todos, pelo fim da exploração de qualquer ser humano, pelo negro, pelo branco, pelo pardo, pelo índio, pelo homem, pela muher, pelo brasileiro e pelo estrangeiro, enfim, pelo ser humano!
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