quinta-feira, 27 de março de 2014

O banco do meio




Por Marcos Abe


O ano era 1955. A cidade chamava-se Montgomery, no Alabama, Estados Unidos. Lá vivia uma mulher temente a Deus. Ela tinha 42 anos, era negra e trabalhava como costureira numa loja de departamentos.

Seu nome era Rosa Parks. Certo dia, saindo do trabalho, entrou no ônibus e foi direto para os bancos do fundo, onde os negros podiam se sentar. Mas os bancos do fundo estavam todos lotados. Ela encontrou lugar no meio do ônibus e sentou-se lá, onde também sentaram três outros negros. À medida que o ônibus foi fazendo seu trajeto, começou a lotar. Alguns brancos entraram e o motorista viu que não havia lugar para eles se sentarem. Então mandou que os negros acomodados nos bancos do meio dessem lugar aos brancos. Os três negros ao lado de Rosa obedeceram na hora. Mas ela permaneceu sentada.

Fiquei intrigado com a atitude de Rosa. Será que, como boa crente, ela deveria ter fugido da confusão, mesmo sofrendo a injustiça? Teria ela desobedecido ao mandamento de Jesus de dar a outra face, de resistir diante de uma injustiça, segundo Lucas 6.29?

Acredito que todos têm o direito e o dever de se defender. Ninguém precisa ou deve se sujeitar a qualquer tipo de abuso em seus relacionamentos, pois isso não tem qualquer relação com amor.

Alguns podem pensar que Rosa não deu a outra face. Mas penso exatamente o contrário. Rosa foi presa em decorrência de sua atitude desafiadora. Ela deu a outra face e sofreu muito em prol da justiça. A ordem de Jesus não é para aceitarmos a injustiça, e sim estarmos dispostos a sofrer julgamento, perseguição e humilhação por causa da justiça.

Hoje há milhões de Rosas nos ônibus da vida, sendo desafiadas a ceder o lugar não porque são negras, mas porque são cristãs. Ou porque são negras e cristãs. Ou mulheres e cristãs. Sofrem por sua ligação com Cristo, mas também por pertencerem a grupos menos favorecidos dentro de sua sociedade.

Acreditamos que esses irmãos têm direitos, inclusive o de saber quais direitos possuem. Por isso, a Portas Abertas batalha para que, além de resistir à perseguição com fé, resistam à injustiça promovendo a justiça, e não fugindo dela. Isso é dar a outra face.

Quase sempre a Igreja estará dentro do ônibus. As circunstâncias a colocarão nos bancos inferiores, no fundo, ou nos bancos importantes, à frente. Mas o melhor é procuramos lugar ao lado de Rosa, nos bancos do meio. Somos livres da definição porque somos de Cristo. Nele, somos o grupo vencedor, ainda que no caminho enfrentemos tribulações, grande perseguição e sofrimento. Mas ainda assim, não nos sobrepomos. Ao contrário, estamos dispostos a andar mais uma milha e dar a outra face.


OBS: O autor é membro do Conselho das missões Portas Abertas no Brasil sendo que o texto foi extraído do editorial do vol. 32, n.º 03, da revista dessa atuante organização missionária. Link para a edição da revista: https://www.portasabertas.org.br/main/1184196/REV_marco14.pdf
Quanto à ilustração acima, trata-se da imagem histórica em que Rosa Parks foi fotografada após o boicote aos ônibus em Montgomery, 1956, conforme consta na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos em http://www.loc.gov/rr/print/list/083_afr.html#ParksR
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