domingo, 4 de maio de 2014

Dialogando com a diversidade familiar do século XXI




O mês de maio costuma ser uma época dedicada a pregações sobre a família nas igrejas cristãs. Durante os cultos dominicais, os pastores ministram mensagens sobre casamento e a relação entre pais e filhos, quase sempre encorajando o dever de submissão aos genitores bem como da esposa ao marido. Repete-se, assim, conhecidas passagens bíblicas entre as quais versículos das epístolas paulinas. Porém, observo que poucas vezes esse discurso é atualizado e, não raramente, os púlpitos de determinadas congregações são mal utilizados para incitar repressão e ataques homofóbicos aos gays por estes buscarem hoje em dia a conjugalidade bem como adotarem crianças.

Verdade seja dita que a família deste século XXI já não é mais a mesma de cinco décadas atrás. Se, nos anos 60, ela foi se tornando mais nuclear do que estendida, devido às migrações e ao êxodo rural, vive-se na atualidade uma situação bem diversificada em que até esse núcleo está se modificando. Mudanças que acabam sendo irreversíveis dependendo do caso.

Se tivermos como foco as crianças, veremos que grande parte delas já não mora com a mamãe e com o papai. Devido às instabilidades dos relacionamentos, muitos pequeninos vivem apenas com suas mães, ou com a mãe e a avó, ou somente com os avós, ou ainda com qualquer outro parente. Ganhar um neto quase sempre significa que a mulher corre o risco de ter uma segunda maternidade.

Por outro lado, quantas dessas crianças não têm outros irmãos e irmãs mas que não são filhos do mesmo pai ou da mesma mãe? E, na prática, elas acabam convivendo com os filhos que são só do companheiro da mãe ou da nova mulher do pai, frutos de relacionamentos anteriores que não deram certo. Coisas que foram motivo de terríveis preconceitos e recalques dentro da nossa sociedade, permanecendo agora de maneira mais velada.

É fato que os pastores precisam estar prontos para ministrar a todos os tipos de famílias de uma maneira inclusiva sem considerarem a diversidade nas relações como uma aberração. Deve-se ter em mente que existem variadas formas de se proporcionar cuidado e proteção às pessoas, o que pode ocorrer muitas das vezes sem existir qualquer vínculo biológico como acontece na adoção. Algo que para a cabeça da maioria dos cristãos torna-se inadmissível quando os pais adotivos são dois homens ou duas mulheres vivendo uma relação homoafetiva.

Assim, penso que a Igreja precisa rever o seu discurso quando tratar da família cuja ideia não pode ficar restrita a um casamento formal, monogâmico e reprodutivo. Pois mesmo que tenhamos o desejo de valorizar o padrão bíblico, segundo o qual "deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne" (Gn 2:24), não podemos fechar os olhos para a realidade transformada em nossa volta. Do contrário, o discurso pode acabar virando uma coisa estéril e até excludente quando alcançar os ouvidos de quem não se encaixa no modelo religioso.

Creio que Jesus veio justamente propor uma nova concepção de família que é bem mais ampla e diferente do tradicionalmente conhecido. Seu desejo sempre foi que, através da Igreja, fizéssemos uma multidão de irmãos, irmãs, pais, mães e filhos. Por isso o Mestre recebeu a todos (em especial os marginalizados da sociedade) e chegou a enfrentar difíceis conflitos com a sua família biológica de Nazaré, sendo incompreendido pelos fariseus porque aceitava incondicionalmente o pecador. E, no processo de construção do Reino, ele previu que os novos valores iriam causar divisões nas casas.

Ora, será que, se levássemos o ensino de Jesus a sério, novos hipócritas religiosos não mostrariam suas caras em nosso meio? Estamos mesmo prontos para convidar uma prostituta afim de que ela venha a conviver com nossas famílias sem levantarmos qualquer barreira preconceituosa? O mesmo posso dizer a respeito do travesti, do usuário de drogas, do morador de rua e da pessoa com transtorno psíquico, os quais, numa congregação cheia de famílias tradicionais, ainda são tratados como portadores de uma terrível lepra moral. Inegavelmente encontramo-nos ainda bem distantes de ser a grande mãe acolhedora dos excluídos por faltar mais amor e visão entre o povo de Deus.

Penso que, nesse tempo caótico que hoje vivemos, a efetiva proteção do ser humano talvez só poderá ser encontrada no desenvolvimento pleno da fraternidade em que as congregações seriam os pontos de encontro de uma família super-estendida. Por isso defendo que o maior foco das nossas pregações no mês de maio deve estar no fortalecimento da comunidade afim de que criemos uma rede amorosa tanto no nosso bairro quanto ao redor do mundo, independente de denominações institucionais ou de doutrinas. E, quanto a isso, a Igreja do século XXI precisa de uma urgente reconciliação.

Viva a grandiosa família de Deus! E que a Igreja, em sua bela diversidade, seja tão rica em formas como as estrelas do céu e a areia do mar!

Uma excelente semana a todos com Jesus!


OBS: A ilustração acima trata-se da célebre obra A Família da pintora e desenhista brasileira Tarsila do Amaral (1886-1973). Extraí a imagem de http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/tarsila-do-amaral/a-familia.php
Postar um comentário
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...