terça-feira, 13 de maio de 2014

QUAL É A MARCA?



Nos anos 80, o kichute ainda era moda!



Quando eu era garoto(não, não era em Barbacena),  ficava revoltado quando meu pai comprava para mim ao invés do imbatível tênis Kichute, o seu primo pobre, o tênis Conga. Sabem do que estou falando, né? Todo mundo na escola queria desfilar seu kichute; ele dava status e fazia você pertencer ao grupo dos “mais”, dos “superiores”; tênis conga era para os pobres, os fracos(pelo menos na minha escola, era). A propaganda do Kituche demonstrava como o desempenho nas corridas e no esporte seriam melhores com ele. Era uma MARCA de sucesso.

A valorização extremada de  marcas  é típico da nossa sociedade capitalista consumista atual. Talvez o termo “capitalista consumista” seja um paradoxo, pois afinal de contas, capitalismo nenhum resiste sem o consumo. Mas talvez possamos diferenciar entre consumo e consumismo. Fato é que consumir é preciso. Vivemos tempos em que a valorização do indivíduo, da pessoa,  vai dando lugar à valorização das coisas, dos produtos. Pior ainda, a pessoa como coisa. Como produto. Fico sempre espantado quando leio a manchete de capas de revistas como a Você S.A do tipo:  “Você é o seu melhor produto, saiba como se vender de forma eficiente”.

Até o funk, movimento nascido nas vielas das nossas favelas cariocas,  rendeu-se à “ostentação". Agora temos “Funk ostentação”. Garotos cantores exibindo seus cordões de ouro, seus carros do ano,  seu harém sem nenhuma vergonha. Ostentar faz bem. Ostentar é sinal de que ele “venceu”; ascendeu ao paraíso do consumismo.

Segundo Marcia Tiburi, colunista da revista Cult, a publicidade destitui o indivíduo do seu próprio desejo e a fascinação por ter roupas, carros e até geladeiras de marca seria a morte do sujeito, da subjetividade. Os consumidores agora só têm o direito de escolher entre uma marca ou outra. Diz a citada colunista: “Não tendo mais o que expressar, alguém simplesmente “ostenta” um relógio caro, um computador moderninho, um carrão oneroso. Tudo e cada coisa é reduzida à marca, emblema do capital e seu poder na era do Espetáculo”.

Particularmente falando, eu gosto de marca boa,  pois marca boa geralmente é sinal de produto de melhor qualidade, e procuro, dentro das minhas possibilidades financeiras, comprar a melhor marca. Lá pelos anos 90, quando fui comprar meu primeiro computador, eu queria um “de marca”, mesmo que um computador “sem marca”, montado com peças diversas, fosse uns 50% mais barato à época. Mas não, para mim, só um Compac, me daria qualidade.  Ou será que na verdade, nos porões do meu inconsciente, eu queria mesmo era ostentar a marca...?

A citada colunista, é enfática. Para ela, a solução seria a arte, a poesia, a “negação ativa contra o uso e o consumo de marcas. A prática anti-capitalista é um ateísmo e começa com a recusa aos seus deuses como simples profanações cotidiana”.  Talvez essa proposta, por ser “esquerdista” demais, seja muito radical. Talvez aja espaço aí para se pensar melhor sobre essa questão.


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