sexta-feira, 16 de abril de 2010

A Alternativa Deísta

Como sabemos, o poderio do cristianismo católico romano foi duramente ferido com o surgimento de um movimento que os historiadores chamaram de ILUMINISMO. A explicação de mundo até então, era teológica, fundamentada nos escritos dos pensadores chamados ESCOLÁSTICOS. O centro era Deus e o pensamento cristão dominava o cenário intelectual da época. Junto com o Iluminismo veio a reboque o RACIONALISMO que diferentemente da teologia cristã baseada na REVELAÇÃO, só admitia o julgamento de tudo à luz da RAZÃO. Estamos falando aqui dos séculos XVII E XVIII.

Atualmente, de modo geral, se entende o DEÍSMO como contrário ao TEÍSMO. Diz-se do deísmo a concepção de que Deus criou o universo mas que deliberadamente, ausentou-se da sua criação e deixou o pessoal aqui em baixo à sua própria sorte. Mas em seus primórdios, o deísmo era bem diferente da concepção atual.

O deísmo filosófico

É atribuido a um cara chamado HERBERT DE CHERBURY (1583-1648) a criação do termo deísmo. Ele começa quase como um reavivamento da teologia natual de Tomás de Aquino. Em síntese, o seu pensamento é o seguinte:

1 - Certas noções comuns estavam impressas na mente humana pela mão de Deus.
2 - Deus deve ser adorado.
3 - O fiel deve praticar a virtude e a piedade.
4 - O pecado era maligno e deve ser expiado pelo arrependimento.
5 - Haverá recompensa e castigo na vida pós-morte.

Essas ideias, como vocês podem perceber, estavam muito perto do que hoje conhecemos como Teísmo e na sua época, esses conceitos eram semelhantes aos platonistas e teólogos anglicanos. Mas o Deísmo de Herbert, influenciado por plantonistas, neo-platonistas e também pelo filósofo Descartes, refletia um "cristianismo racional" e uma Teologia Natural. A RAZÃO humana era tida como dádiva de Deus e ela capacitava os humanos a julgarem a verdade tanto da Religião Natural (1) quanto da Religião Revelada. Deus, consequentemente, era puramente racional e era dever do cristão compartilhar da sua racionalidade. A razão era a VOZ DE DEUS. Podemos perceber que a fé não é relevante aqui.

Um expoente desse Deísmo primitivo é conhecido por todos nós: ISAAC NEWTON(1642-1727), formulador da Lei da Gravidade. Dizia Newton que pela razão, concluia-se que "há um ser incorpóreo, vivo, inteligente, onipresente". O universo era uma grande máquina que funcionava por leis criadas por Deus, ou seja, era um pensamento DETERMINISTA. Alguns chegaram a dizer que a própria história era construída através de mecanismo determinados.

Sabemos que essa concepção posteriormente foi duramente questionada principalmente no âmbito da História e posteriormente com a RELATIVIDADE e com o surgimento da física quântica. A partir daí, o Deísmo começou a tomar novas caras.

Com Herbert, Newton e os platonistas, a Teologia Natural visava apoiar a religião cristã, embora se desviasse um pouco da ORTODOXIA. O que aconteceu é que a Religião Natural veio a ser uma ALTERNATIVA RACIONAL à religião dita irracional/revelada.

O deísmo cético

Um cara chamado MATHEW TINDAL(1655-1733) publicou uma obra que se tornou a Bíblia do deísmo mais cético. Nela, Mathew afirmava que os Evangelhos não deveriam ser levados a ensinar qualquer coisa além do alcance da razão, o que certamente era impossível para a ortodoxia cristã que aceitava literalmente os relatos evangélicos "irracionais", como Jesus andar sobre as águas. Consequentemente, Mathew rejeitou como irracionais as doutrinas da queda, do pecado original e da expiação.

Um outro cara que contribuiu para dar uma nova cara ao deísmo foi ANTHONY COLLINS(1676-1729). Ele afirmou que o livro de Daniel deveria ter sido composto em uma data mais avançada da que era aceita pelos ortodoxos. Disse também que as profecias do Antigo Testamento não se adaptavam realmente a Cristo, pois as interpretações do Novo Testamento em relação a essa questão, eram forçadas. (particularmente, concordo com essa ideia, mas não vou discutir aqui, quem sabe, em outra ocasião)

THOMAS WOOLSTOM (1670-1733)  deu continuação aos pressupostos de Collins. Thomas foi o pensador deísta que mais sofreu por causa das suas ideias. Ele pode ser considerado o MÁRTIR DO DEÍSMO, o que chega a ser irônico. Ele foi processado (é isso mesmo, processado) pelo ministro do supremo tribunal e foi sentenciado a um ano de prisão e multado em cem libras. Como não tinha como pagar a multa, Thomas permanceu preso até morrer na prisão. Foi assim que geralmente, a ortodoxia tratou seus desafetos.

Thomas escreveu que muitos eventos da vida de Jesus são absurdos se tomados de forma literal; que inferno, Satanás e diabo são estados mentais e não seres reais; que a ressurreição de Jesus foi uma fraude produzido pelos discípulos que roubaram o seu corpo. Esta é uma afirmação que dá delírios na mente ortodoxa!

O deísmo não conseguiu ter uma influência muito abrangente na massa religiosa principalmente devido aos reavivamentos evangélicos produzidos posteriormente por homens como JOHN WESLEY, que foi de fato um crente sincero e inflamado pela sua fé e pelas revelações que dizia ter.

No campo filosófico-teológico, o mais importante contestador do deísmo cético foi também um "Thomas": THOMAS SHERLOCK(1678-1761).  Em uma de suas obras, ele chega à conclusão de que os discípulos, o que quer que fossem, estavam testificando sinceramente da sua EXPERIÊNCIA. Ou seja, algo de fato teria acontecido para que os discípulos terem dados suas vidas pela pregação do cristo ressurreto. Essa declaração por si só, dá para produzir textos e textos de discussões. Quem sabe futuramente?

Dito isto, meus confrades, quero propor as seguintes questões:

1 - O deísmo na sua forma primitiva poderia ser uma opção viável hoje ao fundamentalismo teísta?

2 - O deísmo cético posterior é viável ao afirmar que Deus criou tudo e simplesmente ausentou-se por completo da sua criação?

3 - Aos teístas: é viável o pensamento que um Deus pessoal revelou-se aos homens e está em constante "contato" com eles? Isto não é de fato, irracional, visto que é subjetivo? Como podemos ter certeza que a revelação subjetiva, é confiável e é verdadeira?

4 - E ainda que aceitemos a revelação como verdadeira, como podemos negar que ela é parcial e sujeita a erros, visto que o canal pelo qual ela flui é o veículo humano imperfeito? Dizer que Deus "preservou" a revelação do erro não é na verdade dizer que Deus desfigurou o canal humano? Porque usar então homens feitos "perfeitos" para que a revelação fosse verdadeira? Isto de fato não é "maquinizar" o pensamento humano livrando-o de toda imperfeição?

5 - Existe para nós, alternativas viáveis tanto ao deísmo quanto ao teísmo que não seja o ateísmo? Talvez um neo-agnosticismo??


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(1) Teologia Natural - é  oposta a Teologia "sobrenatural e revelada". É um estudo metódico e crítico de Deus, de sua existência, de suas relações com as criaturas e se faz exclusivamente por meio da razão, desprezando portanto, a fé.

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obras de referência:

Colin Brown, Filosofia e Fé Cristã. Ed Vida Nova
Dicionário de Teologia Fundamental, ed. vozes.
Franz C. Konig e Hans Waldenfels, Léxico das Religiões, ed. Vozes
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