quarta-feira, 27 de abril de 2011

A vila dos medos infundados e seus monstros imaginários.


No interessante filme chamado “A Vila” temos um retrato psicológico muito bem traçado de um grupo de pessoas que procurou fugir dos seus medos e traumas refugiando-se num local isolado onde imaginavam que as maldades do mundo nunca  voltariam a alcançá-los.

Para convencerem as novas gerações de que a vila que construíram era o único local seguro para viverem e que, portanto, não deveriam jamais sair dali, criaram monstros fictícios que eram chamados de “Aqueles de Quem Não Falamos”. Estes seres grotescos rondavam o vilarejo e só os deixavam em paz mediante o seu medo e sua submissão a determinadas leis criadas por eles.

Somente quando o noivo da filha de um dos chefes foi gravemente ferido por um habitante que era deficiente mental e precisou de remédios foi que o pai contou à filha toda a farsa ao fazê-la tatear (pois era deficiente visual) uma das fantasias de monstro que era utilizada pelos líderes para incutir medo nos jovens locais. Ao final, a conclusão dos moradores da vila foi que a maldade era inerente ao ser humano, que eles deveriam enfrentá-la, e que criar “monstros” para proteger seus filhos dos verdadeiros perigos era ainda pior.

A sociedade contemporânea não é diferente em determinados aspectos.  Muitos também procuram construir para si e seus familiares um mundo de superproteção, onde eles supostamente estarão a salvo dos horrores do “mundo lá fora”. O problema é que pessoas assim nunca amadurecem, pois ao invés de enfrentarem seus “monstros”, agem como aqueles animais que quando são ameaçados escondem sua cabeça na terra, julgando deste modo estarem livres de seus predadores.

Hoje, quem são “Aqueles de Quem Não Falamos”, as barreiras que nos impedem de conhecer o mundo além da nossa vila? Eles são as desculpas comumente usadas para justificar as chamadas “boas intenções”, a encarnação do velho jargão paterno “isto é para o seu próprio bem”.  Conselhos do tipo “não faça tal coisa, pois você não é capaz”; “não se relacione com determinada pessoa, pois ela não é boa para você”; “não escolha esta profissão porque você não terá um bom emprego” são verdadeiros “monstros” colocados pelas pessoas mais influentes na nossa vida para nos cercar e nos impedir de irmos além da zona de conforto e do comodismo no qual nos encontramos.

Assim como no filme, quem realmente dá vida aos monstros são aqueles que promovem o terrorismo da ignorância e incutem medo infundado nas pessoas, pois medo é também uma forma de maldade. O mundo jamais se transformará numa “Vila” utópica, por mais que alguns criem “bichos-papões” para tentar atemorizar os inocentes – de todas as idades - e impedí-los de conhecer e experimentar plenamente a vida “lá fora”.
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