domingo, 17 de julho de 2011

Breves Considerações Sobre ALTERIDADE


Por Levi B. Santos


“Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2:18) – Eis aí uma grande metáfora da convivência humana escrita no livro do Gênesis, que nos incita a refletir sobre a alteridade.
José Célio Freire – Psicólogo da USP, no seu livro “O lugar do OUTRO na Modernidade Tardia” diz: “uma tentativa de compreender o mundo do outro, é tentar se colocar no seu lugar, contudo, não se pode estar no lugar do OUTRO, pois, quando se chega lá, ele já não está, e o que se encontra é apenas vestígios de sua passagem.”
O que nos revela em seu simbolismo o Êxodo de Abraão, senão o de mostrar a aprendizagem com as diferenças. O exílio é sempre um caminho para o relacionamento com o OUTRO – esse desconhecido. A tradição hebraica de confronto expande-se no discurso da história do Judaísmo (a Terra toda é minha, porque vocês são estrangeiros e hóspedes perante mim - Levítico 25: 26). Mas o Hebreu, na realidade, nos faz ver o que é ser um ser de passagem – aquele que se tornou um eterno hóspede em terra estrangeira – sem nunca tomar posse dela. Na estranheza dos povos que irá encontrar em sua caminhada, é que o hebreu errante irá enxergar a sua alma de estrangeiro. O terreno do OUTRO sempre será uma incógnita para ele.
“Quem encontra o OUTRO apenas pode-se dirigir a ele pela violência mortal ou pelo dom da palavra em seu acolhimento” – afirmou o ensaísta Francês, Maurice Blanchot (1907 – 2003). Sobre o que disse o filósofo francês, encontramos um paralelo na Torah – o mito de Caim e Abel –, que nos revela a linguagem mortífera da destruição do diferente: aquele que nos incomoda e nos é incompreensível. Por outro lado, é no mito cristão que surge um messias fazendo o caminho inverso do acolhimento, ao descer do seu posto poderoso para se fazer servo, e assim entender o OUTRO, ou seja, o “fraco” e o oprimido.
É na arte dos encontros que, à maneira de Abraão, saímos da nossa casa, do nosso aconchego, para a aventura de nos exilarmos de nós mesmos, no país do OUTRO. É na terra daquele que nos é estranho, que nos reinventamos. Às vezes, no enfrentamento “face a face” com o OUTRO, saímos coxeando, como Jacó, que na sua luta contra o anjo, enfrentou o fantasma de sua própria “estranheza psíquica” – uma espécie de sublimação da figura do seu irmão Esaú, que o perseguia.
Betty Fuks, sobre o “exílio e o estranho”, em seu livro – “A Vocação do Exílio” (pag. 92) relata que, certa vez, Adolph Hitler, diante da angústia da diferença, confidenciou a Herman Rauching: “O judeu habita em nós; porém, é mais fácil combatê-lo sob sua forma corporal do que sob a forma de um demônio invisível”. Na ontologia do totalitarismo, de quem o Fuhrer foi um emblemático exemplo, não existe espaço para o OUTRO, pois o OUTRO significa o “não ser”– a negatividade. O OUTRO é revestido da impessoalidade do inimigo ou do estranho ou do inferior. “Então não há problema se o OUTRO estiver sendo exterminado” – disse certa vez, o filósofo Osvaldo Luís Golfe, plagiando o totalitarista alemão.
Através da abertura que permite a escuta do OUTRO é que compreendemos que podemos possuir mais do que temos, à medida que sejamos menos do que pensamos de nós. Se pensássemos mais iríamos chegar à surpreendente conclusão: a de que não suportamos o OUTRO (diferente) por ele apresentar tudo que nos irrita, horroriza e descontenta.
Comumente, quando vemos pessoas de outros grupos tomando atitudes que não condizem com nosso padrão, achamos que são loucas ou esquisitas. Por exemplo: Um muçulmano se flagelando por ocasião da morte de um líder político religioso nos parece insano; a ele também parece estranho o fato de não nos flagelarmos quando perdemos líderes. Exercemos tais juízos quando pensamos o OUTRO não a partir de suas categorias culturais, mas a partir das nossas. Aquele que nos é estranho é sempre o portador dos aspectos mais indesejados que esquecemos que existem em nós.
O diferente desafia o script internalizado em nossa mente, e é por isso que diante dele nos fechamos de forma inconsciente, no sentido de proteger os aspectos inaceitáveis de nossa personalidade.
Bem vindo seja esse “OUTRO-TRANSGRESSOR-DESCONHECIDO-QUE-NOS-DESAFIA”, pois é nele que encontramos o lugar onde questionamos nossas “certezas”. É através dele que abraçamos tudo aquilo que somos e não sabemos que somos: o ruim e o bom, a luz, a escuridão e o seu meio termo, que é a sombra.

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