quinta-feira, 7 de julho de 2016

O protesto da Cleo Pires e a cultura do estupro




A atriz Cleo Pires resolveu literalmente tirar a roupa e entrar na luta contra o estupro e a violência contra a mulher, conforme postou numa em seu Instagram na noite do último domingo (03/07) onde ela aparece nua e justificando os motivos do engajamento na causa: 

"É sobre empoderamento, liberdade de poder ser sexual, sensual, e não ter que sofrer preconceito ou abuso por isso. Ser sexual é inerente ao ser humano, e mulher tem um dom especial, No geral, de manifestar as coisas mais essenciais."

Sinceramente, não acho que esse protesto nu da bela global possa se caracterizar como um oportunismo para ela aparecer tal como algumas pessoas passaram a fazer nas manifestações públicas. Pois, se pensarmos bem, eis que, dessa vez, faz sentido as feministas exibirem-se de maneira instigante na internet a fim de mostrarem com clareza que o corpo feminino e tão pouco os modos sensuais servem para justificar o hediondo crime de estupro.

É fato que carecemos ainda de um programa de educação sexual mais eficiente  nas escolas e fora delas capaz de prevenir melhor o estupro e combater a desigualdade de gênero. Então, sem querer exagerar, entendo ser perfeitamente possível uma mulher andar peladona na rua e os homens respeitarem-na em todos os locais. Mesmo que o sujeito do sexo masculino tenha uma reação instintiva ou venha a ingerir bebida alcoólica, o ato violento jamais se justifica. Aliás, como abordou a escritora feminista Susan Brownmiller em sua obra Against Our Will: Men, Women, and Rape (1975), o estupro constitui uma forma de violência, poder e opressão masculina e não de desejo sexual. Ou seja, o delito seria uma forma consciente de manter as mulheres em estado de medo e intimidação.

Além disso, é preciso também mudar a mentalidade existente na sociedade de que a vítima possa ter dado causa à violência sofrida pelo seu jeito de vestir ou agir. Lamentavelmente, esse ainda tem sido o pensamento de vários ilustres operadores do Direito tais como como advogados, delegados de polícia e até mesmo magistrados. Inclusive, não faz muito tempo, um policial do Rio de Janeiro, ao ser convidado para orientar a comunidade sobre segurança, disse que as mulheres poderiam evitar o estupro se "não se vestissem como vadias". Tal declaração causou muita indignação entre as lideranças feministas e pessoas esclarecidas da sociedade, motivo pelo qual foi organizada uma passeata no dia 26/05/2012, na Praia de Copacabana, a qual ficou conhecida como a "Marcha das Vadias".

Nos estudos de vitimologia, busca-se, por exemplo, diagnosticar até que ponto o comportamento da vítima teria contribuído para a ocorrência de um delito. Mas, data venia dos que pensam assim, não existe o mínimo respaldo para alguém afirmar que uma mulher vestindo trajes de "piriguete" facilitou o estupro! A atitude da vítima, neste caso, é bem diferente das situações em que, por exemplo, acontece um assassinato decorrente de briga quando um ofendeu a mãe do outro (mesmo assim não justificaria a morte). Logo, as mulheres não podem passar a viver sem liberdade de se vestir, ou de se expressar, por causa da existência de estupradores e nem justifica haver um abrandamento da pena do autor do fato com base na falta de indumentária da vítima.

Portanto, a linda atriz é digna de nossos aplausos pelo pertinente protesto nu que fez em seu Instagram, o qual de modo algum deve ser visto como algo imoral e menos ainda uma tentativa de aparecer. Até porque essa mulher bem talentosa não precisa de trampolins como esse para subir num palco do meio artístico. O Brasil inteiro sabe o quanto ela é famosa por seu trabalho na TV.


OBS: Foto do Instagram/Divulgação  
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