quarta-feira, 31 de março de 2010

Os pré-cursores anti-gaiola!


A década de 70 foi marcada por uma ruptura epistemológica da teologia. Nasce a TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO, gerada nas entranhas de uma reflexão “arbitraria” do ponto de vista ortodoxo-católico, alguns chegam a dizer que foi uma “resposta”, a ORTODOXIA, essa teve nos seus principais propagadores LEONARDO BOFF, RUBEM ALVES, MIGUEZ BONINO, JOSE COMBLIN, JUAN LUIZ SEGUNDO, CLODOVIS BOFF, FREI BETO, entre outros.

Da impressão que houve uma conspiração do pensamento contra toda ORTODOXIA, essa ruptura aconteceu também na ORTODOXIA-EVANGÉLICA, com o PACTO DE LAUSANE, uma resposta a ORTODOXIA PROTESTANTE (Evangélica).

JOHN STOTT, teólogo britânico, e o Equatoriano RENÉ PADILHA, inauguraram uma virada hermenêutica BATIZADA pelo nome de MISSÃO INTEGRAL, as duas vertentes mais expressivas do cristianismo, se “REBELARAM”, tinham em comum a quebra com o pensamento tradicional.

A nova “TEOLOGIA CONTEXTUAL” foi a mudança paradigmática no pensamento teológico; 1976  foi o que podemos chamar de “A SAIDA DA GAIOLA TRADICIONAL DO PENSAMENTO TEOLÓGICO”, tanto católico como protestante!

A história do pensamento mostra um movimento cíclico, e a fundamentação dessa teologia não foi EX-NIHILO, pois séculos antes, FRIEDERICH SCHLEIERMACHER (1768-1834) antecedeu a tese primária dessa ruptura quando concluiu:

“Toda reflexão teológica era influenciada, e até determinada, pelo contexto na qual evoluíra, impossibilitando de haver uma “pura”, supra-cultural, e a-histórica; era impossível penetrar até um resíduo da fé cristã que já não fosse num certo sentido interpretação”.

Desde a ocidentalização do cristianismo em Constantino, a reflexão teológica fazia um movimento da elite “alto”, para os laicos “baixo”, a ESPOSA era a ESCRITURA, o SÊMEN era a DIALÉTICA com a TRADIÇÃO, e a FILOSOFIA o ÓVULO, que fecundava no encontro com o seu interlocutor, o HOMEM ELITIZADO.

Sair da gaiola foi à inversão dessa epistemologia, agora seria a partir de baixo “LAICO” aquele que está às margens, a escritura permanecia como ESPOSA, o SÊMEN continuava sendo a DIALÉTICA, a FILOSOFIA e a TRADIÇÃO, sempre férteis, mas a CIÊNCIA entra no relacionamento “EXTRA-CONJUGAL” e GEROU uma filha chamada SOCIOLOGIA.

Essa com vigor começa a disputar o lugar de sua genitora, e o seu interlocutor não seria mais a elite “DOUTA”, mas, sim o pobre, “BAIXO”, o in-douto culturalmente marginalizado.
As epistemologias TRADICIONAL (ortodoxa) e CONTEXTUAL (terceiro mundo) é exposta da seguinte maneira por Sérgio Torres:

“TRADICIONAL: A verdade é conhecida de conformidade com a mente a um determinado objeto, esse conceito se confirma ao mundo existente e o legitima. OCIDENTAL: A verdade não é conhecida de conformidade da mente ao objeto (dialética), é oposto, o mundo é um projeto não concluído e em construção, um processo em transformação”.

O CLERO tinha a BIBLIA e a TRADIÇÃO como objeto da reflexão, o mesmo ocorre com a ala chamada PROTESTANTE, que tem como interlocutor a BIBLIA, não descarta a TRADIÇÃO, mas a VERDADE não é mais PRÉ-FIXA, ponto em comum na ortodoxia católica e evangélica:

“Lançar fora o filho bastardo batizado por nome LOGOS (lógica) “INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL” tendo por pai ZEUS o deus grego”.

A nova epistemologia não descarta a “TEORIA NA REFLEXÃO”, mas sua ênfase recai na “PRÁXIS” essa é a julgadora que determina a “VERDADE” na teologia; a “Reflexão crítica sobre a práxis cristã à luz da palavra de Deus.” (Gutierrez).

A ASCESE geradora da salvação META-FÍSICA perdeu a META, pois na física, o céu não tem local fixo, o DOGMATISMO, sinônimo de INCAPACIDADE DE DIÁLOGAR COM O DIFERENTE, fechou-se para a ciência, essa foi CONTEXTUALIZANDO a sua COSMO-VISÃO de acordo com o CIENTIFICISMO que deixava duas opções:

“Dialogar com as ciências, principalmente as humanas, ou ficar fossilizadas, descontextualizadas e irrelevantes para a sociedade”.

Surge a neo-ortodoxia, a bíblia deixa de SER para con-TER a palavra de Deus, a subjetividade, de-termina, já não é mais a vertical a nascente da leitura, mas a horizontal, a teologia deixa de ser o solucionador da crise, e passa a ser a TEOLOGIA DA CRISE, até o mito foi intimado a se explicar, caso se explique, deixe de ser mito, se não se cale, deixe a razão falar!

A HISTÓRIA faria a CRITICA, teria a liberdade para RELATIVIZAR TODO O ABSOLUTO, que venha contra a VIDA, afinal o epítome da fé cristã é a RESSUREIÇÃO DO CORPO e não a IMORTALIDADE DA ALMA, por isso, tanto a TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO (católica), quanto a MISSÃO INTEGRAL (protestante), tem a seguinte epistemologia em comum:

“A VERDADE não é mais metafísica, mas sim é uma construção histórico-cultural & contextual”, o CORPO é o objeto da reflexão, não mais a “ALMA IMORTAL”, a teologia deixou de ter uma VERDADE ABSOLUTA, para ter uma VERDADE HISTÓRICA, afinal o verbo se tornou CARNE, toda reflexão começa nas dores do CORPO e não nos anseios da ALMA”.

O CORPO tornou-se o principal interlocutor, e o diálogo não é mais a VERDADE PRÉ-EXISTENTE, firmada no IDEAL do SER que É; o mundo não precisa ser INTERPRETADO para que o SUJEITO se ajuste a ELE, agora, ele precisa ser TRANSFORMADO, a relação entre SUJEITO e OBJETO não é mais de PASSIVIDADE, contemplação “olhar para”, não é admirar a beleza do COSMOS, mas sim de ATIVIDADE, “entrar em, participar, mudar”, transformar a desordem do caos em cosmos!

A reflexão não é sobre o LOGOS que se fez DISCURO COERENTE, mas sobre o LOGOS que entrou num corpo e através dele não sistematizou a vida, o ONI-POTENTE torna-se IN-POTÊNTE e grita: ELOI ELOI LAMA SABACTANI, o Deus que está em todos os lugares, encontra um lugar em que está SÓ, o CORPO DE CARNE. O eterno experimenta o fim, a vida se encontra com a morte, e faz uma aliança de sentido!

Nenhuma construção poderia tentar esgotar o falar de Deus, pois o que se fala D’Ele hoje, não pode ser absoluto, a mesma fala que absolutiza o PODER do “DEUS QUE FAZ”, encontra o PARADOXO, quando “O DEUS QUE FEZ” , não FAZ!

O MOMENTO HISTÓRICO é outro, a vida é movimento, o tempo passa a ser o RELATIVIZADOR DAS CERTEZAS, assim como nas outras dimensões do saber, afinal, se a teologia tem alguma posição não é de RAINHA DAS CIÊNCIAS, mas de SERVA dos homens que pensam, e GAIOLA DOS IGNORANTES!

Não é relativizar o PODER DE DEUS, mas sim, não absolutizar o SABER DE DEUS, essa ruptura dá uma nova vida a chamada TEOLOGIA DA MISSÃO INTEGRAL, onde a antropologia, não é dicotomista, mas torna-se HOLÍSTICA, não se fragmenta em TESE e ANTI-TESE, mas interage numa SIMBIOSE com a filosofia HEGELIANA de que toda TESE, tem sua ANTI-TESE, que forma uma SIN-TESE, e que novamente volta formar uma TESE e tudo sempre volta ao ponto de onde partiu!

Mas surge a pergunta: “Fracassou a teologia da libertação e a missão integral”? No meu ponto de vista não! O que houve foi uma expectativa muito acima da realidade na época em que emergiu. No entanto a semente foi plantada, e já podemos colher frutos hoje, cada um que foi impactado mudou a sua reflexão, sua vida, e atingem outros. Esse que escreve é fruto dela, um dos que pode afirmar, vale a pena sair da gaiola!


Meu tributo a esses, que são:
Os Pré-cursores da CONFRARIA DOS PENSADORES FORA DA GAIOLA!

sábado, 27 de março de 2010

“Eu fico com a confraria dos pensadores fora da gaiola.”





Dedicarei os meus versos aos membros deste universo
Recitarei as mais belas poesias
Cantarei o amor e a alegria
Conservarei a amizade de todos desta confraria

Viajarei “Um pouco além do óbvio
Aportarei na “Sala do Pensamento”
Seguirei as “Reflexões” do Professor J. Lima
Entre “Ensaios & Prosas”, aperfeiçoarei minha rima

Anunciando “Um outro Evangelho”
Me orgulho de ser vaidoso
Neste subjetivo “cristianismo a - religioso”

“Voltando ao Genesis me alimento com os “Produtos do Amor”
Com nosso amigo “Bill”, vejo a Bíblia sem pavor

Nesta viagem às vezes abissal
Me acalmo nas águas lúcidas de um “Manancial”

terça-feira, 23 de março de 2010

Jesus: um homem (muito) além do óbvio

Creio que, mesmo quando já não houver mais nem um único ser humano aqui, a mentalidade do Homem de Nazaré ainda não terá sido perfeitamente compreendida.

Jesus possuia uma lógica "absurda", tanto para o seu tempo quanto para os dias de hoje; e de amanhã... Se atualmente já soa um tanto inadequado um homem tido como "santo" se "misturar" com prostitutas, vagabundos e mendigos, imagine há cerca de 2000 anos, num país oriental, com uma mentalidade muito mais rígida que a dos povos ocidentais.

Jesus era o próprio absurdo encarnado. Não era à toa que ele dizia frases como "quem tem ouvidos para ouvir ouça" e "quem pode receber isto receba". Ele compreendia perfeitamente o quão "extravagante" o seu discurso era - e, repito,  ainda é.

Ele veio numa época em que os hebreus seguiam uma infinidade de regrinhas, muito além dos famosos 10 mandamentos de Moisés, mais ou menos conhecidos por todo mundo. Só que ele simplesmente se saia com umas do tipo: "o que contamina o homem é o que sai da sua boca, e não o que entra através dela" e: "quem não tiver pecado atire a primeira pedra". Ele era o cúmulo da inconveniência. Questionava os valores do seu tempo, as figuras tidas como as mais "respeitáveis" e fazia tudo o que nenhum judeu em sã consciência faria se tivesse "amor à vida"; à sua própria vida...

Ainda hoje, quando algum cristão fala da necessidade de se apreender o espírito da Palavra, e não a sua escrita literal (a "letra morta") este é tido como um "liberal que acha que pode interpretar a Bíblia a seu bel-prazer". Mas, se era justamente isso que Jesus fazia! Ou o que explica o fato de ele e seus discípulos haverem descumprido várias ordenanças formais da Lei judaica e ainda assim ele ter afirmado categoricamente que cumprira toda a Lei? Seria ele um "mentiroso"? Ou na verdade estaria ele a demonstrar por seu próprio exemplo de vida que é a essência dos mandamentos que necessitam ser cumpridos e que as regras servem apenas como um caminho e uma sinalização até ela?

Alguns dizem que "nem todos podem compreender o espírito da Palavra, tendo assim que cumpri-la na sua literalidade afim de que não se percam". Isto não deixa de ser verdade, mas oculta e até mesmo combate uma verdade maior, que é o fato de que as Escrituras são um parâmetro  para a nossa vida, jamais um manual de instruções que tenhamos de seguir ao pé da letra, ainda mais sem termos feito as atualizações necessárias à época e ao espaço em que vivemos.

Jesus, o Homem muito além do óbvio, propôs a vivência de uma fé inteligente, sincera e prática, alicerçada no amor a Deus e na empatia, ou seja,  na capacidade de se colocar no lugar do outro, amando-o como a si mesmo.

Resultado: em seus dias, terminou crucificado como um bandido da pior espécie. Depois que se foi, seus supostos seguidores preferiam voltar à falsa segurança das ordenanças formais, escritas desta feita, quase todas por um ex-fariseu, classe de pessoas que Jesus, em vida, mais combatera.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Confissões do Bill

Pessoal, farei aqui uma postagem rápida. Não esperem algo muito diferente, ou bonito, será apenas minha pequena jornada até aqui.

Aqui começa.

A anos e anos atrás, nascia em Vila Velha, no estado de Espírito Santo, no hospital Santa Mônica uma criança com nome de anjo. Gabriel.

Católica de criação, sua mãe o batizou lá. Mas não deu tempo de viver nem um cadinho na velha igreja. Aos 2 anos de idade, já era levado para o mundo evangélico.

Sua mãe se convertera a Jesus na Igreja Cristã Maranata.

E a cria foi crescendo ali dentro. Mais um nascido e criado no evangelho, ou pelo menos esperava-se que fosse.

--Espaço reservado para o salto no tempo à lá 2001 de Kubric--

O carro apertado, 1 diácono dirigindo, 3 obreiros, todos de terno, num calor infernal, correndo pela Rodovia do Sol, indo em direção a um bairro pobre. Lá ia ele prestar assitência numa igreja de periferia.

Era o momento mais empolgante de sua carreira na igreja. Finalmente era alguém especial, um obreiro, um trabalhador da obra. Era reconhecido e admirado, as pessoas lhe pediam orações, esperavam dele um exemplo.

O terrorismo psicológico era constante, a qualquer momento alguém podia ter uma "revelação" de que era sua vez de subir ao púlpito e pregar. Não é algo simples pregar alí, tem que se conhecer todo um linguajar específico, e saber interpretar a bíblia de acordo com uma cartilha extra-oficial, que eles chamam de "revelação além da letra". Logo, o medo de falar besteira era grande.

Ministrara algumas vezes o período de louvor, mas a execução deste momento importante do culto (que durava 15 minutos), devia ser feito de forma militar, e cada segundo, cada passo, cada fala, cada respiração era cronometrada e medida. Olhares de desaprovação eram dados em caso de movimentos imprevistos.

As pessoas lhe pediam oração, que eram feitas acopanhadas do diácono, e sempre seguidas da pergunta fatal: Teve algum don? (alguma revelação divina instantânea, qualquer coisa que tenha visto, não há uma definição exata).

Mas ele não suportaria isso por muito tempo. Desistira e voltara a ser apenas um membro de banco. Ouviria ainda mais vezes revelações de que Deus estava lhe dando uma última chance para voltar ao batente, mas ele não conseguia. Não tinha a estrutura espiritual dos outros para suportar aquela pressão. Era mais um derrotado, deixado de lado por Deus.

--Neste momento, a tela fica preta, e aparece um relógio marcando 09:30--
--Um grande auditório, cercado de árvores, com mais de 2 mil pessoas e um preletor à frente. Um clima agradável, e todo mundo bem vestido e sentados de maneira ordeira e comportada--

Lá estava ele, ouviu várias mensagens durante o sábado, e agora no domingo outra se iniciava. Não sabia se era só ele, mas estava impressionado pela falta de nexo do que havia ouvido. Não fazia sentido sob nenhum prisma, e eram provavelmente as mensagens mais vazia que já ouvira. Elas não lhe alimentavam como antes (já estivera ali antes), mas pensando bem, esta era a primeira vez que ele as ouvia atentamente. Provavelmente ele não havia ainda atingido o tal nível espiritual que lhe impedira de continuar como obreiro, e era melhor aceitar o que ouvia.

Olhava para os lados e via boa parte das pessoas cochilando. Alguns balançavam a cabeça como vaquinhas de presépio. Mas ninguém, disso ele tinha certeza, entendia nada.

Mesmo assim, ele pensava consigo mesmo: Que privilegiado que sou, praticamente nasci nesta obra, e conheço a Verdade. Não quero imaginar como seria se fosse diferente.

Mas algo lhe chamou a atenção naquela mensagem. O preletor começava a falar de alguma outra pessoa, que havia abandonado a igreja e estava se tornando contra ela, caluniando-a. Lágrimas vinham aos olhos do homem, que falava apaixonadamente. Era de dar pena.

--A tela apaga. 01:00am--
--Um quarto escuro, o brilho do monitor só deixa a face aparecer--

Ele precisava saber quem era esse miserável que ofendia a Grande Obra, aquela que lhe dera tanta segurança e certeza da Vida Eterna. Encontrou-o, e leu seus artigos. Justificou-os, encontrou saídas lógicas, negou-os até onde pôde*

Algum tempo depois, viu no youtube um homem barbudo, com anel no dedo, cara de maluco. Por algum motivo, resolveu ver o quê aquele homem tinha a dizer. Descobriu que ele tinha um site.

Seu mundo disabou.

Nada mais fazia sentido, tudo era relativo, tudo era falso, o quê era falso? O quê era pecado? Posso fazer isso?  Deus me ama mesmo assim? Sou menor por não ser tão bom quanto aqueles outros da minha igreja? O quê é igreja? Poderei ser pastor? O quê é ser pastor? São todos pastores? Por quê me enganaram por tanto tempo? Por quê me enganei? Por quê estou enganando as pessoas?

--Aqui entra um salto quântico, atemporal, sem nexo e provavelmente desnecessário--

E aqui estou eu. Pulei muitas partes dessa minha caminhada, muitas coisas aconteceram que não relatei, mas por hora é só o que tenho.

Abraços fraternais, em Cristo.

*dissonância cognitiva, para os entendidos

terça-feira, 16 de março de 2010

Lembranças da gaiola - parte 2

Presidente: espero não estar infringindo nenhuma regra. Como tenho até quinta-feira para ficar na vitrine, vou dividir o tempo para postar logo a segunda parte, ok?


* * * * * * *
Meu pai tinha uma coleção de teologia da CPAD de uns 15 livros. Hoje sei que eram bem básicos, mas para mim, um garoto de 15 anos, ávido por conhecimentos bíblicos, aquilo era uma tremenda feijoada. Li todos eles e esta foi a minha base ortodoxa até pelo menos, os 26 anos.


Antes disso, como eu disse no último parágrafo do texto anterior, de tanto buscar o "batismo com o Espírito Santo", eu acabei tendo a experiência extática mais esquisita da minha vida. Naquela oração, cheia de um clima espiritual forte, com toda aquela emoção pairando no ar, a dirigente chama lá prá frente quem queria receber o batismo. Como eu precisava daquela experiência para ser diácono e prosseguir na hierarquia eclesiástica até o pastorado, busquei-a com todo fervor. E naquele culto de oração aconteceu.


Para os assembleianos a cena é familiar: Muita gente glorificando, muitas aleluias, muita emoção e um sincero desejo de poder "tocar em deus". Até que uma irmã pôs a mão na minha cabeça e a minha língua começou a pronunciar textos desconexos. Tenho que confessar que é uma experiência dramática em todos os sentidos.


Fiquei umas 3 horas seguidas repetindo aquelas "palavras" desconexas e estranhas e não conseguia parar de falar. O êxtese era fenomenal. A alegria indizível. Parecia de fato, que eu estava de frente a deus conversando cara a cara com ele. Não vou aqui discutir a validade da experiência, mesmo porque já fiz isso a algum tempo atrás lá na minha sala.


No ano sequinte eu era consagrado a diácono. Comecei a pregar mais e mais. Eu lia e estudava muito. Mas eu só fui mesmo conhecer o liberalismo teológico muito tarde, já com uns 23 anos. E conheci lendo um livro ortodoxo do pastor Abrãao de Almeida, que evidentemente, condenava totalmente os teólogos liberais. Nada de discussão, só condenação.


E aí, eu comecei a pôr as assinhas para fora da gaiola...

Se tinha uma coisa que me revoltava na Assembléia de Deus de uns anos atrás eram os usos e costumes. Hoje, praticamente não existe mais tantos "não pode". Mas naquele tempo ainda era uma coisa muito forte. Então, de tanto eu ouvir presbíteros e o próprio pastor sempre repetindo que irmã que cortava o cabelo ia para o inferno, não aquentei mais tanta idiotice e pedi prá sair.

A reunião que oficializou a minha saída do arraial assembleiano não foi muito tranquila. Nesse tempo, Miquel Ângelo começara a pregar a predestinação. E aí, eu fiquei fascinado com o tema. Apesar de ler muito, nunca tinha estudado a predestinação nos moldes calvinistas. E lá fui eu, passar uns tempos na igreja Cristo vive para aprender a predestinação. Nem precisa dizer que os meus antigos amigos de ministério que antes me viam como um futuro pastor, começaram a dizer que eu tinha virado herege, já que a predestinação para eles, era um heresia.

Comecei a procurar livros sobre o tema e fiquei espantado como haviam vários títulos sobre o assunto. Virei calvinista...não muito convicto. Mas depois de frequentar durante 6 meses os cultos do Miquel eu estava cheio de ouvir sobre predestinação, já que ele reformulou toda a teologia da sua igreja e começou a fazer literalmente, uma lavagem cerebral nos membros para que todos se convencessem que eles agora eram "pedras vivas predestinados antes da fundação do mundo"...isso repetido toda quarta e domingo me deu indigestão, principalmente com a arrogância do Miquel Ângelo que cheou a dizer que nem Calvino tinha a revelação que ele tinha.

Chutei o balde de novo e fui respirar ar puro.

Então, eu já era  meio ortodoxo, meio liberal, agora membro da primeira igreja neo-pentecostal do Brasil, a Igreja de Nova Vida, fundada nos anos 70 pelo pastor Roberto Macalister. Fiquei nessa igreja durante 10 anos e perdi por completo a vontade de ser pastor. Durante todos esses anos, dirigi um grupo teatral. Comecei a estudar teatro e me tornei um bom diretor teatral amador. Nosso grupo era muito bom e eu escrevia umas peças bem diferentes das que normalmente se viam nas igrejas.

Fazíamos muitas apresentações pelas igrejas aqui do Rio e sempre nos envolvíamos em projetos sociais. Foi um tempo muito bom. Minhas concepções teológicas agora, já estavam todas modificadas. Comecei a cursar o seminário e aí a coisa ficou boa. Lá encontrei alguns poucos professores com umas cabeças privilegiadas que me fizeram ver que teologia é uma coisa que se faz e que não existe teologia certa ou errada.

Foi nessa época que eu comprava livros teológicos de tudo que era jeito. Eu devo ter comprado com o nosso amigo Wagner uns 100 livros durante os quatro anos de curso. E comecei também a estudar muito as religiões e a ficar fascinado pela cultura religiosa do mundo. Não tinha mais como eu sustentar a pretensão do Cristianismo em ser a única religião que salva, visto que é o Cristianismo que possui o Salvador.

Pronto, forcei mais um pouco, quebrei a janela e fugi da gaiola.

A partir daí, comecei a formar a cabeça crítica e não domesticada que ainda estou construindo hoje, com a ajuda de todos vocês. Não gosto mais de comida enlatada. Não gosto mais de teologia fechada, absoluta, pretensiosa. 

E hoje, sou membro de uma igreja batista. Evidente que não penso como batista, mas não tenho como me livrar do cristianismo, muito menos de Jesus de Nazaré, que é o meu salvador. Sim, tenho Jesus como meu salvador. Quem mais teria as palavras de vida eterna...?

segunda-feira, 15 de março de 2010

Lembranças da gaiola

1990.


A reunião daquele dia na igreja Assembleia de Deus no bairro de piedade, Rio de Janeiro, prometia ser conturbada. Um jovem diácono, com um futuro brilhante no ministério da palavra (segundo lhes diziam) estava prestes a chutar o balde...


1980.

O rapaz procurava com afinco, ser um bom cristão evangélico assembleiano. Passara pelas águas do batismo um ano antes e estava extasiado com todo aquele clima espiritual à sua volta. Muitas vigílias. Cultos de oração. Muitos "não pode". O mundo não tinha nada a nos oferecer. O mundo era território do Maligno, do mal, da oposição ao espírito e à vida santa. Santidade. Essa era, com certeza, a palavra que ele mais ouvia nas pregações.


Não podia ir ao cinema. Nem à praia. Nem jogar bola ou qualquer outra brincadeira que tivesse bola. Palavrão, era pecado capital. Namorar, só com o consentimento do pastor e sobre a vigilância implacável das "irmãs de oração", todas, com idades acima dos 50 e cheias de recalques. beijar a namorada na boca não podia. Agora, um abraço afetuoso, também não podia, oras! Andar de mãos dadas era tolerado, menos para o pastor Wilson, que vivia catando casais que descumpriam as suas normas.

1990, Meses antes da reunião.

O jovem diácono nunca tinha lido sobre predestinação, apesar de ler muito, inclusive sobre teologia. Ortodoxa, não preciso nem dizer.Mas ele jamais leria sobre predestinação nos livros que ele costumava comprar. A grande maioria dos seus livros eram devocionais. Livros que ainda hoje, não saíram da sua lembrança: "O Refúgio Secreto" - a história da holandesa Corrie que em plena Segunda Guerra, arriscou a própria vida para salvar judeus da morte. Ou então, "O Contrabandista de Deus" - a história do irmão André, que em plena Guerra Fria, contrabandeava bíblias para a países comunistas. Ou ainda, "A Cruz e o Punhal" - a empolgante história de David Wilkerson, que deixou o conforto de uma igreja de interior para se arriscar pregando para as gangues de rua de New York. E tantos outros.

Anos 80.

Apesar das aulas da EBD, da doutrinação constante na ortodoxia, o jovem tinha um quê de contestador. Ele era louco por alguns "não pode". Nada demais. O rapaz só queria poder jogar bola na rua, com a garotada, sem ser incomodado pelas irmãs de oração. O problema era que ele tinha em casa, uma irmã de oração fervorosa, ortodoxa e moralista até a alma: sua própria mãe.

Oficialmente, eu era proibido de jogar bola na rua. Em casa era até tolerado, mas era muito chato ficar só chutado para meu irmão agarrar e vice-versa. Então, de tanto que eu desobedecia à ordem de mamãe, ela acabou tolerando também os jogos na rua. Mas ela fazia tal qual pilatos: lavava as mãos! se algum irmão passasse e me visse jogando bola com os meninos "do mundo", eu teria que resolver sozinho quando o pastor me chamasse para me dar um sermão sobre como jogar bola impedia a minha santidade.

1988.

O jovem rapaz fez de tudo na igreja: foi líder da mocidade, líder de um grupo musical,  porteiro, professor dos adolescentes, tesoureiro da mocidade, pregador dos cultos da mocidade. Gostava de discutir assuntos bíblicos com os mais velhos e eles viam nele um potencial para o ministério pastoral. O pastor da igreja queria de todas as formas, alçá-lo logo para o presbitério, mas como tinha que seguir a hierarquia eclesiástica assembleiana, primeiro eu tinha que ser diácono.

Mas havia um problema: o jovem não era batizado com o Espírito Santo e por isso, por mais que o pastor quisesse fazê-lo diácono, sem que ele falasse as tais linguas estranhas, não seria possível. A ordem dada foi taxativa: "rapaz, quero consagrá-lo ao diaconato, mas você precisa buscar mais o batismo com o Espírito Santo".

Ele, empolgado com a carreira que poderia ter na igreja, tratou logo de resolver os problemas da língua...

continua.

Euzinho com 15 anos extasiado com as águas batismais
1979

sexta-feira, 12 de março de 2010

"Nada de postagem..apenas um desabafo"

Por: Edson Moura

Confesso que a tentação foi grande, em colocar um texto de "impacto", mas o bom senso me bateu na face e me fez rever alguns conceitos sobre o que eu mesmo me propus escrever desde o início. Muitos não querem, ou melhor, não estão preparados ainda, para verdades sobre a vida que, de forma muito agressiva...vão de encontro ao pensamento "romântico" cristão.

Deixo então apenas um desabafo, para os meninos que adotaram a Bíblia como manual de vida...esquecendo-se que se olharem pela janela de suas casas...contemplarão um mundo "pouco" (pra não dizer muito) diferente daquilo que "querem acreditar".

Não posso ser irresponsável de querer tirar-lhes a magia...mistério...assombro dos textos bíblicos em que se apegam...para conseguirem seguir em sua caminhada rumo à "cidade celestial". Não posso cometer este delito...afinal...eu demorei algum tempo para me libertar do velho paradigma, portanto, não posso querer que "eles", em tão pouco tempo, "batam asas fora da gaiola".

Eu muito me preocupo com as pessoas novas na fé, que lêem a Bíblia, mas que também lêem nossas vidas (pois tudo que escrevo, nada mais é do quê experiências vividas).

O que estão elas lendo? Integridade ou duplicidade? Discurso sobre amor e prática contrária ao amor? Palavras sobre hospitalidade e atitudes de hostilidade? Há pessoas que começam animadas na fé, mas o comportamento de alguns de nós é para elas como um alfinete espetado num balão insuflado...Ou velhos na fé, que já estão cansados de viver no mundo da "Alice no país das maravilhas", são intolerados e até considerados ateus pelos mais jovens...

Pobres meninos, não imaginam que o caminho percorrido até aqui...fora espinhento, sofrível, contraditório...mas este é o preço da liberdade....e estaria disposto a refazer o trajeto se necessário.

Quero ser justo...caminhar no mundo, carregando em meu caráter, dois atributos que faltam à maioria dos cristãos atuais....ou seja: "Justiça e Piedade"

Por isso, precisamos buscar reproduzir as qualidades de Simeão.

Anatomia do fracasso evangélico:

Vivemos um momento muito especial como evangélicos no Brasil. Os números indicam que somos um expressivo contingente populacional. Há muitos justos no Brasil, como Simeão no antigo Israel. No entanto, precisamos nos incomodar com a seguinte pergunta: se o Brasil é cada vez mais de Cristo, por que continua ele tão miserável, tão corrupto, tão injusto e tão violento? Mais que lamentar, nós temos que chorar... de vergonha, porque não temos feito nenhuma diferença neste país.

Nosso erro tem sido colocar a estética acima da ética. Os evangélicos em geral entendem que ser cristão é adorar a Deus, seja este culto movido pela razão, seja este culto regado pela emoção. Não! O prazer da adoração faz parte do ser cristão, mas se ela não fluir para a vida serão apenas barulho diante de Deus, nunca adoração. Estética (beleza, emoção, prazer, culto contagiante) sem ética é lata vazia jogada num corredor. Adoração sem virtude é tentativa de manipular magicamente a Deus, não adoração, que dê glórias vivas (e não apenas de palavras) ao Senhor de nossa peregrinação.

Por isto, nosso país vive uma crise particular de integridade, que inclui a população evangélica, que tem se esquecido de ser como Simeão (justo e piedoso). Parece que cremos na possibilidade da convivência entre a justiça e a impiedade por parte de uma mesma pessoa.

Enquanto vivemos deste modo, o Brasil será como é.



Obrigado aos confraternos pelo espaço cedido a mim.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Um bate-bola rápido com os membros da C.P.F.G.

Amigos, colocamos esta nossa idéia no ar há pouco tempo e estamos indo bem até o momento, na minha opinião. Mas ainda há muita coisa para ser discutida e melhorada.

Alguns pontos mais urgentes:

1) A idéia deste blog é ser uma EXTENSÃO/CONTINUAÇÃO/PROLONGAMENTO  do blog de cada confraterno, e não de ele ocupar o lugar dos mesmos. Digo isso porque infelizmente noto uma acentuada  diminuição na participação em nossos blogs pessoais, onde devemos continuar postando e (alguns de nós) estamos mesmo fazendo isso. A idéia aqui é que este seja um local onde possamos postar matérias que talvez fujam um pouco do perfil dos nosso blogs pessoais, servindo como um complemento - repito - aos mesmos.

2) A idéia da eleição de um Presidente para a Confraria não foi minha, mas, atendendo a pedidos eu pus uma enquete sobre o assunto na sidebar (barra lateral) do blog. Contudo, percebo que até o momento já houve mais de 20 votos, sendo que somos apenas 11. Por este motivo, doa a quem doer, sugiro que a enquete seja anulada e que façamos uma votação com VOTO ABERTO, cada um declarando VIA COMENTÁRIO NESTE MESMO POST  o seu voto.

3) Eu concordo que a postagem mais recente do Confraterno Ed já tenha sido suficientemente explorada e debatida e os resultados, as reflexões e o aprendizado que deveria advir através da mesma já foram obtidos. Dessa forma, se não houver quem se oponha, amanhã o Edson estará livre para postar a sua matéria.

Por favor, não se esqueçam de VOTAR em um Presidente nos comentários.

Sem mais,

abraços fraternais.

terça-feira, 9 de março de 2010

Uma Analise sobre Hebreus 9


-->


Ednelson Coelho

*Quer entender melhor esta postagem? Então leia Hebreus 9 antes de começar a leitura deste post.

Enquanto o Antigo Testamento (Aliança) ainda estava em vigor, Jesus disse que nenhum jota ou tio da Lei passaria até que tudo fosse cumprido. E assim foi, posto que na morte Dele, tudo que a Antiga Aliança profetizara acerca Dele foi cabalmente concretizado na Cruz. A partir de sua morte, pois um Testamento só tem força com a morte do Testador (daí Jesus dizer que o Pai e Ele eram apenas um), foi inaugurado o Novo Testamento (Aliança) em seu Sangue, pois tanto a Antiga como a Nova Aliança só teria valia através de derramamento de sangue (a Antiga foi valida com sangue de animais aspergido por Moisés). Jesus é o Testamento Vivo do Pai a toda a humanidade. Seus ensinos são as Palavras do Testador, a saber, Deus Pai, pois Ele sempre falava: “As palavras que digo não falo de mim, mas falo conforme o Pai me tem ensinado”. É ABOMINÁVEL para mim a teologia evangélica, vivendo das culpas, medos e de obras mortas da Antiga Aliança. Querer sustentar opiniões e julgamentos a partir do Antigo Pacto é algo INADIMISSÌVEL, pois não somos judeus (porque tal Aliança foi dada aos judeus, ou não? Ou será que o grito: Está consumado! Foi mentira?) e muito menos adeptos dos sangues de touros e bodes para a justificação e santificação do ser, ou somos? Voltaremos à prática das obras mortas? De maneira nenhuma, pois se assim procedermos, estaremos decaídos da Graça, afastados de Jesus e negando a fé (Gl 5).

E o interessante é que o que se torna imundo nessa Nova Aliança é justamente o que a teologia evangélica menos enfatiza: A Consciência (ou coração, v14). A imundície está na consciência de justiça própria (achando que pode bancar a salvação) a partir das obras mortas da Lei (qualquer Lei, inclusive a Lei Moral que rege a sociedade), explicitamente descrita pelo escritor de Hebreus observado em Jesus. Nela, a Antiga Lei não tem poder de aperfeiçoar ninguém, nem mesmo aqueles que trabalham no ministério, posto que ela se apresente em forma de bebida, comida e várias ebluções e justificações da carne (v 9,10). Ora, o que nos aperfeiçoa (isso em amor para com o Pai e ao próximo) é uma consciência nova que gera obras novas, conforme as Palavras do Testamento de Deus, Jesus Cristo. Por isso Deus haver dito que escreveria as suas Leis em nossos corações, pois a que fora escrita em tabulas apenas nos serviu de Aio até que chegasse o tempo da correção (ou reforma, v.10), pois para que eu venha a ser aperfeiçoado (conforme Jesus, pois aquele que diz conhecê-Lo deve andar como Ele andou), necessário é que o coração seja renovado, como Paulo exorta em Rm 12. Com o advento dessa era (da correção ou reforma), veio Jesus e disse que a Lei durou até João Batista, e que agora seria pregado o Evangelho do Reino, pelo qual todos os homens se esforçariam para entrar nele. Como Testamento são as palavras e vontades de um Testador (nesse caso o Testador é o Pai e Jesus é o verbo, o logos, o Testamento lido e interpretado por todos), Jesus mostrou ao mundo que a vontade do Pai: que cressem Nele e em Jesus Cristo, o qual Ele enviou para a propiciação do pecado de toda a humanidade, reconciliando-O com o mundo através de seu sacrifício de uma vez por toda. Observe como coaduna perfeitamente o que Hebreus 9 afirma com o que João diz no início de seu Evangelho.

Ora, se tais palavras são verdadeiras, o ÚNICO MEDIADOR entre nós e o Pai chama-se Jesus, não as obras da Antiga Aliança (cumprida e abolida por Jesus na Cruz, pois onde se muda de sacerdócio, necessário é que se mude de Aliança, Hb 7:12). Até as Escrituras só existe por causa Dele, pois Ela desde o Gênesis anuncia sua vinda (aliás, sem Ele nada existiria). Na verdade, a consciência que não está corrompida diante do Pai é aquela que confessa sua impotência quanto a sua justificação, não recorrendo às obras mortas da Lei para se justificar. Para tais, não servi mais a teologia da “guarda do sábado, festas da Antiga Aliança, sacerdócio levítico, sacrifícios de qualquer natureza, não toques nisso, não manuseeis aquilo, não fale com aquele, não beba isso, não vá a tais lugares porque é imundo e não é lugar de cristão”, posto que tais ensinos não sejam de Jesus, muito pelo contrário, vejo Jesus andando, falando, comendo, curando no dia de sábado e se alegrando com publicanos e pecados. Ora, se esta consciência está corrompida e chama-se isso de “pecado”, logo se afirma que Jesus também pecou ao assim proceder com as classes marginalizadas e estigmatizadas de sua época. Conclui-se, então, que Jesus falhou em sua missão. Infelizmente é isso que subliminarmente afirmam.

Os evangélicos ainda não aprenderam que quem imputa pecado e justifica o pecador chama-se Jesus, o Cristo e que quem tem a última Palavra acerca de qualquer tema é o Novo Testamento Vivo que se encarnou e habitou entre nós, Jesus Cristo, homem.

sábado, 6 de março de 2010

NASCIDO E CRIADO NO "EVANGELHO"

Foto do editor do "Ensaios & Prosas" entre os seis e sete anos de idade. As "asas" simbolizam a "santidade" projetada sobre ele.



-->
Nunca ninguém havia encontrado algo que desabonasse a sua conduta de “menino crente”. Desde os primeiros anos de “banco” em sua igreja, era um exemplo de criança dedicada e obediente. Do jeito que a sua mãe o colocava no assento, ele permanecia sem se mexer durante todo o culto. Ficava tão impassível em seu lugar, que a um primeiro olhar, mais parecia uma estátua. A mãe se orgulhava quando todos sem exceção diziam: “esse menino é um santo, faz gosto mesmo de ver”.
Chegara à adolescência, sem ter recebido uma só repreensão de seus mestres da escola dominical. Era tido como um verdadeiro gênio das hostes divinas. Todos ficavam abismados com a sua capacidade de decorar textos. As pessoas ao seu redor extasiavam-se ao vê-lo recitar os comentários das lições bíblicas da escola dominical, decoradas em seus mínimos detalhes.
O Pastor eufórico dizia para a mãe do menino-prodígio: “Como é bom ter um filho nascido no evangelho, que nunca provou das coisas do mundo”. “Esse, minha irmã ─ vai longe” ─ dizia com muito orgulho. “Fique certa: Se a irmã o criar assim, separado do mundo, sem deixar ele se misturar com essa molecada imunda das ruas, a senhora vai ver Deus fazer maravilhas extraordinárias através dele. Disto eu tenho absoluta certeza” ─, concluía o entusiasmado ministro eclesiástico, mergulhado em seu paraíso utópico.
A casa do “menino que nascera crente” era todo o dia, visitada por parentes e outros que não faziam parte de sua grande família. A sua parentela era imensa, correspondendo, mais ou menos, a sessenta por cento de toda a igreja.
Certa vez, o Pastor em visita a sua casa, disse para sua mãe: “Olhe minha irmã, toda vez que eu prego sobre a parábola do filho pródigo, eu me lembro do seu filho. Vejo Deus mesmo, apontando para o seu filho, como se estivesse a dizer: Esse nunca procederá como o filho pródigo, pois foi criado dentro da doutrina santa e imaculada”.
Às vezes, o menino ouvia alguns admiradores dizerem: “Este foi escolhido desde o ventre da mãe para a obra do Senhor”.
Nunca passara por sua cabeça contestar algo, ou ir de encontro ao que se pregava como recado divino. Era enfim um robô passivo à serviço do Rei.

Foi por volta dos seus 9 anos de idade que um acontecimento surpreendente fizera desmoronar o seu mundo ilusório de santificação. Os “filhos pródigos da vida” ou moleques de rua como eram considerados por sua grande família “cristã”, desmascararam a esquisita história da cegonha contada desajeitadamente em seu meio. Foi um choque, ficar sabendo através do linguajar rude dos meninos de rua (os perdidos), a verdade escondida pelos seus, sobre como tinha sido gerado e vindo ao mundo.

Não era mais um anjo, pois perdera as suas asas. Agora, se sentia “um igual” entre os meninos mal educados de rua. As falsas certezas apreendidas desmancharam-se instantaneamente, dando lugar à desconfiança. Ao perceber que fora enganado, deixou de voar junto aos seus queridos pais, e, o único remédio que encontrou para aliviar as feridas feitas de maneira dolosa, foi sair da inocência do “Jardim do Éden”, caminhando com os seus próprios pés.

Agora, livre das amarras das asas angelicais, ele refletia sobre o avesso da parábola do filho pródigo. Ao ler e reler essa emblemática história bíblica chegou à conclusão de que, por caminhos tortuosos, o seu Pastor tinha alguma razão no que falava. É que, a continuar com o seu virtuosismo, ele estava fadado pela meritocracia eclesiástica, a ser o eterno irmão mais velho da “parábola do filho pródigo” , aquele rapaz exemplar, obediente e cheio de virtudes exteriores, mas que lá no fundo ardia-se de ressentimento e inveja, ao ver o seu desordenado irmão ser perdoado graciosamente pelo Pai.

Ele, enfim, abriu os olhos para enxergar o óbvio: não queria mais ser a cópia de um anjo, a exalar santidade através da mudez de seu comportamento exemplar. Não mais seria uma criatura arrogante e intolerante com os de fora, nem mais espargiria o veneno do ressentimento contra os desprestigiados, sem méritos e sem virtudes , os quais, pelas suas próprias condições, tinham tudo para serem alcançados pela graça e misericórdia Divinas. Aliás, graça e misericórdia, ele só conhecera de ouvir falar, pois, ao ser forjado e projetado para ser um anjo, jamais poderia entender a história de um Deus deixando o seu trono para provar em sua própria carne, da ambivalente fragilidade humana, e só assim, poder salvar os que tinham se extraviados pelos descaminhos do mundo.

A fotografia no topo desse ensaio revela claramente o olhar atemorizado do menino que, no dizer dos seus, “nascera no evangelho”. Sobre os seus ombros pesava o fardo da “santidade” regada pelos seus tutores, que ao invés de projetarem sobre ele a graça redentora de Cristo, transformaram-no na figura de um anjo submetido aos caprichos humanos.
A expressão vaga do menino, na foto, é a de quem realmente não pode corresponder ao que o Pastor e seus jovens pais tanto esperavam.

Olhando, agora, para o seu passado longínquo, ele não podia de maneira nenhuma negar que ali estampada na foto, estava a fiel imagem de quem se sentia realmente desamparado, triste, e ameaçado por temores vindos não sei de onde.

Analisando a sua imagem de menino de ontem, o velho de hoje não pode deixar de reconhecer que a fotografia, apesar de estar encardida pelo tempo, revela com cores fortes a contrariedade de quem foi forçado na infância a representar um “eu” irreal.

Ao continuar observando demoradamente o seu retrato de 55 anos atrás, por um instante, sentiu-se como o personagem principal de uma estéril peça teatral eclesiástica.

Estava tão absorto na concentração de sua antinatural imagem infantil, que em sua imaginação, via pender sobre os seus ombros, duas enormes asas angelicais. No entanto, a sua fisionomia triste emoldurada na foto, mais que tudo, revelava um coração bem distante de toda aquela antiga artificialidade religiosa, em que foi criado e exposto, para gáudio de uma platéia ávida de um “sacrossanto” perfeccionismo doentio e inumano.



Ensaio biográfico por Levi B. Santos

sexta-feira, 5 de março de 2010

O direito de não crer


Por Gresder Sil


Deus não é uma pessoa, como se entende pelo termo pessoa nos dias de hoje. Ele não tem personalidade individual, como individual é cada homem pela sua experiência e tendência particular. A sua identidade intima é “impessoal” pela essência do Espírito puro e livre que ele é. Pois pessoa é apenas o invólucro exterior que envolve a essencialidade da alma do ser de cada ente autoconsciente e existente neste mundo. Deus apesar de não ter uma personalidade como a humana é um Ser pensante consciente de si mesmo: “Eu sou o que Sou” ou como diria o homem: “penso logo existo”.


A personalidade é o conjunto formado pelas experiências e influencias que o ente sofre durante a sua formação, não somente isso como também as próprias inclinações e tendências interiores que colaboram para formação desta pessoa. Sendo Deus livre de toda influencia externa ao seu Ser, logo ele não tem uma personalidade, mas pensa e vive na mais pura inalterabilidade da sua essência.


Portanto Deus não tem sentimentos humanos pessoais como raiva e senso de justiça que são produção inconscientes e inerentes de tendências determinadas que afloram diante de uma experiência exterior irresistível. Deus não é influenciável, não sente cólera, não sente ciúmes, e nem se ofende. Toda atribuição dessas experiências a Deus, são linguagens humanas que tentam descrever em analogia precária a reação do ser de Deus sobre os atos humanos.


Desde que o homem respeite o direito do seu próximo Deus dá o direito de cada um viver como quiser e acreditar no que quiser, e ate mesmo de não Crer na sua existência. Ele não é como os seres extintivos que sentem ciúmes e não aceitam não serem amados e reconhecidos. Ele deu a cada ser o direito a liberdade de escolher, e não vai se sentir ofendido em não ser amado pelo homem usar dessa sua liberdade se não ser ao seu favor.


Ninguém neste mundo tem toda a certeza em todo o momento daquilo que crê e não crê, e por isso uma das expressões implícitas de fé mais pura é a de um ateu justo a qual diz não acreditar, sabendo inconscientemente que se Deus realmente existir, Ele vai relevar a sua descrença. Pois se Deus existe mesmo, Ele é um ser tão nobre e tão livre que não precisa ser adorado pelos homens, mas que permite os homens viverem honestamente como se Ele mesmo não existisse.



quinta-feira, 4 de março de 2010

Sobre a C.P.F.G.

1. Em primeiro lugar - e mais importante de tudo -: a idéia da "Confraria dos Pensadores fora da Gaiola" NÃO foi minha. Eu apenas "materializei" o que já existia de modo virtual, que é a integração entre diversos blogueiros, de  modo fraterno, irmanados no espírito do diálogo acerca de questões de cunho teológico e filosófico, afim de construir juntos novas perspectivas sobre estes e outros temas relevantes.

2. Como confraria que é,  qualquer pessoa que seja convidada por algum membro pode participar, desde que irmanada no mesmo espírito.

3.  Os blogueiros participantes terão o "privilégio" de "Autor", e o direito de postarem matérias suas e/ou de terceiros em momentos específicos.

4.   Os blogueiros participantes serão, literalmente, os donos do blog, podendo (e devendo, risos) "determinar" o layout a ser utilizado, os recursos a serem disponibilizados no blog, a sua forma de funcionamento, formas de divulgação etc.

Qual será o lema da Confraria?

Deixem as suas sugestões nos comentários, por favor!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...