segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A vítima não pode silenciar




Hoje, dia 10/10, é uma data dedicada à luta contra a violência à mulher. Trata-se de uma ocasião em que se busca mobilizar tanto mulheres quanto homens simpatizantes das causas feministas para um problema ainda grave no nosso país, apesar de uma década da Lei Maria da Penha.

Certamente há muitos assuntos para serem tratados dentro da amplitude desse tema. Porém, o que chamou a minha atenção na publicidade acima, divulgada por um escritório de advocacia, seria a desconstrução da ideia absurda de que a vítima de violência doméstica "gosta de apanhar", dizendo a propaganda o seguinte:

"O QUE EXISTE É MULHER HUMILHADA DEMAIS PARA DENUNCIAR, MACHUCADA DEMAIS PARA REAGIR, COM MEDO DEMAIS PARA ACUSAR"

Refletindo acerca do assunto, pensei então quais as dificuldades encontradas no meio social para a vítima denunciar o marido/companheiro agressor e pedir ajuda. E aí a primeira coisa que veio em minha mente seria o despreparo de muitas delegacias comuns, a dependência econômica da mulher, a falta de um programa protetivo eficiente direcionado a elas e a incompreensão da sociedade (principalmente da família, dos vizinhos próximos e até da comunidade religiosa).

Recordo que certa vez, quando prestava assistência jurídica numa instituição evangélica, houve um caso de agressão doméstica dentro da própria igreja referente a um casal que já se encontrava em processo de separação. Preocupado com a repercussão do caso, para que a esposa não levasse a questão à Delegacia, o pastor pediu a minha atuação a fim de que conduzisse ambos a um acordo. Na ocasião, fiz o que ele me solicitou, porém, depois, sofri um conflito ético muito intenso por causa daquilo.

Cumpre dizer que os líderes cristãos de hoje, em sua maioria, estão despreparados para lidar com a violência doméstica e um dos motivos seria a ideia errada de que os matrimônios precisam a todo custo ser preservados. Poucos padres e pastores atentam para o fato de que a convivência da esposa com um marido agressivo pode virar algo altamente nocivo para o seu bem estar físico-psicológico, tornando-se até uma questão de segurança. Aliás, para muitas mulheres acaba surgindo um novo mandamento de submeter-se a uma situação opressiva no lar mesmo contrariando um valor básico na Constituição e nas Escrituras Sagradas - o direito à vida.

O certo é que a raiz de tudo isso está na mentalidade entranhada no meio social de que seria "feio" ou "inadequado" a mulher agredida defender os seus direitos. E aí vem uma associação aos sentimentos de vergonha ligados à exposição de sua privacidade/intimidade diante de terceiros. Sem esquecermos da insegurança gerada na vítima pelo soco covarde de um marido cuja conduta produz instabilidade quanto ao futuro de um casamento que um dia foi motivo de grandes expectativas em relação ao desejo de uma vida feliz.

Enfrentar tudo isso torna-se um grande desafio para a maioria das vítimas, o que explica os inúmeros casos de sub-notificações no Brasil sobre violência doméstica tornando o problema menos visível na sociedade assim como ocorre com o estupro. Só que nada mudará caso as mulheres se calarem! E aí penso que devemos criar um ambiente propício para que denúncias sejam facilmente encaminhadas, seja oferecendo diversos canais de comunicação/acolhimento e, mais ainda, trabalhando para uma mudança de mentalidade. 
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