Feliz aniversário, herói

 Crônica de DemétrioMagnólio





Compartilhamos, você e eu, com o AI-5 (no seu 1968) e o golpe de Jaruzelski na Polônia (em 1981), a data de aniversário. Como presente, ofereço-lhe esse texto em defesa de sua honra. A divulgação do contrato entre o escritório de advocacia de sua esposa e o Banco Master provocou a disseminação de suspeitas gratuitas. Não me calo diante da injustiça.

As pessoas andam desconfiadas. É assustador: conhecidos, até transeuntes, abordaram-me sugerindo que o tal contrato indicaria desvios éticos ou mesmo corrupção. Tentei explicar-lhes o absurdo contido na suspeição. O contrato, de valores incomuns, só revela a competência inigualável de sua esposa, a quem peço transmitir meus cumprimentos. Já a insinuação de que, como casal, vocês confabulariam sobre contratos privados sigilosos e processos no STF é de uma perversidade abominável.

Vorcaro, diga-se, precisa ser considerado inocente até uma improvável condenação. O ex-dono do Master tem inegáveis qualidades. Patrocinou diversos eventos caros, aqui e no exterior, destinados à difusão do pensamento jurídico nacional, com a ilustre presença de políticos, empresários e ministros do STF (inclusive a sua). O nome disso é filantropia cultural. Divago, porém: não estão em causa a inocência ou culpabilidade de Vorcaro.

Anos atrás, os petistas te rotulavam como "fascista", lembra? Agora, são os bolsonaristas que te insultam como "tirano". Segundo a New Yorker, certa vez você acalmou teus seguranças assegurando que "o herói nunca morre no começo da história". Ironia, claro, mas verdade: você é um herói da democracia.

O vazamento do contrato serve aos bolsonaristas, inimigos da democracia. Bom que, rapidamente, a jatinho!, Toffoli puxou o caso Master para o foro do STF e decretou sigilo judicial máximo. A alegação foi oportunista, sabemos, mas a justiça precisa se defender, mesmo às custas da lei. Daqui em diante, a PF evitará novas revelações e, com elas, ciclos infindáveis de pérfidas especulações jornalísticas. A democracia respira melhor longe de escrutínios exagerados.

"Infeliz da nação que precisa de heróis", disse o teatrólogo Bertolt Brecht. Errou, no caso do Brasil. Eis o certo: "feliz a nação que tem o privilégio de contar com um herói como Alexandre de Moraes". A frase corrigida deveria ser enviada a teu colega Fachin, que emergiu –bem agora!– com a proposição esdrúxula de um código de conduta para o STF. Ingenuidade, espero, pois tem cara de conluio com os golpistas: a proposta equivale a um tapa na tua cara e na do companheiro Toffoli.

Aplique-se a "democracia militante", na expressão popularizada por Gilmar. Que tal o STF declarar inconstitucional a ideia do código de conduta? Basta invocar a doutrina neoconstitucionalista, que prega a ressignificação da letra da lei à luz dos princípios gerais da Constituição. A democracia é um pilar constitucional. Nas atuais circunstanciais, a mera sugestão do tal código serve de bandeira aos inimigos da democracia –e, portanto, agride a Lei Maior. Matem isso no berço. No peito. Heroicamente.

Meu presente de aniversário chega com uma semana de atraso. É proposital: aguardei possíveis novos vazamentos para contestar o conjunto do ataque golpista. Nada veio, tudo sob "controle constitucional". Feliz aniversário, herói.



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publicado no jornal A Folha de SP. folha

Comentários

O texto adota uma estratégia retórica marcada pela ambiguidade e pela autocontenção, recurso que, no plano formal, remete a tradições de escrita sob contextos de forte sensibilidade política. Na minha leitura, essa escolha não decorre da existência de censura no cenário atual, mas pode acabar dialogando, ainda que de forma não intencional, com a percepção — difundida em setores bolsonaristas e da extrema direita — de que haveria restrições à liberdade de expressão impostas pelo ministro. Trata-se de um efeito colateral possível de uma opção estilística que busca proteger o argumento, mas que merece ser ponderada no debate público.
Eduardo Medeiros disse…
Na verdade ele usou da mais pura ironia...

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