COMO A ESQUERDA PODE (e deve) DIALOGAR COM OS EVANGÉLICOS



Por Hermes C. Fernandes


Durante muito tempo, setores da esquerda acreditaram que a política se reduzia a uma equação tecnocrática: bastava apresentar dados, estatísticas inflacionárias e argumentos racionais para convencer as massas. Imaginou-se que a política fosse uma disputa de informações, e que venceria quem apresentasse os fatos mais sólidos ou os diagnósticos mais consistentes. Mas ninguém vive de planilhas. O ser humano é movido por símbolos, narrativas, afetos e, acima de tudo, pelo senso de pertencimento.


Antes de sermos criaturas que raciocinam, somos criaturas que amam. E aquilo que amamos molda a forma como interpretamos o mundo.


Os evangélicos não são uma exceção a essa regra; são a expressão viva dela. Eles interpretam a realidade a partir de uma gramática própria, de uma cosmovisão moldada por narrativas bíblicas, canções, sermões, testemunhos, símbolos e experiências espirituais acumuladas ao longo de toda uma existência.


Quando um evangélico fala sobre Reino de Deus, redenção, pecado, graça, misericórdia ou esperança, não está apenas utilizando conceitos religiosos. Está mobilizando um universo inteiro de significados.


Por isso, qualquer tentativa de diálogo que ignore essa linguagem já nasce condenada ao fracasso.


Não se trata de manipular símbolos religiosos nem de instrumentalizar a fé para fins políticos. Trata-se de reconhecer que toda comunicação verdadeira exige tradução.


Quem deseja dialogar precisa aprender a falar uma língua que o outro seja capaz de compreender.


Talvez uma das maiores dificuldades da esquerda tenha sido acreditar que bastava falar sobre justiça social, distribuição de renda, combate à desigualdade e inclusão. Tudo isso é importante. Mas frequentemente essas ideias foram apresentadas numa linguagem estranha ao imaginário religioso de milhões de brasileiros.


O grande erro da esquerda foi o desencontro vocabular.


O Vocabulário Secular da Esquerda x A Gramática Sagrada do Evangélico


O que a esquerda chama de “Igualdade Socioeconômica”,  os evangélicos chamariam de “Manifestação do Reino de Deus.”


O que a esquerda chama de “Inclusão e Diversidade”, nada mais seria do que o amor ao próximo sem acepção.


O que a esquerda se refere como “Direitos Humanos e Sociais”,  os evangélicos reconheceriam como misericórdia e graça para os vulneráveis.


Muitas vezes, ambos os lados estão descrevendo a mesma montanha, mas subindo por vertentes diferentes. 


Paulo, o apóstolo, descreve o reino de Deus como sendo sinônimo de “justiça, paz e alegria”. Não haverá verdadeira alegria comunitária (Shalom) sem paz. Não haverá paz sem justiça. Não haverá justiça sem amor. E não há amor autêntico que permaneça de braços cruzados diante da fome, da violência e da exclusão.


A justiça está no coração da fé bíblica.


A Bíblia não separa fé e justiça. 


Os profetas não denunciavam apenas idolatrias religiosas, nem eram apenas moralistas de costumes. Eles denunciavam a exploração econômica, a corrupção dos governantes e a opressão dos vulneráveis, simbolizados nos órfãos e viúvas.


Amós condena aqueles que vendiam o pobre por um par de sandálias.


Isaías denuncia os que acumulavam casas e terras enquanto o povo sofria.


Miqueias acusa os poderosos de devorarem o povo como quem devora carne.


Jesus inicia seu ministério anunciando boas notícias aos pobres, liberdade aos cativos e restauração aos oprimidos.


Quando descreve o juízo final, ele não pergunta sobre filiações partidárias, mas sobre comida oferecida aos famintos, acolhimento aos estrangeiros, cuidado com os enfermos e visita aos encarcerados.


De acordo com os registros de Atos dos Apóstolos, a igreja primitiva compartilhava seus bens para que ninguém passasse necessidade. 


A fé bíblica nunca foi apenas uma experiência privada entre o indivíduo e Deus. Ela sempre carregou consequências sociais.


O amor, na linguagem das Escrituras, não é um sentimento abstrato. É uma prática concreta.


É pão repartido. É mesa compartilhada. É dignidade restaurada.


Por isso, se o campo progressista deseja dialogar com os evangélicos, talvez devesse começar mostrando que muitas das preocupações que chamamos de justiça social já habitam, há séculos, o coração da tradição cristã.


Precisa parar de tentar traduzir o secularismo para o crente, e começar a entender que a justiça social já está no coração da mensagem do Reino de Deus.


A Armadura de Saul não nos serve


No livro de 1 Samuel, quando o jovem Davi se voluntariou para enfrentar o gigante Golias, o rei Saul tentou vesti-lo com sua própria armadura de bronze. Davi mal conseguia andar. Ele percebeu que não venceria o gigante se tornando uma cópia de Saul. Venceria sendo quem era. Venceu com o que conhecia: a simplicidade do pastor e a precisão da funda.


A esquerda contemporânea precisa internalizar essa metáfora. A armadura do pragmatismo cínico não lhe deveria servir.


Para enfrentar a máquina de desinformação da extrema-direita, o caminho não é construir uma máquina de desinformação simétrica. A mentira, as fake news, o assassinato de reputações e a manipulação do medo apocalíptico não servem ao projeto progressista.


Se, para vencer o monstro, precisarmos nos transformar nele, a derrota espiritual e cultural já terá acontecido antes da abertura das urnas. A questão central não é apenas ganhar eleições; é preservar a alma do projeto.


O apóstolo Paulo, em sua primeira carta aos Coríntios, escreveu o maior tratado de comunicação da história: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o metal que soa ou como o sino que tine.”


Na política, isso se traduz perfeitamente. Um partido pode ter o plano de governo mais consistente, o diagnóstico macroeconômico mais preciso e os ministros mais brilhantes. Contudo, se a linguagem utilizada para comunicar esses projetos for eivada de arrogância intelecto-cultural, agressividade e desprezo pela fé popular, tudo o que se produzirá será ruído. Metal que soa. Sino que tine. Barulho sem sentido.


As pessoas não escutam apenas aquilo que dizemos. Elas escutam também a forma como dizemos. Escutam o tom. Escutam a postura. Escutam a disposição para ouvir.


A comunicação não é o tubo por onde passa a mensagem; ela é a própria mensagem encarnada. O tom da voz revela o tamanho do respeito que se tem pelo interlocutor.


O Perigo do Contágio pelo Ódio


A polarização política radical opera uma alquimia perversa: ela transforma adversários em inimigos, e inimigos em monstros caricatos. Contudo, um projeto autoritário e desumanizador não vence apenas quando conquista a maioria das urnas. A sua vitória mais profunda ocorre quando ele consegue contaminar a oposição com a sua própria lógica.


Toda vez que isso acontece, a democracia não apenas se enfraquece; ela morre por dentro. 


A democracia é frágil porque ela pressupõe um imperativo ético: o de continuarmos enxergando humanidade naqueles de quem discordamos. Quando essa barreira cai, o autoritarismo triunfa.


Projetos de poder baseados no medo não conquistam apenas territórios políticos; eles colonizam o território emocional.


Vencem quando nos fazem acreditar que o outro deixou de ser um cidadão para se tornar uma ameaça absoluta.


Vencem quando nos convencem de que a divergência não é um debate, mas uma guerra de aniquilação.


Vencem, fundamentalmente, quando nos fazem odiar.


O ápice dessa vitória invisível ocorre quando passamos a odiá-los de volta com a mesma intensidade.


Nesse exato momento, a armadilha se fecha. O monstro que combatemos moldou a nossa alma à sua imagem e semelhança. Passamos a operar sob a mesma gramática do conflito permanente que combatemos. Abandonamos a esperança da transformação e passamos a enxergar o trabalhador evangélico da periferia não como um irmão de classe fustigado pela realidade, mas como uma caricatura alienada.


Toda vez que rotulamos em vez de escutar, decretamos que o outro é incapaz de mudar. Desistimos do encontro. E, quando o encontro é cancelado, o que resta é a colisão e o caos.


O amor, a compaixão e a empatia não são sinais de frouxidão ou covardia política. Em tempos de barbárie e cinismo, o afeto é a maior e mais subversiva ferramenta de resistência cultural.


A nossa linguagem precisa ser o afeto. As pessoas deveriam ser capazes de identificar o campo progressista cristão não pelas bandeiras ideológicas que ele carrega, mas pela forma como ele trata o ser humano.


Lembra-se da noite da traição de Jesus? Pedro tentava se misturar à multidão no pátio para não ser preso. Mas as pessoas ao redor olharam para ele e disseram: “Você é um deles. O seu sotaque te denuncia.” (Mateus 26:73).


Que o nosso modo de falar também nos identifique:


Que percebam em nós mais escuta do que julgamento.


Que vejam mais compaixão do que soberba intelectual.


Que encontrem mais acolhimento do que cancelamento e hostilidade.


As pessoas não votam apenas baseadas em conceitos abstratos; elas votam baseadas em percepções e semiótica. Jesus compreendia o poder dos símbolos: ele não fez uma tese sobre a fome, ele multiplicou os pães; ele não teorizou sobre a exclusão social, ele comeu na casa de publicanos.


Aparência de Cordeiro, Voz de Dragão


O livro do Apocalipse traz uma chave de leitura semiótica impressionante para os dias atuais: a descrição de uma besta que “tinha dois chifres semelhantes aos de um cordeiro, mas falava como dragão” (Apocalipse 13:11).


Esta é a síntese do falso moralismo político. Nem tudo o que se veste de santidade é santo. Nem todo projeto que usa o nome de Deus serve ao Reino de Deus. Existem estruturas de poder que utilizam a liturgia da fé cristã apenas como verniz para esconder a violência, o armamentismo e a exclusão econômica.


O papel da esquerda no diálogo com a igreja não é criticar a religião, mas ajudar a comunidade a discernir o espírito por trás do discurso. É mostrar o contraste bíblico entre o Cordeiro que se sacrifica pelo povo e o Dragão que sacrifica o povo pelos seus interesses.


O Verdadeiro Campo de Disputa: Amor vs. Poder


A linha divisória da história não está entre esquerda e direita, nem entre crentes e ateus. A verdadeira fronteira separa dois projetos civilizatórios:


PROJETO DE PODER vs. PROJETO DE AMOR


"Como posso dominar?"     vs.      "Como posso servir?"


Cria inimigos e muros.    vs.      Cria pontes e comunhão.


Alimenta-se do medo.      vs.      Floresce na esperança.


A grande tarefa histórica da esquerda ao dialogar com os evangélicos não é convertê-los ao secularismo ou pedir que abandonem suas fés. É demonstrar, com profundo respeito e coerência, que a fé que eles professam é a maior aliada na construção de uma sociedade livre da fome, da miséria e da injustiça. Afinal, o Reino de Deus não se mede pelo palácio que se conquista, mas pelo banquete que se partilha.


P.S. Não sou filiado ao PT ou a qualquer outro partido. Mas recebi com gratidão o convite de ser um dos palestrantes do IV Encontro Nacional de Evangélicos e Evangélicas do PT.


📷: Imagem divulgada pelo autor no Facebook juntamente com o texto acima.

Comentários

Eduardo Medeiros disse…
Que lindo esse discurso de que a esquerda é "amor". Coisa nenhuma, nunca foi.
O discurso da esquerda não seduz os evangélicos pois a maioria deles são conservadores, e não querem pautas como o aborto livre, a imposição de linguagens neutras, a imposição de ideologia que desprezam e atacam a masculinidade, porque não vê, por exemplo na parada gay a tal falada "diversidade" e sim, um desfile a céu aberto de promiscuidades. E isso foi tudo que restou à esquerda. As pautas comportamentais progressistas que a maioria dos evangélicos não concordam.

O discurso de "igualdade social" está desgastado, a esquerda nos governa há 20 anos e pouca coisa mudou de fato. Só restou o discurso.

Evangélico conservador não engole marxismo, e tudo o que pastores progressistas como o autor do texto tem a oferecer é um discurso onde o marxismo suplanta o cristianismo.
Marxismo e cristianismo são incompatíveis e até nos pontos onde poderia haver contato, é transformado em discurso ideológico que veste a esquerda com o falso manto do "amor".
Caro Edu,

Respeito sua posição e compreendo as preocupações que você levanta. Apenas acredito que o texto do Hermes está sendo lido como uma defesa da esquerda partidária quando, a meu ver, sua proposta principal é outra.

A tradição cristã sempre foi maior do que as categorias políticas modernas. Ela já inspirou movimentos conservadores, liberais, reformistas e até revolucionários em diferentes épocas da história.

Quando o autor fala de justiça social, não está necessariamente falando de marxismo. Está falando de temas que também aparecem em Amós, Isaías, Miqueias e nos Evangelhos: fome, pobreza, exploração, misericórdia e responsabilidade para com o próximo.

Podemos discordar de várias pautas defendidas por setores da esquerda contemporânea e, ao mesmo tempo, reconhecer que a preocupação com os vulneráveis faz parte do coração da mensagem cristã.

Talvez o desafio não seja enquadrar o Evangelho na esquerda ou na direita, mas permitir que o Evangelho continue questionando a ambos.

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