
O fato de Jesus ter falado em nome de Deus, de ter usado as escrituras com autoridades e insinuado ser Deus não prova que ele cria em tudo aquilo ou que ele mesmo era Deus, mas que ele tenha assumido existencialmente uma responsabilidade que ele acreditou ser dele e de mais ninguém e a qual por isso se julgou acima de qualquer lei moral para poder interpretar e reinterpretar qualquer coisa concernente ao sagrado por que a superioridade de sua lei interior cravada em seu coração abolia qualquer lei que podia o impedir de estabelecer um reino espiritual entre os homens.
Um dos conceitos mais importante defendido por Jesus foi o de que a lei foi feita para o homem e não o homem para lei, ou seja: o homem esta acima da lei e da moral e a lei e moral existem em benefício e segurança do homem, para servir o homem para seu bem. O que em ultima estância aquele que tiver todos os dons e atitude superior que o sobrepõe a qualquer lei, tem seu pleno poder s0bre ela, para poder administrá-la para o seu próprio bem e principalmente para o bem de todos os outros pequeninos abaixo desta lei.
O que é e sempre foram comuns na mente dos grandes e singulares homens da historia humana foi suas crenças intimas de que eles podiam fazer uso de qualquer lei, para aboli-la ou reinterpretá-la para promover o fim de seus intentos grandiosos que visam o cumprimento não da relatividade das leis escritas, mas sim do espírito universal da lei de promover o máximo bem estar geral para os seres pela qual a lei moral foi criada ou percebida pela razão humana. Portanto no estrito caso de Jesus, por ele perceber a grandeza insuperável de sua missão, ele fez uso arbitrário da lei, utilizando-a para os fins que ele acreditou ser condicionado.
Jesus em certos pontos e por varias vezes usa os escritos antigos tanto para reinterpretá-lo ou para ratificá-lo em seu beneficio como fonte de prova daquilo que ele queria passar como conceito de crença e conduta. E sua autoridade ao mover se assim flutuando livremente sobre a estrita regra fixa da lei e sua interpretação como um ser que esta acima dela, vem da sua crença intima de que ele pela grandeza de sua missão poderia usar tal lei, tão tradição e tão fonte sagrada como meio de ratificação do seu próprio ministério que vinha a ser superior em benefício humano a tudo aquilo que dantes tinha sido dito e escrito nas tradições e livros intocáveis daquele povo singular.
Ao se encontrar existencialmente na conjuntura social e histórica de um povo profundamente religioso, com uma bagagem cultural e espiritual riquíssima de materiais, Jesus faz uso de todo esse produto fértil produzido por este povo na historia como meio de fonte primaria e ponte de apoio para o seu próprio desígnio, não necessariamente crendo como eles, mas usando suas crenças como ponto de partida e fonte de informação para a solidificação do entendimento do espírito de seu ensino que sobrepuja qualquer lei, tradição, cultura e religião humana no tempo e na historia.
Portanto ao fazer uso da lei, ao insinuar-se sendo o messias ou o Deus dos antigos, isso não prova que de fato ele tenha sido isto, mas possibilita a enorme probabilidade humana de ele ter tido a intuição pessoal de que ele poderia usar arbitrariamente daquele material em suas mãos para os fins que creu ser superior a toda aquele modo estrito de ver e sentir a Deus e seus mandamentos, instituindo assim uma lei da razão e do coração superior a lei escrita e rígida defendida encarniçadamente por aquele povo. Pois ele como homem surgido no tempo e na historia como filho daquele povo se sentiu também universal como filho de toda a terra e presente de Deus ao mundo para qual sua lei, reino e mensagem fossem ensinados.
Esdras Gregório
Escrito em 21/01/12
Comentários
Ah, lembrei...só que este texto, Gresder, ficaria melhor agora na outra confraria teológica que nós abrimos para abrigar nossos sonhos de religare...
www.logosemithos.blogspot.com
Mas enfim, é muito bom "rever" alguém da velha guarda...heeeee
Primeiramente, quero lhe dar as boas vindas ao lar, do qual muitos já debandaram sem dar satisfações.
Sobre seu texto o que tenho a dizer, é que o escritor, assim como o músico, o pintor, é, acima de tudo, aquele artista que retrata a alma enquanto trabalha. Estamos sempre fotografando os nossos sentimentos e reações na estrada do amadurecimento individual. A cada ano que se passa passamos por muitas paisagens. A mais bela sempre é aquela multifacetada e multicolorida que os avanços tecnológicos e científicos nos oferecem.
Não somos seres estáticos, pois, estamos sempre em um movimento contínuo de renovação do nosso entendimento. O Jesus que ora você pinta, não é o mesmo do nosso tempo de fundamentalista, e pode também não ser o de amanhã. À medida que vamos mergulhando em nós mesmos para entender as nossas idiossincrasias, vamos puxando brasas para nossa sardinha. (rsrs)
Você há de compreender que as aspirações revolucionárias das massas oprimidas do tempo de Cristo foram a condição “sine qua non” sem a qual não haveria a fomentação do movimento religioso-messíânico, que descambou no cristianismo paulino.
Mas a luta por um Salvador da pátria já existia desde os mais remotos tempos, no inconsciente judaico. Naquela época, o povo humilde (quando era escravo) ansiava por um pai bondoso (projetada, modernmente em Jesus), que o ajudaria e o libertaria da opressão romana, mas odiava o pai malvado (Javé) que o oprimia e o atormentava na figura dos imperadores romanos.
Mas o Jesus narrado pelos evangelhos se fez mito. E como todo mito, quer nos mostrar os dois lados antagônicos ou paradoxais (o direito e o avesso). Veja como o mito Cristão quer mostrar a nossa ambivalência ou a contradição de nossos afetos diante do diferente: Cristo é traidor e herege para o Judaísmo e, ao mesmo tempo Herói e Salvador para a igreja primitiva. Cristo é aquele que trai a tradição, para fazer surgir o novo, que nada mais é que a transgressão do politicamente correto do establishment
Deste modo quando criamos uma nova história, estamos, de certa forma, desconstruindo o nosso passado arcaico. Mas, deixa que o NOVO criado, é, de vez em quando, assaltado pela saudade ou nostalgia do Éden (rsrs)
Tem como você fazer um comentário que possa analisar o texto pela ideia do texto?
Dostoiévski, sentia-se um injustiçado na prisão onde foi confinado.
Penso que as suas muitas leituras à respeito de um Cristo que não se fixava na letra da lei mas no espírito da lei (relativizando-a), o fez, de certa forma,identificar-se com o messias crucificado que ficou ao lado dos oprimidos e marginalizados.
Já sei:
O Edu vai dizer que os membros da nossa gaiola herética, podem frequentar a igreja "Logos e Mithos", sem medo de ser penalizados.
P.S.: Lembrei-me agora da hora do apêlo, que o pastor faz, solenemente, no final do culto. (rsrs)
nos nossos bons tempos da extinta "sala do pensamento", do "outro evangelho e do "cristianismo a-religioso"(estes ainda na ativa mas sem o brilho de outrora) discutimos ao extremo a pessoa e a obra de Jesus; discutimos o homem e o mito; a compreensão que cada um de nós constrói sobre ele, nossas discordâncias e concordâncias.
Discordei de você de que Jesus "manipulou"(até que seja no bom sentido) a crença dos judeus do século I como você diz
Ao se encontrar existencialmente na conjuntura social e histórica de um povo profundamente religioso, com uma bagagem cultural e espiritual riquíssima de materiais, Jesus faz uso de todo esse produto fértil produzido por este povo na historia como meio de fonte primaria e ponte de apoio para o seu próprio desígnio, não necessariamente crendo como eles, mas usando suas crenças como ponto de partida e fonte de informação para a solidificação do entendimento do espírito de seu ensino que sobrepuja qualquer lei, tradição, cultura e religião humana no tempo e na historia.
Eu vejo Jesus, o homem, um rabi, um fariseu(muito provável) com uma consciência de missão sim, mas também crendo em si mesmo como messias para o seu povo. Pode ser que buscou deliberadamente se adequar a algumas profecias messiânicas, mas acredito que estava plenamente imbuído e envolvido com a fé do seu povo, com a fé javista.
Nesse ponto tenho que discordar um pouco do Levi quando diz que
"Naquela época, o povo humilde (quando era escravo) ansiava por um pai bondoso (projetada, modernmente em Jesus), que o ajudaria e o libertaria da opressão romana, mas odiava o pai malvado (Javé) que o oprimia e o atormentava na figura dos imperadores romanos."
A figura de Javé como um pai bondoso já estava estabelecido nos grandes profetas(Isaías, Oseias, Jeremias...); a imagem de Javé como pai que chora a morte dos seus filhos ou que sofre como um marido traído já estava estabelecida. O Javé dos exércitos já tinha amolecido bastante depois da experiência do cativeiro. Jesus talvez tenha dado a pincelada final nesse Deus que agora é de fato, Abba.
“Circuncidem-se em honra de Javé, circuncidem o coração, homens de Judá e moradores de Jerusalém, para que a minha ira não saia como fogo e queime, e ninguém possa apagá-la, por causa do mal que vocês praticam". (Jeremias 4: 4)
No meu comentário anterior eu coloquei a figura de Javé presente na opressão dos romanos sobre os judeus, por acreditar que no inconsciente coletivo judaico tudo que era escravidão era percebido como um castigo divino, ou javélico.
Depois, veio aquela história do silêncio de Javé (após Malaquias), que “intrigado”, ficou mudo por 400 anos até a chegada do messias (bem, era isso o que eu ouvia no meu tempo de igrejeiro)
Jeremias chega a dizer que Javé nunca pediu culto ao povo, que durante os 40 anos no deserto, ele jamais pediu para ser cultuado. é uma mudança e tanto na concepção teológica javista.
Mas quanto a sua afirmação de que no inconsciente coletivo do povo a escravidão era castigo de Javé, eu concordo. Mas é bom lembrar que no inconsciente coletivo judaico também havia a promessa que Javé mesmo viria libertar seu povo na figura do seu Ungido.
É isso, seu Levi, teólogo do inconsciente disfarçado de ginecologista ...kkkkkkkk
Quanto ao texto estou de acordo, Jesus fez um uso arbitrário da tradição judaica em nome de sua própria visão de mundo. Para os judeus, um herege...
Olha aí a ambivalência humana projetada na figura de Javé:
"Javé é o que castiga e o que liberta". "Javé é o defensor da tradição e ao mesmo tempo transgressor (na figura do seu Filho)
Você falou que Javé se tornou um "pai mais fraco".
A psicanálise corrobora com sua afirmação, ao dizer que não podemos nos livrar da instância do Superego, podemos, sim, torná-lo compassivo ou compreensivo diante das vicissitudes e paixões humanas, das quais nem Jesus escapou.
Postei recentemente no "Ensaios & Prosas" um ensaio que toca nessa síntese que Jesus, no mito cristão, faz reconciliar o nosso Caim com o nosso Abel interior.
Vai lá e faz a tua crítica construtiva (ou destrutiva)- rsrs
" ...existem em benefício e segurança do homem, para servir o homem para seu bem."
Perfeito. Um texto inteligente e que muitos líderes religiosos deveriam tirar grande proveito dele.
Beijo.
Aqui está tudo em baixa. Até tema relativo a religião não está dando ibope nos comentários (kkkkkk)
Mas o Esdras, como um dos representantes da Velha Guarda e autor do texto, colaborou com a monotonia, ao "deixar o samba morrer" (como não queria a velha Alcione - em seu famoso samba), ao abandonar de novo a casa paterna para o mundo atraente do Facebook.(rsrs)
Manda um texto aí da tua lavra para tirar o marasmo dessa sala. (rsrs).
Aliás, dentro da desordem de postagens, você é o da vez.
Levi, me conteste. A maioria dos confrades não tem argumentos para discutir temas que fogem de religiosidades. Além de não publicarem temas variados, não comentam quando outros o fazem. Como já estou acostumado a postar fora da ordem, vou buscar um tema esdrúxulo como as bruxarias da Mica. He, he, he...