
Por onde anda o desejo?
Sendo ele o que nos guarda impiedosamente contra nossa
verdade: Dizeres... Dentro de cada olhar, nada é
programado. Por entre meus dedos, há imagem disparada. Afinal de contas, quem
respeita a ética do desejo? Por onde andam as
vontades? Apenas perguntas? Feito um estrangeiro que não se encontra em parte
alguma, feito as borboletas, que sobrevoam sobre as ruas... o desejo se perdeu
no decorrer do tempo. Dias bons, dias ruins o importante é se adaptar.
Andamos em cenários pintados por outras mãos, e queremos
coisas que não desejamos, pois se esvaziam essas vontades num curto gole - ou
tragada, ou mais uma noite que acordou
tingida de cinza vazio, leves rachaduras nos copos à mesa - e no que se
foi. "Temos empregos de merda para comprar coisas que não
precisamos".
Meticulosamente não sabemos na verdade quem somos. Passamos
por anos a fio, sem saber o que realmente queremos. Despudoradamente aflitos no
meio da multidão. Momentos se baseiam em metamorfosear-se em ações
estonteantes, na moralidade da transgeracionalidade. Aprendemos a lidar com as
mazelas fincadas pela relação social com o outro; o outro é a periculosidade,
que habitam em mim. Apenas esse grande Outro que me faz sentir o que realmente
sou, e o que quero. Na verdade, não sabemos o que queremos: o carro novo, o
apartamento, a roupa, o boleto o boné, a fantasia... tamponamos com a
toxicomania, nosso fragmento de espelho quebrado.
Colocando-se o mal estar da atualidade como algo que não
abarca o desamparo do sujeito inserido no laço social, provocado pela perda de
referências na modernidade, a “ morte de Deus” entre outros, impõe-se com isso,
o conflito entra a natureza dos antigos e a “liberdade dos modernos”.
O desejo põe em cheque as realidades, dos outros e de mim. E
esse espelho revela múltiplas faces, até aquelas onde (acredito) não sou, na
penumbra do que foi refletido.
O desejo, nos cala a boca...
O ego, negocia suas maiores vontades.
Supostamente seremos
o resultado do que queremos ser? Eis a pergunta. Obviamente que a ética do
desejo vai ficando de lado. As vezes deixamos para trás o que realmente
queremos. E afinal, onde mora o desejo? Ele poderá ser relativamente realizado?
O que é válido, o que o sujeito sente? Ou o que é preciso fazer para q a
sociedade nos aceite?
E o instinto mais primitivo, que fez o ser humano caminhar
pela ilusão, e transitar na civilização? Mesmo que seja claro a negação, um
dia, gozamos de satisfação em pleno sentido por tais atos: canibalismo, incesto
e assassinato.
Com o decorrer do nosso processo evolutivo, tropeçamos nos
dispositivos que fazem o ser humano se constituir...
Se hoje, diminuímos a frequência praticada, foi por pouco.
Canibalismo não é tão explícito como era antes. Incesto, esse se esconde na
contramão da civilização, porém tem seu êxito como prática (nem que seja às
escondidas). Assassinato? Se hoje não matamos por prazer, indicamos alguém para
fazer...
O desejo se desloca mais uma vez, tamponando, a real forma
de agir da raça humana...
Quantos de nós busca a resposta do que realmente nos faz ir
atrás do que que realmente nos proporciona contentamento?
O ser humano evolui isso é fato! Mas tem coisas que não
mudam: a vontade de um segundo. Totalmente voltada para o prazer e
satisfação...
A tragédia a que nos dispomos cotidianamente en-cenar, está
disposta de tal forma que o esgotamento a que estamos expostos, se distancie da
ética do desejo, nos jogando no mais completo desamparo, em um sem fim de
simulacros de existências esvaziadas, subproduto de nossa busca pulsional.
Resgatamos Antígona, a personagem da tragédia grega, para
evocar o desejo ainda que para isso a vida esteja em jogo. A ética do existir, que
busca não soterrar com os enganos de uma existência norteada por vidas mais ou
menos ordinárias. Amor ao desejo, uma trilha certamente nada fácil de ser
trilhada, onde os encontros são verdades disponíveis para quaisquer ouvidos, porém
acatadas apenas por alguns.
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